ir direto para o conteúdo buscar notícias ir direto para as editorias

Jornal do Brasil - O primeiro jornal brasileiro da internet



Cultura

Nelson Felix inaugura exposição no Parque Lage

Philippe Noguchi, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - É sob os braços do Cristo Redentor, nas Cavalariças do Parque Lage, que o artista plástico carioca Nelson Felix exibe sua mais nova criação, uma gigantesca instalação composta por 60 vigas de ferro e um grande anel de mármore de nove toneladas e 2,3 metros de diâmetro. Sob a curadoria de Ronaldo Brito, a mostra, que será inaugurada na próxima sexta-feita, é fruto de um trabalho a longo prazo do artista construtor, encerrando uma série de ações iniciadas há anos e permeadas pelo conceito de círculo, uma imagem sempre presente em seu trabalho.

– O círculo é uma simbologia que não representa somente a forma plástica das obras, mas também a ideia de que um trabalho pode se ligar ao outro, como num amálgama. Quero estabelecer uma forma de diálogo entre as obras que produzo – explica Felix, que volta a expor no espaço depois de oito anos.

O projeto que culmina em Cavalariças, começou em 1988 no Museu de Arte de São Paulo (MASP) com a exposição Grafite, na qual o artista resolveu alinhar uma de suas peças pelo “eixo do sol”, deixando-a literalmente torta no espaço. Decide então, em 2001, ampliar a idéia na exposição Série árabe, também nas Cavalariças do Parque Lage, fazendo com que as obras crescessem mais do que os limites que o próprio campo expositório lhe permitiam, ultrapassando as bordas, furando as paredes ou, simplesmente, retorcendo as obras em si mesmas.

Viagem de 23 graus até a Bolívia

Em 2006, o projeto de expansão atinge níveis mundiais. No Museu Vale do Rio Doce, em Vila Velha (ES), Felix monta uma gigantesca escultura de 30 toneladas de modo a “ferir” as paredes num ângulo de 23 graus. É quando ele, acompanhando sua obra, desloca-se também 23 graus no globo, chegando a um lugar específico na Bolívia, chamado Camiri, de onde faz uma foto olhando para a direção da exposição. A pequena cidade na Bolívia deu nome à obra produzida por ele.

– Minha vontade é impedir que a minha obra fique restrita ao lugar onde está exposta. Ela pode ser maior que isso e, para tanto, não preciso necessariamente fazer sentido. Aliás, a arte também não. Ela não tem uma razão de ser, assim como as minha obras – assegura o artista plástico carioca, que se mudou para Mury, distrito de Nova Friburgo, há 30 anos para “interiorizar-se” como ser humano. – Há dois desafios nessa vida: fazer arte arte bem e desenvolver seu caráter. Saindo do Rio, eu poderia controlar mais o meu tempo entre fazer e não fazer as coisas.

Completam a mostra deste ano uma coleção de seis esculturas de grande formato em mármore carrara, além de 10 desenhos em ouro sobre papel, todos expostos na H.A.P Galeria, no Jardim Botânico. A galeria ganhou mais uma sala de 50 metros quadrados somente para abrigar a exposição.

– Quando estou fazendo esses trabalhos grandes fico com muita vontade de traduzi-los para outras linguagens. Começo então a pensar meios de transportar essa ideia para uma única forma – observa Felix. – Seja com o desenho, seja com a escultura, busco recriar a mesma sensação que essas obras gigantescas me proporcionam.

Para o artista plástico, seu processo criativo não obedece a regras, apesar de boa parte de suas obras nascerem de projetos de grandes dimensões.

– Elas acabam surgindo desse verdadeiro exercício que é transmitir as ideias para a escultura e para o desenho. Tenho um certo fascínio pela escultura, pois é um atividade artística clássica. Me sinto um ser humano clássico de 2 mil anos, penso muito sobre as minhas esculturas. Se você parar para pensar, trata-se de um círculo também.

Felix acredita que a arte atualmente deve se voltar à construção de pensamentos.

– O mundo em que vivemos hoje nos impõe imagens por todos os lados. Estamos ficando saturados delas, por isso é tão difícil fazer artes plásticas atualmente – sentencia. – O pensamento dessa área sempre foi muito teórico e não deve ser assim. Se você é um artista plástico, cabe a você traduzir esse pensamento em algo plástico. É preciso começar a fugir da imagem e se voltar para o conceito. É a idéia central da arte contemporânea.

O dia da inauguração da mostra também conta com uma sessão especial do Cine Lage, projeto cinematográfico da EAV, com a exibição do filme O oco, dirigido por Luiz Felipe Sá, que aborda a produção de Nelson Felix e sua relação com as obras. Também será exibido um making of das exposições realizadas por ele no Museu Vale e nas Cavalariças. As sessão acontecem às 20h no pátio da piscina. Em fevereiro de 2010, ao término da exposição, o artista aproveita para lançar um catálogo de 304 páginas sobre o seu trabalho, contando com textos de Ronaldo Brito e Nuno Faria.

18:44 - 20/11/2009









Edição eletrônica







Jornal do Brasil - O primeiro jornal brasileiro da internet

© 1995 - 2009. Brasil Mídia Digital