Thiago Jansen, Jornal do Brasil
RIO - Se o cachorro é o melhor amigo do homem, o carioca não possui problemas para encontrar uma grande amizade a cada esquina. O que, infelizmente, denota grande irresponsabilidade de parte da população da cidade, que abandona seus animais de estimação nas ruas, expondo-os aos riscos do trânsito e à contração e transmissão de zoonoses – doenças transmissíveis aos homens e animais. O que muitas dessas pessoas desconhecem é que, de acordo com a lei municipal nº 4731, o abandono de animais em vias públicas, residências fechadas ou inabitadas é crime, cuja pena é multa de R$ 2 mil.
Não existem números oficiais que determinem a quantidade de cães e gatos que vivem nas ruas do Rio. Mas não é preciso andar muito para encontrar, em diversos bairros, muitos desses animais vagando sozinhos e desamparados em calçadas, praças e entre carros.
– É difícil fazer uma estimativa de quantos animais existem nas ruas. Estudos dizem que esse número varia de acordo com os fatores locais de cada região. Por exemplo, enquanto na Zona Sul é mais raro ver um animal abandonado, nas Zonas Norte e Oeste esta é uma situação corriqueira – afirma Fernando Ferreira, diretor do Centro de Controle de Zoonoses Paulo Dacorso Filho, localizado em Santa Cruz (Zona Oeste). Os principais objetivos do Centro são realizar o controle de doenças, cuidar de animais enfermos e desenvolver programas educacionais para informar a população sobre a importância de cuidar adequadamente de seus animais e não abandoná-los nas ruas.
– As pessoas ignoram o fato de que, quando abandonam os animais na rua, também podem estar criando problemas para elas mesmas, já que estão facilitando a proliferação de doenças na cidade – comenta.
Se até meados da década de 90 a Prefeitura do Rio utilizava as carrocinhas para controlar a proliferação de animais abandonados pelas ruas da cidade, capturando e sacrificando os que não tinham dono, atualmente essa prática é condenada pelas autoridades, e a prefeitura conta com os serviços da Secretaria Especial de Promoção e Defesa dos Animais (Sepda). Dentre as atribuições dessa secretaria, destacam-se o desenvolvimento de um programa de esterilização gratuita de cães e gatos, a investigação de casos de maus tratos de animais e a realização de campanhas educativas para a adoção de bichos.
Apesar disso, há quem diga que as ações desenvolvidas pelo poder público ainda são insuficientes para resolver a questão dos animais abandonados na cidade.
– Após a proibição das carrocinhas, que em parte foi uma vitória nossa, e da criação da Sepda, houve uma melhora na situação dos animais de rua da cidade. Já se começou a ter a percepção de que a solução do problema passa não pelo sacrifício, mas pela educação e esterilização. Entretanto, o poder público ainda evita gastar dinheiro com isso. Por exemplo, nós não recebemos nenhum apoio do governo ou da prefeitura para fazermos o nosso trabalho – afirma Izabel Cristina Nascimento, presidente da Sociedade União Internacional Protetora dos Animais (Suipa), entidade que há 66 anos acolhe animais abandonados, presta assistência a pessoas cujos animais estão com problemas de saúde, realiza esterilizações e possibilita a adoção de animais de seus abrigos. – Além disso, falta fiscalização e punição para aqueles que abandonam e maltratam os animais.
Com 140 funcionários, entre eles 30 veterinários, e muitos voluntários, a entidade funciona em um terreno de 3.000m², em Benfica, subúrbio do Rio, e abriga cerca de 6 mil animais, entre cachorros, gatos e até gambás e porcos. Atualmente, a entidade tem apenas ajuda financeira de seus associados para continuar cuidando dos bichos e prestando serviços à comunidade.
– Os trabalhos desenvolvidos na Suipa são muito importantes, porque não é fácil encontrar pessoas que gostariam de fazer o que eles fazem. Devia haver mais locais como esse espalhados pelo Rio. É uma pena o governo não dar assistência a ela – afirma a aposentada Rita Soares, que levou seu gato Ramon à Suipa para trocar os curativos de uma operação.
Nos abrigos, é possível adotar até cães de raça
Ainda que na hora de adquirir um animal de estimação para a família muitos cariocas prefiram ir a lojas especializadas, alguns amantes de bichos preferem buscar seus novos companheiros nos abrigos de animais abandonados, locais repletos de cachorros e gatos carentes, que anseiam por cuidados e carinho de um novo dono.
Esse é o caso da bancária Ana Paula Tavarez, de 38 anos, e da analista de sistemas Amanda Albuquerque, 30. Moradoras da Ilha do Governador, ambas têm em sua casa 10 cachorros e 16 gatos, dos quais três cães vieram da Suipa. Já os gatos, muitos foram achados em lugares como o Campo do Santana, no Centro.
– Meus primeiros cachorros e gatos foram comprados em lojas, mas atualmente eu não compro mais nenhum animal. Ou eu adoto, ou pego na rua. Para que eu vou comprar um cachorro em uma loja? Se a gente que gosta não adotar esses animais, quem irá? – pergunta Ana Paula.
Engana-se, porém, quem pensa que esses lugares tem somente animais doentes e vira-latas.
– Encontrei minha atual labradora Laica na Suipa há quatro meses, depois que ela foi abandonada após sofrer um acidente. Já ouvi histórias de gente que abandonou poodles saudáveis, sem qualquer explicação. É possível encontrar animais de diversas raças nesses locais – conta Ana Paula.
Na Suipa são abandonados diariamente uma média de 60 animais, mas só quatro são adotados por dia. O Centro de Controle de Zoonoses Paulo Darcoso Filho, apesar de não ser um abrigo de animais, também intermedia a adoção gratuita dos 180 animais tratados no local e que hoje estão sem um lar. O processo de adoção varia em cada lugar, mas em todos as pessoas devem se mostrar conscientes das suas responsabilidades com os animais.
– Quando entra aqui, o animal só sai se morrer ou se for para um lar verdadeiro. A pessoa que deseja adotar um animal precisa aceitar que ele seja esterilizado, comprovar que tem condições financeiras e psicológicas para cuidar do bicho e permitir que realizemos um breve acompanhamento de sua nova vida. Muita gente reclama da burocracia, mas não é do nosso interesse que o animal saia daqui para ser abandonado novamente – afirma Izabel Cristina Nascimento, presidente da Suipa.
Os interessados em adotar animais em abrigos ou que estejam procurando auxílio veterinário para seus bichos podem entrar em contato com a Suipa pelos telefones 3291-8777 e 3297-8759, ou ainda com o Centro de Controle de Zoonoses Paulo Darcoso Filho, pelo telefone 3395-1595. Já denúncias de maus tratos e abandono de animais podem ser feitas na Secretaria Especial de Promoção e Defesa de Animais do Rio de Janeiro, pelo telefone 2273-2816.
20:26 - 07/11/2009