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Sociedade Aberta

“Me lembrarei

Adam Michnik, Jornal do Brasil

RIO - Em 1989, ninguém no mundo antecipava a queda do regime comunista. Quando o presidente americano Ronald Regan (1981-1989) bradou, na Berlin Ocidental, a frase “Sr. Gorbachev, derrube este Muro!” as pessoas interpretaram aquilo como um exemplo da retórica da Guerra Fria e não como um projeto político realista.

E mesmo assim, o Muro foi derrubado.

Vou me lembrar deste dia pelo resto da minha vida. Eu havia sido convidado para uma conversa com o Ministro de Relações Exteriores da Alemanha Ocidental, Hans Dietrich Genscher. Estávamos discutindo as perspectivas para os próximos meses. Durante nossa conversa, um assistente entrou na sala e entregou ao ministro um pedaço de papel. Genscher leu o bilhete, olhou para mim e disse: “A fronteira do Muro de Berlin foi aberta”. Essa foi a conclusão da nossa interessante conversa. Corri para o escritório da Gazeta Wyborcza (o jornal democrático fundado por Michnik e outros jornalistas e ativistas políticos na Polônia) e peguei alguns comentários para serem publicados na primeira página. Eu escrevi que era um ótimo feriado: na perene luta entre homem e arame farpado, hoje o homem havia triunfado e o arame farpado estava derrotado.

Parecia que toda a Polônia torcia pelos alemães, que estavam caminhando rumo à liberdade. Nós ficamos repetindo: “Ich Bin Berliner... Ich Bin Berliner” (Eu sou berlinense). Para todos os efeitos, a Alemanha Oriental (A República Democrática Alemã, ou RDA) era um Estado comunista, e mesmo assim, era de alguma maneira singular. Tinha um governo tipicamente incompetente movido pela corrupção, vigilância policial onipresente e uma profunda crise econômica. O que era atípico, entretanto, era a existência do outro Estado Alemão – democrático e rico – e a presença da guarnição soviética no território da RDA. Costumava-se dizer que a Alemanha Oriental não era um país que tinha um Exército, mas um Exército que tinha um país. A RDA não era um país com guarnições soviéticas; era um país para guarnições soviéticas. Essa foi a razão de ser da RDA.

Em 1989, as guarnições soviéticas, que em 1953 haviam salvo o regime da RDA ao oprimir uma revolta dos trabalhadores, recebeu novas instruções. Os novos líderes do Kremlin lançaram a política da Perestroica, de fato, um distanciamento da lógica da Guerra Fria. O líder da RDA, Erich Honecker, se recusou a aceitar a nova política. Seus companheiros costumavam argumentar: “Nós deveríamos mudar o papel de parede da nossa casa porque nosso vizinho o fez?”. Mas a Alemanha Oriental também não gostava do velho papel de parede. Quando, em 20 de junho de 1989, o Ministro das Relações Exteriores, Gyula Horn, junto com seu homólogo austríaco, cortaram o arame farpado na fronteira entre seus dois países, alemães orientais começaram a passar da Hungria para a Áustria.

Durante a visita de Gorbachev a Berlin em outubro de 1989, as pessoas gritavam “Gorby!” e cantavam, “Nós somos a nação!” Depois o slogan mudou para “Nós somos uma nação!”. O Muro de Berlim caiu na mente dos alemães antes mesmo de realmente ser derrubado, o que aconteceu logo depois.

Em 9 de novembro, Gunter Schabowski, o chefe de propaganda do Partido Comunista da Alemanha Oriental, disse numa conferência de imprensa: “Hoje nós tomamos uma decisão que permite que todos os cidadãos da RDA deixem o país por qualquer fronteira”. Depois de uma breve pausa, ele acrescentou que a decisão era “imediata”. Se Schabowski falou sem querer, foi a gafe mais importante e mais bonita da história da Alemanha.

Outros eventos contribuíram. A política do presidente americano Jimmy Carter (1977-1981), que fez dos direitos humanos sua bandeira, começou um confronto que a União Soviética não podia vencer. Nem poderia prevalecer contra a política do presidente Reagan, que desafiou o “Império do Mal”, levando os soviéticos a uma corrida armada que eles não poderiam vencer. O pontífice João Paulo II também teve um papel importante, mandando a mensagem cristã de liberdade humana contra a doutrina comunista baseada em violência e mentiras. Toda a sequência de eventos levou à nova política de Gorbachev, em que as tropas soviéticas não mais iriam interferir no regime comunista da RDA. Provavelmente ninguém fez tanto pelo mundo quanto este último secretário-geral soviético, apesar de que abolir o comunismo não fazia parte de seus planos.

A queda do Muro de Berlim marcou o fim da fé na utopia comunista e da perpetuação do regime soviético; marcou o fim da punição imposta aos alemães por terem criado o Nazismo e começado a Segunda Guerra; e também marcou o fim da humilhação da Europa democrática, que tolerou a imagem de uma grande cidade torturada dia após dia por arame farpado e torres de vigia.

Mas a derrubada do Muro e o fim do comunismo teve mais de uma faceta. Eu me lembro de uma piada que uma vez ouvi de um de meus amigos alemães. Pouco depois da unificação, um ocidental e um oriental se encontram em Berlim. O ocidental diz: “Bem vindo! Somos uma nação”. Ao que o oriental responde: “Nós também!”. Apesar de eu ter me livrado da germanofobia, essa postura ainda ressoa em meus ouvidos, especialmente quando eu vejo o quão facilmente os políticos e intelectuais alemães abandonam reflexões críticas sobre a história do seu país

Apesar da Europa ter mudado bastante – para melhor – depois da queda do Muro, não se tornou um mar de tolerância e respeito pela dignidade e amor incondicional por seus vizinhos. Nosso continente ainda é cheio de campos minados e ameaças com as quais precisamos lidar. E mesmo assim – depois de 20 anos – continuo otimista. Por quê? Porque eu não tenho outra opção.

Adam Michnik é editor-chefe da 'Gazeta Wyborcza'.

Tradução: André Bacil

00:06 - 03/11/2009












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