Caio de Menezes, Flávia Salme, Jornal do Brasil
RIO DE JANEIRO - Ser americano é viver no limite da passionalidade e, muitas vezes, extrapolar esse sentimento. Depois do sufoco de 2009 para sair da série B no Campeonato do Rio, os rubros mal tiveram tempo de comemorar as recentes vitórias sobre Friburguense e Tigres, que espantaram o fantasma de um novo rebaixamento na história do clube. Tudo era otimismo até chegar a notícia de que a sede da Rua Campos Sales – área nobre da Tijuca – poderá ser leiloada nesta quinta-feira para saldar uma dívida de R$ 1 milhão com a construtora WTorre.
Enquanto a equipe jurídica do America Football Club tenta suspender o leilão, os torcedores coçam os bolsos em uma apaixonada tentativa de salvar o clube.
– Já conseguimos arrecadar R$ 1.300 – contou Marcelo Burgos, professor de sociologia da PUC e presidente da Amigos do America da Baixada (Amab). – Acabamos de disponibilizar a conta para a doação, o valor é baixo, mas o que vale é ajudar.
Apaixonados, cerca de 200 americanos promoveram nesta terça-feira um abraço ao clube.
– O contrato entre o America e a construtora é repleto de irregularidades, entramos com quatro recursos no Tribunal de Justiça, todos movidos por sócios-proprietários, para questionar essa cobrança, que é absurda – esbravejou o advogado Merrwelvelson Junior, que representa os sócios.
Prefeitura quer tombar a sede
O prefeito Eduardo Paes, vascaíno, prometeu fazer o que puder para ajudar os americanos. Ele encaminha nesta quarta-feira à Câmara Municipal um projeto de lei para tombar a sede da Rua Campos Sales. Ou seja, a preservação pode inibir qualquer tentativa de especulação imobiliária – como a construção de um shopping no local, rumores que cercam a futura praça – já que impede o comprador, caso haja, de derrubar ou modificar o prédio.
– Conversei, por telefone, com os representantes da W Torres. Quero tentar convencê-los a adiar o leilão por pelo menos 30 dias, tempo para buscar outra solução – disse Paes.
A WTorre não comenta a polêmica. Limita-se a dizer que a ordem de venda foi decisão da Justiça. A equipe jurídica do America apressa-se. Na última segunda-feira, impetrou um agravo de instrumento no Tribunal de Justiça, pedindo o efeito suspensivo do leilão na 35ª Vara Cível. A defesa alega que o clube não foi notificado.
– Soubemos pelo Diário Oficial de sexta-feira, depois do primeiro pregão – disse o vice-jurídico, Américo Chaves.
O presidente, Ulisses Salgado, apela para o passional:
– O America é patrimônio do Rio. Vamos lutar.
Durante o ato simbólico, muita emoção e lamentos
Um abraço à sede da Rua Campos Sales reuniu diferentes gerações de torcedores do America Football Club. Preocupados com a possibilidade de perder seu “templo”, eles cercaram o prédio, entoando cantos de incentivo ao time de futebol e trechos do hino.
Tia Ruth, 85, torcedora símbolo, disse que a perda da sede poderia ser comparada à morte de um parente próximo.
– Amamos essa sede, ela é nossa e, jamais, poderá ser leiloada. Perdê-la, seria como perder um filho – afirmou.
Stéfano Salles, criador do site www.americanarede.com.br, tinha outros argumentos:
– Essa sede é o America. Sem ela, pouca coisa sobra. Moro na Rua Campos Sales, que perderá seu principal ponto de referência se houver esse leilão.
Para Dario Meirelles, um dos fundadores da torcida organizada Inferno Rubro, sócio benemérito e três vezes vice-presidente do clube, o América é muito mais que um time.
– O America é o norte da Tijuca. Tudo aqui foi feito sob influência do sangue. O escudo do bairro é vermelho, o Salgueiro também.
Gilson Moraes, há 70 anos torcedor do clube, lembrou que a perda da sede afetaria, também, as torcidas de outros clubes.
– Todos gostam do America. Vou, tranquilamente, ao Maracanã com essa camisa sangue e sou respeitado, todos se sensibilizam com nossa história, é um clube queridíssimo – comentou.
Além da sede, o America tem o Estádio Giulite Coutinho, em Mesquita.
22:24 - 09/02/2010