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Sociedade Aberta

Variações sobre o machismo

Joel Birman *, Jornal do Brasil

RIO - Em 1 de novembro, realizou-se com todo o charme que é habitual a Parada Gay, na orla marítima da Zona Sul do Rio de Janeiro. Apesar da chuva que se abateu fortemente sobre a cidade, a festa contou com a presença de muitos participantes, reunindo assim uma grande massa humana, colorida pela alegria contagiante do arco-íris. As autoridades políticas máximas do pedaço estavam lá, o governador e o prefeito da cidade, além de outros políticos de renome .Todos fizeram declarações positivas sobre o movimento gay, com especial destaque para as questões dos direitos civis e sociais demandados pelo movimento. Vale dizer, a crítica à homofobia estava presente em toda a parte, nos detalhes da cenografia e dos figurinos do cortejo festivo, que contou com a presença de homo e heterossexuais, numa atmosfera de alegria e descontração.

Este cenário afirmativo se opõe à impossibilidade de realização da Parada Gay em Duque de Caxias, onde o prefeito Zito interditou a sua efetivação. Quais os motivos dessa proibição? Razões de ordem política? Ou de ordem moral? Ambas, me parece, se conjugam numa alquimia explosiva nesse município. As ditas razões políticas se mesclam com as de ordem moral, sem passar necessariamente pela lógica dos partidos políticos a que pertencem os governantes em questão. De qualquer forma, é uma interdição que se choca frontalmente com o que ocorre hoje nos centros do mundo contemporâneo, nas quais a causa gay encontra ressonâncias e se inscreve no espaço social da atualidade.

Este contraste nos indica, no entanto, que o movimento homossexual tem ainda muita estrada para percorrer. Isso porque a sua plataforma não é aceita de maneira ampla na sociedade brasileira, pois no que concerne à questão dos direitos estamos ainda bem longe da igualdade de condições entre os segmentos homo e heterossexual. Certamente, não é por obra do acaso que, em pleno século 21, os homossexuais sejam ainda alvo frequente de violência e mesmo de assassinato na tradição brasileira. O que deve ser colocado aqui em foco, enfim, é o sistema de representação dos gêneros dominante na sociedade brasileira, que regula de maneira insidiosa e secreta a distribuição desigual de direitos.

Assim, como os imperativos morais se conjugam intimamente com os imperativos políticos, é preciso colocar em evidência que o discurso machista se encontra na base da proibição da Parada Gay em Duque de Caxias . Evidentemente, tais imperativos morais incidem diretamente no campo político, na medida em que o dito machismo regula frontalmente o sistema de representação dos gêneros, colocando então um problema crucial para os governantes dos rincões mais conservadores do país.

Seria em decorrência disso que o governador Roberto Requião, do estado do Paraná, pôde formular que o câncer de mama não seria hoje apenas uma questão feminina mas também masculina, em consequência da disseminação das paradas gays pelo Brasil. Vale dizer, o que o governador está afirmando, de boca cheia e com desenvoltura, é que para a prevenção efetiva do câncer de mama é preciso proibir as paradas gays e o homossexualismo. Da minha parte, eu não sei se dou uma gargalhada estridente ou se caio em prantos profusos com essa pérola retórica, considerando o que existe de patético na formulação do político. De qualquer maneira, no calor do acontecimento o movimento homossexual já lhe deu a resposta devida, de bate-pronto.

É neste contexto de machismo empedernido que se pode inscrever o que ocorreu em Serra Talhada, pequena cidade do interior de Pernambuco, onde o movimento homossexual se constituiu em torno do cangagay. Assim, o ideário deste grupo é marcado fundamentalmente pela ironia e pela sátira, no qual o lendário cabra-macho Lampião passou a ser travestido de rosa. Com efeito, todas as roupas e adereços do cangaceiro histórico do Nordeste brasileiro passaram a ser tingidas de rosa e vestidas efetivamente pelos componentes do grupo, que assim se apresentam . O que está em pauta nessa mise-en-scène é uma paródia em ato sobre o machismo, que se condensa na figura austera do cangaceiro-rei. Evidentemente, essa ritualização antimachista, cadenciada pelo estilo carnavalesco, provocou uma grande confusão na cidade, onde os políticos procuram interditar tal desconstrução em ato do machismo imponente.

Contudo, pode-se sempre dizer que não se pode comparar a abertura no campo dos valores morais e a inflexão ética existente na cidade do Rio de Janeiro com o que acontece na Baixada Fluminense e no interior de Pernambuco. No que concerne a isso, é preciso evocar agora o que ocorreu no campus da Universidade Bandeirante, na região de São Bernardo do Campo, estado de São Paulo. Assim, a massa de estudantes se insurgiu com violência contra Geyse, uma jovem universitária que trajava minissaia. O figurino da jovem mulher, com as pernas à mostra, desencadeou uma violência inédita num campus universitário, seja de ordem verbal seja física. A barbárie entrou em cena com todo o seu esplendor, tendo a polícia que intervir para impedir o pior, pois a jovem poderia ser massacrada pela massa truculenta e furiosa. Infelizmente, no entanto, a reitoria da Uniban decidiu expulsar a jovem, legitimando a barbárie de seus colegas.

Pode-se depreender disso tudo, portanto, que o discurso machista se dissemina de forma dominante no imaginário social, impondo-se sem entraves nos centros mais conservadores do país. Os alvos desse discurso e de suas práticas violentas correlatas, marcados pela barbárie, são não apenas os homossexuais mas também as mulheres, que são tratadas como prostitutas caso não se adequem aos padrões definidos pelo discurso machista.

* Psicanalista

17:35 - 14/11/2009












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