Fidel Pérez Flores , Jornal do Brasil
RIO - Não é a primeira vez que Hugo Chávez chama militares e civis a se prepararem para um conflito armado, mas o tom desafiante e agressivo que acompanha tais chamados raramente se traduzem em medidas concretas do mesmo teor. Esse descompasso entre o discurso e os fatos alimenta a hipótese de que, na verdade, essa retórica inflamada é apenas uma estratégia para tirar o foco de problemas internos conjunturais.
Certamente, o surgimento de ameaças externas dá aos governos margem de manobra para alavancar suas necessidades de coesão interna em momentos difíceis, principalmente quando as bases de sustentação do grupo de poder se enfraquecem. A história está cheia de exemplos nesse sentido. Neste caso, a presença militar dos EUA na Colômbia, acrescida recentemente pelo uso de bases em território colombiano estaria sendo usada por Chávez para insistir na tese da ameaça imperialista iminente e fortalecer a coesão entre seus aliados internos.
No entanto, a frequência com que Chávez lança mão deste recurso, levanta dúvidas sobre a eficácia dessa estratégia e torna difícil acreditar que ela exista apenas em função de necessidades internas. Ou então, estaríamos obrigados a aceitar que, na Venezuela, o governo pretende ser capaz de manter de forma permanente essa cortina de fumaça diante a população. Entretanto, não podemos ignorar a existência de tensões reais entre o governo venezuelano e seus adversários e que, no caso da relação com a Colômbia, essas tensões são exacerbadas pela coexistência, lado a lado, de projetos políticos que respondem a visões do mundo altamente divergentes.
Para além dos ganhos que o efeito cortina de fumaça possa oferecer para os objetivos do governo Chávez, vale a pena se perguntar também sobre a cortina de fumaça que esse tipo de declarações pode levantar para observadores externos. Aparentemente, não são poucos na América Latina que precisam de um líder que se mostre firme e desafiante frente a Washington.
Fidel Pérez Flores é
pesquisador do Observatório Político Sul-Americano (Opsa).
23:35 - 09/11/2009