Joana Duarte, Jornal do Brasil
RIO DE JANEIRO - Farto de escrever “histórias sombrias e amargas, povoadas por fantasmas e com finais previsíveis de morte e destruição”, o autor iraniano Shahriar Mandanipour, radicado nos Estados Unidos desde 2006, optou, em seu último romance – o primeiro lançado no Brasil – por contar uma boa história de amor, mesmo sabendo que a obra nunca seria lida dentro de seu país. No Irã, diz Shahriar, até mesmo a proximidade física ou a troca de olhares entre um homem e uma mulher que não sejam casados ou parentes são consideradas “um prólogo ao pecado mortal”. Em Teerã, censores do Ministério de Cultura e Orientação Islâmica reviram os livros a procura de palavras e frases imorais que possam “poluir a mente do leitor”.
– Viver sob um regime muito religioso, que impõe limitações extremas na vida privada das pessoas, resulta também no banimento do amor – afirma Shahriar. – Portanto, contar uma verdadeira história de amor que se passa no Irã é algo impossível, e algo que pode ter conotações extremamente políticas.
O livro Quando o Irã censura uma história de amor foi escrito originalmente em persa pelo romancista de 52 anos, mas lançado apenas em outros idiomas, já que não pode ser lido no Irã. Mesmo assim, o texto se mantém profundamente iraniano, denso em referências locais. Os livros de Shahriar foram proibidos no Irã entre 1992 e 1997, e hoje só poderiam se lançados no país com cortes. O mais recente foi escrito nos Estados Unidos, por uma questão de sobrevivência e dirigido ao público externo.
“Diferentemente de muitos países mundo afora, escrever e publicar uma história de amor em meu amado Irã não são tarefas fáceis. Após a vitória de uma de nossas últimas revoluções – durante a qual nossos brados por liberdade, com o auxilio da mídia ocidental, ensurdeceram o universo – uma Constituição islâmica foi redigida. Essa nova Constituição permite a impressão e a publicação de todo e qualquer livro e jornal, e proíbe terminantemente sua censura ou inspeção. Todavia, nossa Constituição não faz menção a esses livros e publicações terem a permissão de saírem livremente das gráficas”, escreve.
O Irã é uma “terra de paradoxos”, declara o autor. Apesar de ter sido o primeiro da região a promover uma revolução constitucional em favor da democracia, o país mantém no poder um regime religioso e totalitário, que se esforça em “devolver o país ao passado”.
– A história da literatura iraniana tem mais de 1.400 anos, e muitos dos nossos escritores e poetas clássicos são reconhecidos mundialmente. Não obstante, nossa literatura tem sido massacrada por um governo que tenta popularizar uma literatura retrógrada e tendenciosa aos interesses do Estado – revela.
Narração
No início de Quando o Irã censura uma história de amor, dois jovens de Teerã, Dara e Sara – nomes que fazem referencia a personagens de livros infantis iranianos proibidos depois da Revolução Islâmica – se encontram numa manifestação de estudantes do lado de fora da Universidade de Teerã, e passam as 300 páginas seguintes tentando, não consumar, mas apenas iniciar um relacionamento amoroso. Os protagonistas procuram manter-se sempre a frente da imaginação dos “fiscais da moral”, trocando mensagens codificadas em livros da biblioteca pública e marcando encontros em lugares inusitados, como a sala de emergência de um hospital.
E além das restrições físicas aos personagens, há também a censura imposta ao autor por um funcionário público do governo, apelidado de Porfiry Petrovich, em homenagem ao detetive que persegue Raskolnikov em Crime e castigo.
Para o narrador Shahriar, o trabalho de Petrovich é comparável a tortura policial e desaparecimentos presentes no sistema iraniano.
“É por isso que muitos romances, ao tentarem passar pelos censores do Ministério da Cultura e Orientação Islâmica, são feridos, perdem alguns membros ou são assassinados”.
Da mesma forma que seus personagens fazem para proteger suas vidas, o autor, ao escrever, também procura demonstrar que se esforça na prática da autocensura, de modo a evitar que seu texto venha a sofrer a intervenção dos censores:
“Se voce tiver prestado atenção, terá percebido que eu, com aquela notória esperteza dos escritores, descrevi o tumulto entre a polícia e os estudantes de tal forma que não posso ser acusado de parcialidade política”, escreve.
Texto riscado
Shahriar também revela para seus leitores estrangeiros como funciona a censura literária na prática, descrevendo-a nas páginas do seu romance. Assim, sempre que a história de Dara e Sara fica inaceitavelmente política ou erótica ao longo do livro, frases consideradas ofensivas são riscadas com uma linha horizontal, de modo que o leitor entenda o que seria considerado um delito literário no lrã. O texto é velado, mas o autor levanta o véu para benefício de seu leitor estrangeiro.
– Queria passar no livro a experiência de escrever livremente sob a navalha da censura iraniana, demonstrando que o autor pode ser derrotado, mas pode também enganar seus censores.
O problema maior no Irã, conta, é que depois de viver durante muitos anos sob esse moralismo estatal, o autor começa a se autocensurar sem perceber. Além disso, o governo também patrocina escritores obedientes, os ajuda a resolver questões financeiras e oferece treinamento para que escrevam o que o regime deseja.
– O escritor independente no Irã precisa lutar em três linhas de frente: a primeira envolve a batalha contra a censura estatal, a segunda é tentar derrotar a tentação à autocensura e a terceira é lutar contra a literatura falsa, fabricada e patrocinada pelo Estado.
Apesar dessas barreiras, Shahriar diz que gostaria muito de voltar para o Irã, e que morre de saudades de lá.
– Mesmo sendo bem sucedido nos EUA e tendo muito mais facilidade em escrever a partir de um país livre, teria preferido criar esse livro na minha própria terra, porque minha literatura nestas circunstâncias teria um significado muito mais profundo. Infelizmente, se eu voltar, há 90% de chance de eu não ter a oportunidade de escrever sequer mais uma linha.
Perguntado sobre a visita ao Brasil do presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, que chega amanhã para encontros com Lula, Shahriar diz que preferiria que um “presidente legítimo tivesse sido convidado”.
– Ou pelo menos alguém que pudesse mostrar ao Brasil a rica história, a cultura e a gloriosa civilização iraniana, que pudesse dizer que nosso povo é de paz, não apoia o terrorismo e gostaria de começar um relacionamento justo e construtivo com outros países.
17:58 - 21/11/2009