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Sociedade Aberta

O crack matou Bárbara

Maria Thereza de Aquino, Jornal do Brasil

RIO - Mais uma vez a droga faz novas vítimas. De um lado, o agressor, com o peso da tragédia em seus ombros a ser carregado pelo resto de sua vida. Do outro lado, a vítima inocente que queria ajudar ao assassino a sair da rota de usuário de crack, tarefa que nem nós, especialistas, às vezes conseguimos.

Bárbara morreu porque nosso país assiste, indiferente, ao fato de termos crianças freqüentando Centros para Tratamento de Usuários de Drogas. Antes, ficávamos indiferentes quando eram meninos de rua que cheiravam cola... “Ah! São meninos de rua! Devem cheirar cola para espantar o frio, esquecer a fome...” Agora são nossas crianças, nossos adolescentes e nossos vizinhos que consomem, traficam, importam drogas cada vez mais poderosas em endereços os mais elegantes da cidade.

Bárbara morreu porque, no Brasil, não temos uma política nacional que trate a questão das drogas em seus múltiplos aspectos: que acolha a família, muitas vezes atordoada e refém da violência dos próprios filhos usuários; que acolha o professor em sala de aula, fornecendo-lhe subsídios para orientação e encaminhamento de seus alunos usuários ou curiosos a respeito dos efeitos das drogas; que acolha o profissional treinado em atender os mais dolorosos casos de dependência que existam, mas que não dispõe de uma rede de auxílio quando precisa encaminhar para internação um caso de psicose claramente desencadeada pelo uso de drogas; que acolha o próprio usuário de drogas que queira parar seu consumo, porque são raros os bons Centros com uma equipe treinada para acolhê-lo.

Bárbara morreu porque julgou que a amizade, o amor e o carinho ajudariam alguém que já trilhava o perigoso mundo das drogas. Todos esses sentimentos ajudam, sim, mas é preciso mais que isso: temos que ter mais ambulatórios, mais centros de tratamento de família, mais locais de internação – tudo isso de fácil acesso, gratuitos e fiscalizados pelo Governo.

Que não precisemos chorar mais por conta de crimes tão brutais quanto esse, se nós sabemos que existem caminhos a trilhar: o caminho da prevenção ao abuso de drogas – universal, maciço e permanente – o caminho dos Centros de Reabilitação: gratuitos e de fácil acesso a todos que precisem.

Que a morte de Bárbara nos ensine a caminhar.

Maria Thereza de Aquino é psiquiatra, diretora do Centro de Estudos e Pesquisas em Atenção ao Uso de Drogas Nepad-Uerj.

23:20 - 03/11/2009












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