Jorge Claudio Ribeiro*, Jornal do Brasil
SÃO PAULO - Por vocação, paixão e sustento, sou professor. Além de exigir a preparação das aulas, essa atividade há várias décadas molda minha visão do mundo e do ser humano, bem como influencia meus estudos e pesquisas. Assim, abriu-me horizontes, inclusive geográficos, pois me impulsionou para o contato local com a cultura francesa e, agora, a norte-americana. Parafraseando João Cabral, a docência tem sido para mim como “uma porta abrindo-se em mais saídas”.
Estou na metade de um período como visiting scholar na Columbia University, onde, aliás, Gilberto Freyre fez seu doutorado. Meu tema básico é a religiosidade do universitário, com várias publicações a respeito. Leituras, seminários, contatos com pesquisadores da minha área e a presença em eventos com temas diversos têm composto o roteiro de meu disciplinado sabático acadêmico.
Movido por esse espírito, no dia 29 de outubro assisti ao seminário de alto nível, Brazil and the Future: Knowledge, Investment and Infrastructure, promovido pelo Jornal do Brasil e pelo Center for Brazilian Studies, do Institute for Latin American Studies de Columbia.
O que me atraía era o knowledge do título do evento, embora os demais termos, mesmo não sendo meu campo, me abririam perspectivas. Na saudação de abertura, o professor John Coatsworth, diretor da School of International and Public Affairs, onde o Instituto e o Centro estão inseridos, enfatizou que a dinâmica econômica, a competente sobrevivência à crise mundial, a parceria junto a gigantes como EUA e China chamam a atenção para nosso país, do mundo em geral e da Academia em particular. E sintetizou: “O futuro do Brasil parece ter chegado”.
Os palestrantes – pesos-pesados brasileiros da indústria, energia, educação, cultura e direito – apresentaram seus papers, permeados por um tom de otimismo. Entre outros fatores, foi reforçada a contribuição inédita de economias emergentes como a nossa na recuperação da economia mundial, a avaliação do país como confiável para investimentos estrangeiros, o Banco Central como fator de equilíbrio, o controle da inflação e o resgate de 19,3 milhões de pessoas até então na linha da pobreza. A estrela foi a recente descoberta de petróleo na camada pré-sal, objeto de intensa expectativa, embora temperada por observações quanto à viabilidade técnica, custos de exploração e dimensão das reservas.
Mas, com discreta cautela, os palestrantes destacaram que o Brasil está num turning point e se arrisca a deixar mais uma oportunidade escapar. Apontou-se para pedras no caminho do desenvolvimento: educação, capacitação laboral, custo ecológico, investimentos em ciência e tecnologia e produtividade. Inclusive, o Brasil não tem resolvido problemas estruturais como energia, política industrial e malha viária (70% das rodovias estão em estado regular, ruim ou péssimo, alerta a Confederação Nacional dos Transportes).
A constatação de que “a educação é uma área muito preocupante” me fez pular na cadeira e afinou meu ouvido para o resto das falas, que ecoaram esse mote. Acostumado à prática cotidiana do ensino/aprendizagem, à sagrada relação professor-alunos(as) e enraizado na sala de aula, eu tinha experiência de que a educação acontece nesse ambiente, embora soubesse que ela ultrapassa suas paredes. Mas ali estava sendo demonstrada por especialistas sua função geopolítica e estratégica para o desenvolvimento que se anuncia. Nesse momento em que o futuro parece tão próximo, não podemos nos dar ao luxo de continuar a desperdiçar gerações inteiras. A educação é crucial nos primeiros anos de vida do indivíduo, tem relação direta com a renda familiar (sobretudo a escolaridade da mãe) e com a redução da criminalidade e da morbidade. Sobretudo, ficou claro que a educação é um insumo econômico estratégico, porque o momento é agora e porque a população educada é um ator fundamental na construção de uma nação que pretende atingir sua real estatura.
Mas a educação é um processo mais amplo que a atividade escolar ou de treinamento: abrange o conjunto de processos de socialização que conduzem as pessoas ao longo de toda sua vida. Assim, qualquer instância social é ambiente educacional: um dos principais, mas não o único, é a cultura, através da qual uma nação se enxerga a si mesma. Constatamos como a próxima realização de eventos esportivos em nosso território já começa a ter impacto sobre nossa auto-imagem. Contudo, conquistar o direito de hospedar esses eventos, encontrar petróleo na camada pré-sal ou manter o barco da economia à superfície enquanto a maioria dos transatlânticos afundava não foram eventos fortuitos ou sorte de principiante: pelo contrário, foi necessário muito trabalho e dedicação (além de uma pitada de Macunaíma) para que pudessem tornar-se realidade.
Inspirado por essas ideias, pedi a palavra no mencionado seminário. Partindo do mote “sejamos realistas: sonhemos o impossível”, singelamente observei que entre os palestrantes estava um possível Prêmio Nobel de Medicina. Que o doutor Ivo Pitanguy, ali presente – acabara de falar sobre “Brazil as an Emerging Player in Science and Medicine” – e tão surpreso como os demais, nos fazia orgulhosos de sermos brasileiros e seres humanos. Pitanguy é uma pessoa extraordinária, reconhecida como o principal expoente em cirurgia plástica no mundo; é membro da Academia Brasileira de Letras e mantém atividades de docência na PUC-RJ e de atendimento social na Santa Casa. Acrescentei que, diante disso tudo, a Universidade Columbia, a mais competente em fazer nóbeis, juntamente com este jornal e mais a ABL e a PUC carioca, bem que podiam liderar uma campanha internacional nesse sentido. Imagine-se o impacto educacional de tal reconhecimento!
Afinal, se somos capazes de hospedar a Copa e a Olimpíada, por que não conquistamos nosso Prêmio Nobel? Yes, we can, too.
*Jorge Claudio Ribeiro é pesquisador-visitante da Columbia University
14:49 - 08/11/2009