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Ciência e Tecnologia

Ilustrações botânicas de Margaret Mee em exposição no Rio

Evelyn Soares, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Cada traço a lápis foi desenhado com extrema precisão, e toda pincelada é marcada pela delicadeza e apuro da artista. Margaret Mee pintou mais de 400 quadros que retrataram minuciosamente bromélias, orquídeas e outras espécies observadas em 15 expedições na Floresta Amazônica. Observadora e detalhista, ela conseguiu aliar arte e ciência, tornando-se uma das maiores ilustradoras botânicas da história. Sua obra pode ser visitada até 20 de dezembro na exposição Margaret Mee – 100 anos de Vida e Obra, no Centro Cultural Correios, no Rio.

A artista inglesa veio para o Brasil em 1952 e se apaixonou pela flora nativa. O verdadeiro amor veio na terceira expedição, a primeira à Amazônia. O pulmão verde do mundo virou seu objetivo de vida. A audácia de enfrentar sozinha as dificuldades e o afinco com que produzia cada desenho inspirou uma geração “nova, atuante e viva” de ilustradores, diz Sylvia Brautigam, curadora da mostra.

É em Margaret que novos artistas veem exemplo e incentivo para prosseguir, mesmo que a ilustração botânica, em ascenção, ainda não seja reconhecida como arte.

– O valor de uma ilustração botânica é muito menor que o de qualquer outra obra. Está em um nicho diferente, mais ligado à própria ciência do que à arte em si – diz Malena Barretto, professora do Instituto de Pesquisas do Jardim Botânico do Rio de Janeiro.

Malena foi contemporânea de Margaret e realizou seu primeiro trabalho com ela, no livro Planta das caatingas. Também foi a primeira bolsista da Fundação Botânica Margaret Mee, instituição fundada em 1989, que a garantiu passar seis meses estudando no Royal Botanic Gardens – Kew, em Londres.

Os trabalhos botânicos têm sido valorizados nos últimos anos, havendo uma crescente demanda deste tipo de representação gráfica para pesquisa e divulgação, mesmo com o avanço constante de tecnologias como a fotografia científica, que poderia ser considerada uma opção para substituir os desenhos. Mas não é bem assim, diz a professora:

– As tecnologias são muito boas, mas não chegaram a um bom patamar do material. O papel do desenho tem mais durabilidade que o fotográfico, se bem conservado. Outro ponto é que as tintas usadas são desenvolvidas desde o século 18, ou seja, são preparadas para ter mais tempo de vida.

Ilustração X fotografia

Mas um fator mais contundente favorece a ilustração. No caso da foto, segundo Malena, o registro pode ficar alterado:

– O foco, a luz, a lente, a impressão podem deformar a planta. – explica. – O desenho continua sendo o preferido porque o artista pode dar o realce e fazer modificações na hora em que está produzindo.

O movimento preservacionista, iniciado nos anos 90 e intensamente radicado na sociedade atual, é talvez o principal motor que movimenta a demanda por registros botânicos, ótimas ferramentas para retratar uma natureza ameaçada de extinção.

– Qualquer registro pode ser precioso e interessante para o futuro. O negócio é retratar um mundo que atualmente não é desconhecido, mas que está desaparecendo – afirma a ilustradora. – A gente sabe o que vai acontecer: vamos perder a biodiversidade. Já está acontecendo.

Vencedora do Prêmio Jabuti de 2008 com o livro Árvores notáveis: 200 anos do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, Malena conviveu 10 anos com Margaret Mee. Numa época na qual ninguém falava de ecologia, a notável inglesa dava lições de educação ambiental. As homenagens que recebeu vão desde uma condecoração do Império Inglês, em 1972, ao enredo da escola de samba Beija-Flor de Nilópolis, em 1994.

Vinte e um anos após sua morte, Malena não precisa de muitas palavras para explicar por que Margaret Mee ainda é “a referência”:

– Ela era uma idealista, uma mulher à frente do seu tempo.

14:49 - 21/11/2009









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