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Rússia Hoje

País compra menos diamantes

Tatyana Zykova, Jornal do Brasil

MOSCOU - Em virtude da crise, pessoas de renda média e alta se viram obrigadas a recorrer à política de caráter econômico, o que se refletiu nos resultados da atividade da indústria de jóias. Segundo relatório do Serviço Federal de Estatísticas da Rússia (Rosstat), entre janeiro e maio de 2009, o índice de produção sob a rubrica “produtos de joalheria”, caiu quase 4%, chegando a 96,5% em comparação com o de igual período do ano passado.

A indústria de jóias reduziu o consumo de ouro pela metade, “e o trocou” pela prata, que é mais barata. O consumo de prata do setor, segundo dados da Contrastaria da Federação Russa, aumentou 54,7%, quase para 56 toneladas, enquanto o ouro caiu 53%. Em julho de 2009, os joalheiros de ouro fabricaram apenas 2.277 milhões de artigos, menos da metade da quantidade do ano passado. Em decorrência disso, para apoiar as vendas, em julho de 2009, os joalheiros produziram quase 65% mais artigos de prata do que de ouro. Agora, esta tendência continua.

Como informa a Associação de Joalheiros, no período de janeiro a setembro de 2009, foram vendidos 15% menos jóias do que no mesmo período do ano passado, e o número total de compras reduziu de 20 milhões para 18 milhões de unidades. A maior queda da demanda foi registrada no segmento de adornos caros, em valor superior a 150 mil rublos (US$ 55 mil), e também de artigos adornados com brilhantes. Entretanto, no outono, a tendência negativa se alterou, e a Associação prevê que no quarto trimestre não haverá queda das vendas, e, no geral, será registrado até um aumento do mercado de jóias. O fator sazonal será impulsionado pelas festas de Ano Novo, que incentivam os russos a comprar “valores permanentes”. Em média, cada artigo de ouro produzido na Rússia contém cerca de 60% de ouro puro. Os artigos de prata contém aproximadamente 92,5% de metal puro.

Crise sem descontos

A queda do poder aquisitivo dos consumidores em relação a 2008 é evidente, e os fabricantes russos continuam preocupados com que isso acarrete o crescimento dos volumes de produtos contrabandeados da Índia, da China e da Turquia, tradicionais fornecedores de produtos de joalheria baratos. Em meados de junho, a Associação dos Joalheiros recorreu ao governo para pedir respaldo oficial ao setor. Segundo Valiéri Radashiévitch, principal executivo da associação, os joalheiros estão solicitando que as empresas sejam supridas com metais preciosos das reservas estatais russas, por empréstimo, pelo prazo de um ano, a partir de 1º de julho de 2009. A ideia dos “empréstimos em ouro” sem cobrança de juros é que a fábrica estatal de metais preciosos de Priokski, não deverá fornecer ouro fino ao Tesouro, como faz agora, e, em vez disso, deverá de fornecê-lo diretamente aos joalheiros com base em pagamento deferido.

Outra ideia para combater a crise, disse Radashiévitch, é a possibilidade de redução dos direitos alfandegários sobre importações de pequenos diamantes (até 0,10 quilate) e de apoio aos talhadores dessas pedras. Todos os anos eles produzem até o equivalente a US$ 30 milhões em diamantes de até 0,10 quilate, sendo que parte substancial deles se destina à venda no mercado doméstico. Nos seis últimos meses, os estoques desse brilhante produto vêm se acumulando em grandes quantidades em empresas talhadoras de diamantes. Existem propostas para vendê-los com descontos fantásticos. A redução dos direitos alfandegários cortaria o custo do produto acabado, o que estimularia a demanda. Por outro lado, as autoridades não tocaram no “pacote de emendas”. Embora na Associação dos Joalheiros ressaltem que as propostas continuam atuais.

Comério varejista

Segundo a Contrastaria da Federação Russa – encarregada de aquilatar jóias –, o setor de jóias experimentou rápido crescimento desde 1998. Em 2002, a Contrastaria do país “atestou a autenticidade” de 42 toneladas de itens de ouro, de 50 toneladas de itens de prata e de 109 quilos de itens de platina (que inclui importações), mas em 2008, esses dados foram: 127 toneladas de itens de ouro, 290 toneladas de itens de prata e até 220 toneladas de platina.

