Julio Calmon e Hilton Mattos, Jornal do Brasil
DA REDAÇÃO - Ao entrarem em campo, às 16h, no Mineirão, os jogadores de Atlético Mineiro e Flamengo reeditam um dos clássicos regionais de maior rivalidade no Brasil. Desde que jogaram pela semifinal da Copa União, em 1987, os dois times não se enfrentam em um jogo de tanta importância como o deste domingo. Quem vencer ainda sonha com a conquista desta edição do Campeonato Brasileiro. Taça que tanto Flamengo quanto Atlético Mineiro não levantam há muito tempo.
Cinco vezes campeão brasileiro, o time rubro-negro não coloca a faixa no peito desde 1992. Já os alvinegros só venceram a primeira edição, em 1971, e nunca mais viram a taça mais importante do país repousar em sua sala de troféus. Tanto tempo passou que deixou poeira sobre as lembranças. Durante a semana, alguns jogadores rubro-negros admitiram que não conheciam a história dos épicos embates entre Flamengo e Atlético-MG, tanto pelo Brasileiro quanto na Libertadores.
A história conta que as duas equipes foram base para a Seleção Brasileira de 1982, considerada uma das mais técnicas de todos os tempos. Cada time forneceu três jogadores. Dois anos antes, em 1980, protagonizaram uma das finais mais emocionantes do Campeonato Brasileiro. Após perder o primeiro jogo em Belo Horizonte por 1 a 0, o Flamengo sofreu muito para vencer por 3 a 2 no Maracanã. Os visitantes contavam com um endiabrado Reinaldo, artilheiro do Brasileiro de 1977. Ele marcou os dois gols do Atlético, um deles quase sem conseguir correr por causa de uma contusão. Mas o Flamengo tinha Nunes, artilheiro das decisões, que marcou o terceiro gol bem no fim da partida.
Assim como naquela época, os times de hoje contam com dois grandes atacantes. Adriano e Diego Tardelli brigam pela artilharia do campeonato e podem decidir o destino das duas equipes caso marquem algum gol neste domingo. O comentarista Júnior, que esteve em campo na final do Brasileiro de 80 e nos três jogos pela Libertadores do ano seguinte, acredita que o confronto deste domingo tem uma verdadeira característica de final de campeonato – como eram as partidas dos anos 80.
– Toda a rivalidade que esse jogo carrega é um estímulo para os jogadores entrarem como se fosse uma final mesmo – disse o ex-jogador Júnior, o último capitão do Flamengo a levantar a taça de campeão brasileiro. – Vai decidir muita coisa para os dois times.
Flamengo e Atlético Mineiro têm mais coisa em comum. Ambos possuem uma torcida grande, inflamada, que costuma lotar estádios e empurrar sua equipe. O goleiro Bruno, por exemplo, cresceu nas categorias de base do Galo. Lá aprendeu que a rivalidade entre os dois times de estados diferentes é tão grande quanto a existente com o Cruzeiro, o outro grande clube de Belo Horizonte.
– Cheguei a ser ídolo da torcida lá e sei bem como será esse jogo. Quando eles enfrentam o Flamengo, dão tudo dentro de campo. É uma rivalidade quase igual ou tão forte quanto a com o Cruzeiro. Vale a mesma coisa – disse o goleiro.
O clima de nostalgia estará nas arquibancadas do Mineirão, não dá para negar. Depois das festas, músicas e roupas, chegou a vez de os clássicos de futebol dos anos 80 entrarem na moda. Outro ídolo rubro-negro atual, Petkovic também atuou no Galo em um passado recente. Ele vê muitas semelhanças entre os dois times.
– A torcida é vibrante, parece bastante com a do Flamengo. Vai ao estádio e faz o time se sentir bem e o adversário tremer – explicou Petkovic, prevendo dificuldades. – É complicado jogar lá dentro com o Mineirão lotado.
Em 1987, vitória no Mineirão na semifinal
Zico, Éder, Júnior, Renato Gaúcho, Nunes, Bebeto, Toninho Cerezo, Reinaldo, Andrade, Leandro, Adílio. A lista de craques é imensa. Durante uma década, Flamengo e Atlético-MG eram sinônimos de bom futebol. Perdidos entre más administrações, os dois clubes caíram muito nos últimos 20 anos. Tanto que só agora voltam a ser protagonistas do Brasileiro. Os jogos entre eles eram tão competitivos que os três da Libertadores de 81 terminaram empatados – e o último terminou ainda no primeiro tempo por falta de jogadores suficiente do lado atleticano. Andrade torce para que o de hoje seja tão importante.
– Este é um dos jogos que podem entrar para a história. Daqui a 10, 20 anos é para ser reprisado de novo. Vencer o Atlético-MG lá representaria um grande passo – resume Andrade.
O ídolo Zico não poderá assistir à partida de hoje porque estará recebendo uma homenagem em Udine, na Itália, no mesmo horário. Para ele, a vitória será primordial para continuar sonhando com o título – como foi importante vencer o Atlético-MG por 3 a 2, em 1987, com o Mineirão lotado. Naquela época, semifinal do Brasileiro, o Flamengo se classificaria com um empate. Depois de fazer 2 a 0, com gols do próprio Zico e de Bebeto, os rubro-negros viram os alvinegros empatarem a partida ainda no início do segundo tempo – explodindo o Mineirão. A vaga para a final só viria com o gol salvador de Renato Gaúcho a pouco minutos do fim. Zico jogou com dor no joelho e foi substituído no segundo tempo.
– Mesmo com o Mineirão lotado, entramos em campo sabendo que tínhamos um time muito forte e poderíamos vencer em qualquer lugar – explicou o Galinho, que guarda com carinho o clássico de 80 também. – Ali era final de campeonato, que nos proporcionou a disputa da Libertadores. Foi nosso primeiro título nacional.
Renato: “Era o Mengão!”
Hoje também treinador como Zico, Renato Gaúcho foi outro que ficou marcado pelo clássico. Seu gol em 87 entrou para a história dos mais importantes do Brasileiro. Na época, o Flamengo eliminou o Atlético, que tinha feito a melhor campanha na fase de classificação.
– Foi um gol do coração. Eu estava muito cansado e tinha corrido durante todo jogo. E pensei: “Se a bola parar no meu pé, tenho que pegar, correr e fazer o gol” – lembra Renato. – O time deles estava pressionando muito. Peguei a bola e atropelei todo mundo, driblei o goleiro e empurrei para o gol. Repara que eu dou dois passos e desmaio na comemoração. Estava muito cansado.
Pra Renato Gaúcho, o time rubro-negro era superior em campo.
– Atlético, nada! Eles tinham feito a melhor campanha e só. Dentro de campo, era o Mengão! Nós tínhamos um time sensacional – disse Renato, que torce para que o Flamengo fique com o Brasileiro neste ano. – Está difícil saber quem vai ser campeão. Os caras estão brincando de empurrar taça. Tomara que o Flamengo se dê bem nessa.
Se o Flamengo vai se dar bem ou não, muito provavelmente quem poderá decidir é Adriano. Assim como Renato em 1987, o atacante carrega a esperança de milhões de torcedores em seus pés.
– Sei um pouco da história desse duelo entre Flamengo e Atlético-MG. A rivalidade é muito grande, já que as duas decidiram vários campeonatos na década de 80 – comentou Adriano. – Tenho certeza de que no domingo será mais uma grande partida. Estou ansioso para entrar em campo.
19:37 - 07/11/2009