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Cultura

Gloria Pires encarna mulheres bem distintas no cinema

Daniel Schenker, Jornal do Brasil

BRASÍLIA - Uma personagem tirada da realidade, levada a ultrapassar obstáculos para criar seus filhos. Uma mulher que dá aulas de violão a alunos desinteressados ou desvinculados do universo musical e vê na chegada do novo vizinho uma possibilidade de dar uma guinada em seu cotidiano pouco estimulante. Uma é dona Lindu, mãe do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no filme de Fábio Barreto – Lula, o filho do Brasil, que abriu a 42ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro e tem estreia marcada para o dia 1º de janeiro. A outra, Baby, protagonista de É proibido fumar, segundo longa-metragem de Anna Muylaert, em competição em Brasília, que chegará ao circuito comercial no dia 4 de dezembro. Ambas são interpretadas pela mesma atriz, Gloria Pires, que viveu um ano promissor no cinema, dado o sucesso de Se eu fosse você 2 (2009), de Daniel Filho.

“Acho sotaque lindo”

São filmes e personagens bem diferentes. Contudo, seja como a mãe que sai do sertão rumo a São Paulo, seja como a personagem de classe média que segue em frente sem maiores perspectivas, Gloria surge desglamourizada na tela.

– Não tenho dificuldade com isto. Baby, por exemplo, é uma mulher que ficou congelada numa época da sua vida que julga ter sido perfeita. Ela se reencontra consigo mesma depois de bastante tempo – observa a atriz, em relação à sua personagem, que fuma sem parar, costume do qual conseguiu se desvencilhar. – Parei há 10 anos.

Nos dois filmes, a atriz investe em trabalhos de composição vocal, principalmente o emprego de sotaques, elemento que já havia incluído em O quatrilho (1995).

– Acho sotaque lindo. Não gosto de ver as pessoas falando todas de maneira igual. Quando tenho a oportunidade de inserir sotaque, faço com admiração e respeito, sem crítica. Na televisão existe um receio devido à duração das novelas e ao próprio alcance do veículo. Tanto que só usei sotaque em Memorial de Maria Moura (1994) e na época em que participava de humorísticos – relembra Gloria.

Filha do ator Antonio Carlos, a atriz começou na televisão muito jovem e integrou os elencos de programas como Faça humor, não faça a guerra (1970), Chico city (1973) e Satiricom (1973). Morando desde o início de 2008 na França, Gloria também tem encontrado no cinema boas possibilidades para explorar a veia cômica, a julgar pelos dois Se eu fosse você e pela linha tragicômica de É proibido fumar.

– O humor da Anna Muylaert é sutil, enquanto que o de Se eu fosse você, mais escancarado – compara.

Talvez Gloria esteja dando início a uma parceria duradoura com a diretora. Afinal, não são poucas as que atravessam sua carreira, valendo lembrar dos vínculos com Daniel Filho, Denis Carvalho, Gilberto Braga e com o próprio Fábio Barreto, com quem fez Índia, a filha do sol (1981) e os citados O quatrilho e Lula, o filho do Brasil.

– As parcerias aconteceram totalmente ao acaso, até porque demandam identificação e disponibilidade. Elas resultam de amizades – diz a intérprete.

Logo depois que estreou no cinema com Índia, Gloria foi convidada para o que se tornaria um de seus trabalhos mais importantes: Memórias do cárcere (1982), adaptação cinematográfica, a cargo de Nelson Pereira dos Santos, do romance de Graciliano Ramos.

– Nelson assistiu a Índia e me chamou para interpretar dona Heloísa Ramos, mulher do escritor. Quase caí da cadeira. Com a minha pouca estrada cinematográfica, ainda iniciando no mundo adulto, fiz aquela personagem sofrida. E antigamente não existia preparador de elenco. Tudo o que se fazia era sem mapa. Heloísa foi até Maceió, onde gravávamos a maior parte das cenas, e contou dados pessoais da vida dela com Graciliano. Foi muito generosa – relembra.

TV e cinema, teatro não

Os anos passaram e Gloria manteve constância no cinema, antes e depois da chamada retomada.

– A parada drástica que houve no cinema fez com que os profissionais levassem seu conhecimento para outras áreas e incorporassem experiências diversas. Saíram de seus guetos – analisa, referindo-se ao período Collor.

Na televisão participou de novelas bem-sucedidas, como Dancin' days (1978), Água viva (1980), Direito de amar (1987), Vale tudo (1988), Mulheres de areia (1993) e, mais recentemente, Belíssima (2005) e Paraíso tropical (2007). Ao longo de sua carreira, causou polêmica ao expressar sua falta de vontade em fazer teatro.

– Agora não me sinto mais cobrada. Mas na pós-adolescência, quando comecei a manifestar que não queria fazer teatro, vários consideraram um péssimo exemplo. No entanto, é um julgamento louco. As pessoas têm direito a fazer escolhas – destaca Gloria, que chegou a participar de uma montagem infanto-juvenil. – Fiz um musical chamado Era uma vez uma gata. Fazia a vilã, uma gata má. Gostei, mas levava mais tempo me preparando do que efetivamente me apresentando.

Daniel Schenker viajou a convite da organização do festival.

20:16 - 23/11/2009









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