Editorial, Jornal do Brasil
RIO - Causou polêmica e perplexidade o lance flagrado pela TV esta semana em que o jogador de futebol Thierry Henry ajeita a bola com a mão e o lance termina com um gol da França, que simplesmente deixou a Irlanda fora de uma Copa do Mundo. A imagem correu o mundo e foi vista por jovens de todos os cantos, que, diante da insensibilidade da Fifa ao manter o resultado, devem ter tido a certeza: em alguns setores, ser honesto não compensa, vence quem é mais esperto e quebra as regras. Que exemplo lamentável!
E não adianta criticar o árbitro que não marcou a irregularidade, isso não resolve qualquer problema. Ele estava encoberto e não deve ter visto, pois foi uma jogada muito rápida. A questão é que, se a Fifa permitisse auxiliares atrás dos gols ou o uso das imagens da TV, o gol seria anulado, e a justiça e a honestidade prevaleceriam.
É claro que nada disso seria necessário se cada esportista tivesse o caráter de acusar cada irregularidade que comete. E não se pode nem dizer que isso é impossível. Em março, no Campeonato da Romêni, o Rapid Bucareste vencia o Otelul Galati quando, aos 17 minutos do segundo tempo, o árbitro da partida marcou pênalti a favor do time da capital. No entanto, Costin Lazar, o atacante que sofreu a falta, disse ao árbitro que não tinha sido derrubado e recusou-se a cobrar a penalidade. Vendo o fair-play do jogador, o juiz deu bola ao chão e reiniciou a partida.
Pelo menos Henry, protagonista do lance que eliminou a Irlanda na quarta-feira, deu ontem uma demonstração de que pode estar se iniciando uma nova era de valorização do fair-play. Diferentemente de outros jogadores que cometem irregularidades e têm o desplante de negá-las, o francês divulgou um comunicado oficial mostrando-se constrangido com o que aconteceu, reafirmando ter usado a mão.
“Naturalmente me sinto sem graça pelo jeito como ganhamos, e lamento muito pelos irlandeses, que definitivamente merecem um lugar entre os times que estarão na África do Sul. É claro que a solução mais justa seria a realização de um novo jogo, mas isso não está sob o meu controle”.
É fato. Não está sob o controle de Henry. Está sob o controle da Fifa, que não dá a mínima atenção para o que acontece em campo, fecha os olhos para a evolução tecnológica, e joga toda a responsabilidade que envolve os jogos, especialmente os de Copa do Mundo, nos ombros de três seres humanos, o trio de arbitragem. E, se a Fifa lava as mãos, quem paga os prejuízos da Irlanda? E das empresas que lucrariam com viagens de torcedores à África do Sul? E dos clubes, que teriam seus jogadores valorizados por disputarem um Mundial?
O futebol só vai evoluir para um nível em que o mais importante de tudo sejam a honestidade do jogo e a certeza de que ninguém irá competir para ser roubado ou ter prejuízos – ainda que seja necessária a ajuda da televisão para isso – no dia em que a Fifa sentir dor no bolso. Se o governo da Irlanda fosse às cortes internacionais exigir um ressarcimento financeiro à altura da perda que o país teve com a eliminação da Copa e a Fifa tivesse de pagar por ele, no dia seguinte o auxílio eletrônico seria aceito nos campos. E os jovens de todo o mundo poderiam, então, perceber que a desonestidade nunca pode vencer.
21:48 - 20/11/2009