Fábio Silvestre Cardoso, Jornal do Brasil
RIO - Ao longo da primeira década do século 21, as atenções têm se voltado para a temática internacional, seja pelo debate sobre a globalização (ou, como querem alguns, desglobalização), seja pelos atentados terroristas que assolaram o Ocidente, sobretudo Europa e Estados Unidos. Todavia, mesmo antes, a política internacional já interessava àqueles que se debruçam sobre as relações entre países. As negociações para o fim da Guerra Fria; a tomada de posição sobre os conflitos no Oriente Médio e África; sem mencionar a lógica que ditava a ordem mundial nos anos que precederam a Segunda Guerra são alguns dos tópicos que desde há muito compõem a agenda dos internacionalistas. Para além da análise mais estratégica, há estudos que se voltam para um debate localizado, como é o caso do professor do Instituto de Estudos Políticos de Paris, Jacques Sémelin, cuja obra Purificar e destruir foi recentemente lançada no Brasil. O assunto do livro de Sémelin é, a um só tempo, assustador e denso: o uso político dos massacres e dos genocídios.
Existência insuportável
Já nas primeiras linhas, o autor mostra qual foi a motivação que o levou a escrever. Bom soldado da pesquisa acadêmica, assinala que o objetivo de sua obra é entender como se pode chegar a matar milhões de indivíduos indefesos, tornando, in extremis, a existência insuportável. E com algum exagero, o autor esbraveja: “Como isso pode acontecer?”.
A despeito desse tom inicial espetacular, faz jus ao estilo acadêmico e produz uma obra, para o bem e para o mal, com um texto bastante sóbrio e equilibrado. E já na apresentação, observa-se que o elemento central da prosa de Sémelin é, sim, seu ar douto, professoral, como quem ministra uma boa aula acerca da questão do genocídio. Há momentos em que a abordagem se torna estéril demais, mas disso se tratará mais adiante. Por agora, é importante observar a metodologia utilizada por Sémelin.
Como sói acontecer aos bons trabalhos de pesquisa, o professor elege três acontecimentos históricos para traçar uma análise dos genocídios. Assim, já no primeiro capítulo, a todo o momento o autor se refere à Alemanha nazista em relação aos judeus; aos tutsis oprimidos em Ruanda; e aos sérvios opressores na Iugoslávia. É importante frisar, no entanto, que ele se reserva o direito de não explicar detalhadamente o que houve em cada um desses casos. Parte, assim, da premissa que o leitor conhece minimamente o que houve nos países. Não é, todavia, um sinal de pedantismo por parte de Sémelin. O fato, inexorável, é que tais eventos foram muito graves, haja vista que até mesmo a indústria do cinema faturou milhões ao levar às telas os dramas “baseados em fatos reais”. Em Purificar e destruir, não há espaço para esse tipo de imaginação que se pretende “narrativa original”. Em vez de trazer sua versão, o professor prefere utilizar as 500 páginas para refletir sobre o que motivou a barbárie triunfar sobre a civilização.
Amparado por vasta bibliografia e documentos históricos, Sémelin propõe olhar para o tema de forma muitas vezes sisuda. Com efeito, o leitor menos habituado a esse tipo de ensaio enfrentará passagens complexas, seja pela forma, seja pelo conteúdo. Essa carência é substituída (se é que isso é possível) pelo belo diálogo entre autores que, num primeiro momento, são citados para tentar descobrir os elementos que constituem o imaginário dos que anelam destruir. Organizado de forma bastante esquemático, Sémelin conduz o estudo de maneira a observar detalhadamente como algumas motivações não necessariamente são exclusivas dos grandes vilões da humanidade. Para tanto, chega a dialogar com as teorias de Simone Weil, Norbert Elias e Zygmunt Bauman. A certa altura, o leitor fica espantado ao descobrir que a civilização que se arroga o farol da modernidade ainda recorre aos instintos mais primitivos quando não se identifica com o outro.
“A tarefa de destruição do 'eles' tem parentesco, então, com a operação de sobrevivência do 'nós', em uma 'guerra de autodefesa', como se diria em Ruanda, ou seja, trata-se de uma iniciativa de prevenção da violência contra si! Aquele que vai se tornar assassino se apresenta como vítima”, analisa Sémelin. De forma semelhante, mostra de que maneira os perpetradores desse tipo de ato bárbaro encontra “justificativa racional” para executar, entre outras atrocidades, a chamada limpeza étnica. Na avaliação de Sémelin, isso se fundamentava na ideia de que, enquanto a pureza de determinada etnia ou raça merecia ser preservada, a outra deveria ser eliminada. Como corolário para a pensata, vigorava o princípio do saneamento.
Além das imagens
À medida que a reflexão de Sémelin avança, o leitor passa a entender o significado do termo genocídio, para além das simplificações das imagens da TV e do cinema, ou das teorizações alheias de convicção do direito internacional – tanto a mídia como o direito internacional são analisados pelo autor. E é com base nessa ampla discussão de cunho acadêmico que Jacques Sémelin propõe uma conclusão possível de seu trabalho, enfatizando a necessidade de atuação de organismos internacionais constituídos – como ONU, OTAN, ONGs, Médicos Sem Fronteiras, Anistia Internacional e Human Rights Watch – atuarem na prevenção antes que casos bizarros assumam forma irremediável do ponto de vista da negociação. Dessa maneira, embora não tenha a mesma estima ou quilate de um Prêmio Nobel da Paz, a obra Purificar e destruir, além de ser trabalho essencial para a discussão de temas internacionais dessa seara, é peça relevante para a compreensão de como algumas tragédias podem, sim, ser evitadas.
14:59 - 06/11/2009