Desde 2001 ficou permitido embarcar ouro e diamantes para processamento no exterior, e que o produto acabado seja marcado como fabricado na Rússia. Ao todo, em 2008, foi concedida autorização a milhares de companhias russas, que haviam aberto sucursais no exterior, para exportar quase 20 toneladas de ouro, onde produtos semielaborados são feitos especialmente para o mercado russo. Essa forma de organização da produção, permite o uso flexível das características tecnológicas, financeiras e tributárias de outros países. Entretanto, a Associação dos Joalheiros acha que o aumento do volume de “processamento” de ouro fora do país, diminui os interesses nacionais da Rússia. Milhares de empregos e milhões de rublos em impostos estão sendo perdidos, e o número de artesãos de alto nível está caindo. O resultado é um paradoxo muito desagradável para a economia russa – o preço do ouro está subindo pelo mundo afora, mas no país, que produz a maior quantidade de ouro do mundo, a quantidade da matéria-prima que está sendo processada para obtenção de itens acabados está caindo.

Os principais países que oficialmente estão exportando produtos de joalheria para a Rússia são: Itália, Alemanha, China, Tailândia e Índia. Os joalheiros russos, contudo, mesmo com as suas taxas impressionantes de crescimento antes da crise, estão perdendo as taxas de crescimento da produção para as importações, cujo volume aumentou recentemente em duas a três vezes. Neste caso, fica muito difícil que concorram com Índia e China, países com mão-de-obra barata, alta produtividade do trabalho e baixo nível de impostos. A Índia, por exemplo, democratizou a situação dos diamantes lapidados ao melhorar a arte de talhar, colocando as pedras em nível superior, qualificando-se como jóias. Além disso, trabalhadores qualificados das fábricas de jóias da Índia não ganham mais de US$ 200 mensais.

Depois de se livrar de todos os embaraços aduaneiros, o preço de um item de jóia importada aumenta 47%, enquanto o preço na vitrine da loja aumenta 200%. Mas até depois dessas majorações a produção asiática ainda continua ser competitiva. Além disso, se as exportações da Itália e da Alemanha ocorrem por meio do sistema de controle alfandegário, as exportações asiáticas com frequência estão abertas ao contrabando. Ao todo, a participação do mercado “negro” fica, segundo diferentes avaliações, entre 40% e 60%.

Pedras preciosas

A Rússia conta com significativos recursos em matérias-prima, onde opera com mineração de metais preciosos. Este país extrai o equivalente a quase US$ 2 bilhões em diamantes todos os anos, o que é 25% da produção mundial. Mas ao mesmo tempo, a participação do país na produção global de produtos de joalheria é de apenas 4%. E 90% dos diamantes usados nas fábricas russas vêm da Iakútia. A empresa Alrosa responde por 23% da extração mundial de diamantes, e, em termos de valor, ocupa o segundo lugar em mineração de diamantes. A Rússia é o quinto dos 20 países do mundo envolvidos em talhamento de diamantes. No entanto, nos dois últimos anos, o volume de diamantes brutos usados pelas empresas de talhamento russas caiu quase 50% em peso. Desde 2006, houve uma fuga de companhias russas para países asiáticos. O processamento de diamantes no país se tornou “pouco econômico”. A Rússia praticamente não participa do processamento de pequenos diamantes.

Tudo está se deslocando para a Índia, China e até para a Armênia, que embora não tenha os seus próprios diamantes está se tornando importante fornecedor de diamantes para o mercado mundial. Na própria Rússia, de mais de uma dezena de grandes produtores de diamantes lapidados que operavam antes, restou só a fábrica Kristall, de Smolensk. Os produtores esperavam a licitação aberta no ano passado, para a elaboração do projeto da zona econômica especial do tipo arranjo produtivo industrial, para que a fabricação de artigos de joalheria em Iakústsk corrigisse a situação.

O limite provisório de financiamento é de 2,8 milhões de rublos. Os projetos devem ser apresentados para licitação em meados do outono de 2009. Mas, em virtude da crise e do corte de despesas orçamentárias, foi preciso adiar a licitação até “dias melhores”. No outono, o país até “reduziu” a agência federal de administração das zonas econômicas especiais, transferindo-a para a responsabilidade do Ministério da Economia.

17:17 - 09/11/2009




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