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Cultura

Livro de Luciana Hidalgo mostra os delírios alcoólicos de Lima Barreto

Silvia Regina Pinto, Jornal do Brasil

RIO - Literatura da urgência: Lima Barreto no domínio da loucura, de Luciana Hidalgo, ganhador de merecido Prêmio Jabuti na categoria de crítica literária, mostra que, na obra de Lima Barreto, vida, loucura e literatura se encontram numa narrativa-limite, que se constrói na interseção do autobiográfico, da crítica e da ficção, caracterizando a urgência de que fala o título.

Aliando sua formação em jornalismo à pesquisadora que fez mestrado e doutorado em literatura, a autora nos apresenta um ensaio extremamente sério, mas de leitura muito agradável, que compara múltiplas perspectivas a partir de uma leitura minuciosa do livro Diário do hospício, de Lima Barreto, escrito durante a internação do autor, por alcoolismo, no Hospital Nacional dos Alienados, na Praia Vermelha, Rio de Janeiro, entre 1919 e 1920.

Ao correr dos cinco capítulos, o leitor precisa lidar tanto com os extremos de uma vida atormentada, quanto com os mistérios da loucura, ou, ainda, andar na radical corda bamba da escrita de Lima Barreto, a partir do desabafo incisivo do autor: “Ah! A literatura ou me mata ou me dá o que peço dela”. Deste modo, esse leitor verá como os delírios alcoólicos de Lima acabam por confundir o autor e o louco, num texto onde se refugia uma subjetividade que busca, desesperadamente, a legitimação de um “eu sem filtro”, origem da escrita, empurrando a questão autoral até seu limite etimológico de causa principal da narrativa.

Assim, demonstrando cuidadosa e criteriosamente uma discussão bem atual que diz respeito aos desdobramentos dos conceitos de autobiografia e autoficção, difíceis de serem apreendidos, a não ser como ideias que dançam entre múltiplas classificações teóricas, o texto de Luciana chega, indiretamente, à constatação do pesquisador francês Philippe Lejeune, de que “a ficção é incapaz de fazer essa coisa simples, mentir, porque não promete a verdade”.

Partindo do conceito de escrita de si, formulado por Michel Foucault, Luciana vai seguindo o pensamento de Lima Barreto, inscrito em Diário do hospício, iluminando a percepção de que a “confissão de si” é uma espécie de tentativa de acerto de contas com a sociedade que o discriminou e internou em hospital para alienados. Tal hipótese pode, inclusive, se abrir para toda a obra do autor, onde, indiscutivelmente, a crítica social é sempre uma característica muito marcante e a solidão – no hospício ou fora dele – faz com que a leitura e a escrita se tornem o asilo do bem, isto é, o lugar ideal para o confronto da realidade com todas as suas diferentes faces, inclusive as imaginárias, delirantes ou fantásticas.

A confusão entre vida e arte, considerando-se que, na ficção de Lima Barreto, os territórios limítrofes não são identificáveis no processo muito híbrido de construção das narrativas, expõe como os fenômenos e objetos do real, isto é, da vida cotidiana, são aliados do olhar que os percebe, tornando-se itens inseparáveis do que Luciana denomina “literatura de si”. Neste espaço, completa-se a elaboração estética do texto, sem que o autor em foco tenha se preocupado em fazer uma distinção de valores, clara ou hierarquizada, entre o eu real e o eu ficcional. Ou seja, não importa saber em qual desses lados a verdade pesa mais.

A “literatura de si” funciona também como um quase-artifício, evidenciando que a postura instável, contraditória e agressiva do autor frente à sociedade e frente à intelectualidade ganha contornos, respectivamente, de “a-social” e “a-intelectual”, recusando-se a aceitar as encenações sociais e os dogmas culturais que garantem o reconhecimento e a inclusão, bem como os viciados esquemas acadêmicos que cercam a figura do intelectual. No primeiro caso, Luciana analisa como Lima tenta desconstruir os modelos de sucesso responsáveis por um tipo de mito da felicidade social, baseado em trabalho produtivo e incondicional adaptação ao meio. No segundo, aparece a preocupação do escritor com o seu próprio papel de intelectual, que rejeita, conforme o ensaio da autora, “a intelectualidade em relação ao seu tempo, que ocupa o altar canônico, é bajulada por seus pares, sendo lida e bem-recebida nos salões da sociedade bien-pensante”.

Luciana Hidalgo – ao que parece uma apaixonada pela loucura – tecendo seu excelente livro com os fios aqui mencionados, além de muitos outros, tenta compreender os mistérios que a “escrita do extremo” do autor estudado não soluciona, mas transforma em “literatura da urgência”, isto é, da expressão do indizível, ou, também, um desdobramento da “escrita/literatura de si”, que explode, nietzscheanamente, nas emergências do “bufão a dançar sobre precipícios”, como se lê na epígrafe emprestada a Balzac. Lima Barreto, um intelectual dissidente, bufão e louco na periferia da Belle Époque do Rio de Janeiro, em sua revolta contra o estabelecido, precisa transgredir códigos intelectuais e convenções sociais, assim como precisa do antiglamour total – em seu corpo, em sua vida – para esgarçar limites do real, do humano e da própria literatura.

14:53 - 06/11/2009









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