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Cultura

Casa Jornal do Brasil: "é preciso dar sentido à notícia"

Jornal do Brasil

PORTO DE GALINHAS, PE - As particularidades da imprensa francesa foram tema da detalhada palestra que Jean-Pierre Langellier, o correspondente do jornal Le Monde no Brasil, comandou sexta-feira na Casa Jornal do Brasil, na Fliporto. Na feira literária internacional, que começou quinta-feira e terminou ontem, no balneário de Porto de Galinhas, o jornalista, há um ano e meio no país, dissecou o tema “A Visão Francesa de Imprensa”; discorreu sobre a relação entre poder e a notícia na França, enfatizando a politização do cidadão e os dilemas éticos da profissão em seu país natal. Para ele, o modelo de imprensa atual é filho da Revolução Francesa e se equilibra entre duas heranças do século 19: de um lado, o brilho textual e o flerte com a literatura; do outro, a opinião forte e polêmica, como se viu no marcante Caso Dreyfuss. Depois da divisão da Segunda Guerra (na qual a imprensa colaboracionista deu as cartas até à liberação), surgiu então um terceiro modelo: a da imprensa independente, comprometida com a rigidez factual, e mais próxima dos diários anglo-saxões, representada pelo Le Monde. Em entrevista ao Jornal do Brasil, falou sobre os rumos do novo jornalismo e suas impressões sobre o Ano da França no Brasil.

Quais são os desafios do 'Le Monde' e da imprensa escrita em geral para sobreviver em tempos de mídia eletrônica?

Preocupado com os novo contexto imposto pelo advento da internet, o Le Monde fez uma consulta a profissionais e teóricos de fora, não apenas do jornalismo, para saber como se adaptar aos novos tempos. É um grande desafio. A internet chegou e não há mais como voltar atrás. É preciso descobrir maneiras de atrair os jovens, já nascidos no mundo digital, que não têm mais o hábito de ir a uma banca comprar o jornal. Para mim, não há outra solução senão a de se agarrar à nossa missão – mesmo que a palavra soe um pouco pretensiosa – que é a de dar um sentido à informação, à notícia. Mesmo nesta situação economicamente grave e profissionalmente desafiadora, os jornalistas têm esta responsabilidade de manter a qualidade de oferta.

Ainda existe uma hierarquia entre papel e internet?

A internet ainda não tem a mesma legitimidade do que o papel: mesmo quando a informação veiculada é verdadeira, não temos como saber se ela é de fato. Com o jornal ainda há mais monitoramento. Nosso desafio é passar a marca do Le Monde para a internet. Hoje, as pessoas estão sendo diariamente bombardeadas por informação. Elas têm a impressão de estar superinformadas, quando na verdade estão mal-informadas. Cabe a nós jornalistas aproveitar o fato que cada vez mais pessoas exigem um mínimo de informação. Isto é bom para nós.

Na sua opinião, qual é o nível da imprensa brasileira?

Vejo-a com bons olhos. Claro que ela tem características peculiares: não está muito à esquerda, é centrista de modo geral... Mas tem muitos pontos fortes. A parte econômica, por exemplo, é impressionante! É muito forte. Há mais espaço aqui do que no Le Monde e nos jornais ingleses, com exceção do Financial Times. E a cobertura cultural não é ruim. Eu acompanho tudo que se faz na imprensa cotidiana generalista, que considero como sendo de bom nível.

Como o senhor avalia o Ano da França no Brasil, que está prestes a se encerrar?

Para mim, foi um sucesso e uma grata surpresa. Eventos como este sempre têm um aspecto formal, que desta vez foi reduzido ao mínimo. Mas quanto mais se avançou, mais vimos iniciativas vivas. Todo mundo queria participar, mesmo aqueles que não estavam previstos no começo, se deram conta da importância e resolveram se inscrever. Fiquei também espantado com a diversidade de atrações, de todas as áreas. Quando estava cobrindo lançamento do evento, lembro que o presidente da França, Nicolas Sarkozy, disse que o desafio era realizar tudo numa grande diversidade territorial. E, de fato, as atrações estão muito bem espalhadas, não ficaram concentradas apenas no eixo Rio-São Paulo. Acredito que foi uma boa resposta ao Ano do Brasil na França, que também foi um sucesso.

A maior informalidade do evento de que o senhor fala também se dá pela relação

especial entre os dois países, certo?

Claro! Mesmo assim, trata-se de uma manifestação que mobiliza dinheiro público, o que acarreta numa formalidade de relações, discursos, obrigações e encontros diplomáticos... Mas com certeza a boa relação entre brasileiros e franceses ajudou a tirar o peso destas manifestações. Afinal, os brasileiros são informais, e os franceses que moram aqui também adquiriram este hábito.

18:29 - 08/11/2009









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