Luiz Felipe Reis, Jornal do Brasil
RIO DE JANEIRO - Num daqueles dias em que a vida se resume a um tédio mortal, acinzentada pela chuva, em que só os mais chatos aparecem no bina do celular e que a caixa de e-mail se transforma num repositório de mensagens frustrantes, Rodrigo Bittencourt com certo ânimo viu pipocar uma mensagem de Thiago Antunes. O músico paulista, recém-radicado no Rio, andava desanimado com os rumos do mercado e tascou uma proposta, esperando que recobrasse o prazer em fazer música:
– Tinha acabado de gravar umas canções e, no dia em que iria assinar o contrato, a negociação deu para trás. E aí bateu uma frustração, em ter que pagar para gravar, pagar para tocar e bancar tudo sozinho. É muito caro. Estava perdendo o tesão no negócio e mandei: “Vamos montar uma banda?” – conta Antunes.
– Com quem? – perguntou Bittencourt, torcendo para que do outro lado surgisse um nome interessante o bastante para assumir o compromisso.
Daniel Lopes soou bem como resposta, assim como havia ressoado seu recente disco solo, Mais e mais refrões. Em poucos dias, os três já se apinhavam no estúdio para ensaiar. No vaivem de notas, o êxtase em descobrir afinidades e diferenças que se casam, ao testar sonoridades e criar novas canções. Por mais que amigos dissessem “Vocês acham que ainda são moleques para montar uma banda?”, como brincou Paulinho Moska. Daniel, Rodrigo e Thiago compartilham os taxativos 32 anos que reprovariam tal conduta. Mas eles não estão nem aí para isso. E sob o codinome Les Pops, assumem o palco do Cinematheque neste domingo para mostrar, pela primeira vez, suas novas canções.
Caminhos cruzados
– A MPB está infestada de cantoras, enquanto que Lenine, Chico César, Zeca Baleiro e poucos outros respondem pela ala masculina. É uma penca de meninas, que se atiram no mercado todos os dias. Uma loucura – atira Bittencourt, que ostenta no currículo canções gravadas por Ana Carolina e Maria Rita.
Com tal premissa martelando em uníssono, os três cantores, guitarristas e compositores elaboraram o sentido que resulta nesta união. Mas, é claro, sem qualquer pingo de machismo.
– O problema não é que são meninas e nem que cantam MPB, é claro. Mas são trabalhos de pouca qualidade, composições e letras fracas – frisa. – Montamos uma banda para que pudéssemos fortificar nossas canções e trabalhos.
No repertório do grupo, em que Daniel empunha o guitarraxo (uma guitarra com efeito octave, que proporciona um som grave ao instrumento), Rodrigo a guitarra e Thiago o ukelele, banjo e outros, povoam canções pinçadas dos trabalhos solos de cada um, como Esmalte (Rodrigo Bittencourt e Tavinho Paes), Salto agulha (Rodrigo Bittencourt e Thiago Antunes) e Batalha naval (Daniel Lopes), além de novidades assinadas em dupla por Lopes e Bittencourt.
– Ainda não há músicas assinadas pelos três, mas já temos um repertório próprio montado, além de quatro canções já gravadas. Devemos lançar um CD em março de 2010 – adianta Bittencourt.
Antes do Les Pops, Lopes lançou dois álbuns com a banda Reverse e conseguiu adentrar o campo minado das FMs. Quando tudo parecia dar certo, mergulhou em carreira solo a bordo de Mais e mais refrões – produzido, composto e “não mixado” por conta própria.
– Foi um trabalho muito introspectivo, cuidadoso, algo egocêntrico... Uma extrema necessidade de gravar tudo sozinho. Foi bom ter feito aquilo naquele momento – diz Lopes. – Agora surgiu uma nova banda. Não são caminhos tão racionais. Eu já conhecia o Rodrigo quando o Thiago veio com a ideia. Assim que a gente começou a tocar, tudo rolou bem. É claro que era uma bagunça sonora, mas as ideias eram muito boas. Comecei a perceber características neles que eu não tinha. Qualidades opostas que dão a dinâmica clássica de uma banda.
Lopes conta que tudo foi muito rápido. Acostumado a produzir jingles e trilhas diariamente para peças publicitárias, ele viu em Bittencourt um parceiro igualmente ágil na produção de letras e em Thiago alguém tão curioso quanto em experimentar instrumentos diversos.
– Rodrigo escreve o tempo todo, manda letras e e-mails sensacionais, enquanto eu faço música muito rápido. E aí veio o Thiago, com instrumentos inusitados que ajudaram a dar uma sonoridade orgânica e original para a banda.
21:21 - 18/11/2009
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