Jornal do Brasil
DA REDAÇÃO - Ainda sem saber exatamente como e por que o major do Exército dos EUA Nidal Malik Hasan descarregou duas pistolas contra soldados da base norte-americana de Fort Hood, no Texas, matando pelo menos 13 pessoas na quinta-feira, investigadores estiveram sexta-feira no local do crime e também vasculharam a casa de Hasan em busca de evidências. O que já se sabe é que o atirador era muçulmano e, segundo testemunhas, teria gritado, em árabe, “Deus é grande”, enquanto disparava. Parentes de Hasan disseram que o major queria deixar o Exército, que se sentia perseguido depois do 11 de Setembro e que seu pior pesadelo seria viajar para combater no Oriente Médio. O Exército confirmou que a ordem para que Hasan rumasse para a região já tinha sido dada.
Um comerciante do Texas afirmou ter atendido Hasan em sua loja de conveniência na manhã de quinta-feira, sete horas antes do tiroteio na base militar. Em um vídeo exibido pela rede de TV CNN, um homem, que o comerciante garante ser Hasan, aparece em frente ao caixa do estabelecimento vestindo trajes típicos árabes.
Entre as questões que ainda têm de ser respondidas, a principal talvez seja como alguém com desequilíbrio emocional como Hasan poderia ser o psiquiatra responsável por cuidar dos soldados da base. Também não se sabe como o atirador entrou em Fort Hood com duas armas, já que somente policiais e militares responsáveis pela segurança do local podem entrar armados.
– Ele cuidava de soldados com problemas de comportamento e observava os que recebiam avaliações negativas – informou o coronel Steven Braverman, comandante do hospital de Fort Hood.
Questionado se Hasan demonstrava boas condições para exercer a função, Braveman disse que ele “não dava indicações do contrário”.
Entre os feridos no incidente está a policial Kimberly Munley, a oficial de segurança que reagiu aos ataques de Hasan, conseguindo atingi-lo com tiros.
Até sexta-feira, o registro era de 13 mortos e 30 feridos. Destes, 28 estavam hospitalizados.
O capitão Reis Ritz, médico que trabalha em Fort Hood, foi um dos primeiros a atender as vítimas.
– Quando vi a primeira pessoa baleada, percebi que não era um dia normal. – afirmou.
Um primo do atirador, Nader Hasan, emitiu um comunicado em nome da família:
“Estamos muito tristes pelas famílias das vítimas. Nossa família ama os EUA, somos orgulhosos do nosso país”, afirma o comunicado.
O presidente dos EUA, Barack Obama, pediu que os norte-americanos não tirem conclusões precipitadas sobre o tiroteio:
– Não sabemos todas as respostas ainda e peço cautela até que tenhamos todos os fatos.
Novo incidente
Um caso semelhante ao de Fort Hood voltou a abalar os EUA sexta-feira. Um homem armado invadiu o prédio onde trabalhava em Orlando, na Flórida, e atirou em seis pessoas, matando ao menos uma. O incidente ocorreu no oitavo andar do edifício onde funcionava a empresa de engenharia da qual o suspeito, Jason Rodriguez, fora demitido há dois anos. Depois de realizar buscas, a polícia prendeu Jason na casa de sua mãe. O estado de saúde dos cinco feridos era considerado estável. Informações não confirmadas falavam em uma sexta pessoa ferida.
Major teria predisposição para a violência
Joana Duarte
Nidal Malik Hasan, o oficial muçulmano que exercia a psiquiatria no maior complexo militar norte-americano, poderia ter predisposição para adoecer psiquicamente, condição que, segundo médicos entrevistados pelo JB, pode ter sido desencadeada pelo contato que teve com a doença de seus pacientes.
– Na medicina, muitas vezes se escolhe a especialidade médica também em causa própria, seja ela consciente ou não. Não raras vezes, os que optam pela psiquiatria têm ou acham que têm algum problema psicológico. Não que todos os psiquiatras sejam loucos – esclarece o psiquiatra forense Guido Palomba – mas certamente na escolha da profissão há sempre uma certa curiosidade por algum aspecto pessoal.
Há também o chamado fator desencadeante, explica Steven Soldz, psiquiatra da Boston Graduate School of Psychoanalysis, que serviu de testemunha em casos de tortura em Guantánamo.
– Isso ocorre especialmente com médicos inexperientes, ainda não inteiramente formados, e é muito comum serem afetados pelas doenças que estudam, que leem nos livros.
As particularidades do crime praticado pelo major Hasan, como a multiplicidade de golpes, a ausência de motivos plausíveis e a aparente falta de premeditação também mostram, segundo Palomba, que Hasan entrou em uma espécie de curto-circuito, o que indicaria uma disritmia cerebral.
– Ele agiu de uma forma extremamente violenta e explosiva. Isto está necessariamente ligado a uma disritmia cerebral, e não há como escapar disso – diz Palomba.
A diritimia cerebral, sustenta o médico, provavelmente deixou marcas na vida de Hasan que poderiam ter sido detectadas. Ele deveria, por exemplo, ter um comportamento violento, próprio desta condição. Não surpreende também o fato de que Hasan tenha escolhido o Exército, uma profissão ligada a atividades de risco, sujeita a grandes aventuras e em que a agressividade é também uma necessidade.
Agora, ambos os psiquiatras se mostram estão preocupados com os pacientes que estavam sendo tratados por Hasan.
– Os pacientes de Hasan devem estar em choque – afirma Soldz. – O tratamento para o estresse pós-traumático, em que o psiquiatra tenta fazer o paciente reviver o trauma controlando a ansiedade, pode ser aterrorizante por si próprio.
Bope
Há semelhanças entre o treinamento a que são submetidos os soldados das Forças Armadas norte-americanas e os policiais do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) do Rio, segundo o coronel Paulo Cesar Amêndola, fundador do Bope e hoje consultor de segurança na Universidade Estácio de Sá. Em ambos os casos, os policiais são submetidos a pressões físicas e psicológicas extremas, para que estejam capacitados tecnicamente para atuar em situações semelhantes na vida real.
– Em seus 31 anos de existência, nunca houve no Bope violência semelhante à que ocorreu na base militar norte-americana – afirma o coronel. – Apesar das pressões, há sempre o acompanhamento médico e psiquiátrico.
O processo de seleção do Bope é feito através da aplicação de castigos físicos, como corridas além da capacidade dos candidatos, ameaças, gritaria, privação de comida, e outras situações extremas, conta Amendola. Segundo o coronel, entre 300 candidatos, apenas oito ou 10 conseguem terminar o curso.
– A pressão é intensa o tempo todo, seja no intervalo das aulas, durante as refeições ou de madrugada – diz. – O pessoal faz o treinamento sem tomar café, almoçar ou jantar e são expostos a situações extremamente difíceis. O objetivo é que estejam preparados para qualquer eventualidade.
Amendola especula que o oficial norte-americano pode ter sido “pressionado demais” pelo Exército após o 11 de Setembro, quando os americanos não mediram esforços para chegar aos terroristas.
– Houve uma caça generalizada. Evidentemente, esse major, por ser muçulmano, pode ter sido questionado pelo serviço de informações americanas, e isso pode ter sido o suficiente para desencadear sua loucura.
22:09 - 06/11/2009