Thiago Jansen, Jornal do Brasil
RIO - Todas as noites, enquanto a maioria dos trabalhadores do Centro do Rio está indo para casa descansar, um exército de homens e mulheres começa mais uma árdua jornada de trabalho, revirando lixeiras em busca de materiais recicláveis que podem gerar o sustento de suas famílias. De acordo com Movimento Nacional de Catadores de Materiais Recicláveis, o estado possui cerca de 40.000 catadores concentrados em suas ruas e lixões. Pessoas que, literalmente, fazem do lixo o seu ganha pão.
Este é o caso de Roberto Reis, de 42 anos e uma década dedicada à atividade. De segunda à sexta ele chega na Rua da Quitanda, às 18h e só volta para casa às três da manhã do dia seguinte. Morador de Nova Iguaçu, ele recolhe papel branco, papelão e latinhas como modo de sustentar seus cinco filhos e sua esposa. Ao seu lado, cerca de 30 catadores fazem o mesmo.
– Trabalhava em obras, mas perdi o emprego e agora estou aqui. É cansativo e trabalhoso, mas é um jeito honesto de sustentar a família – conta Roberto, que consegue recolher até 250Kg de material em um dia bom e arrecadar R$50 por eles. – O pior do trabalho é a friagem da noite e o perigo de se trabalhar no meio da rua. É cada coisa que a gente vê por aí.
As más condições de trabalho revoltam lideranças da área. O representante do Rio do Movimento Nacional de Catadores de Materiais Recicláveis, Sebastião Carlos dos Santos, fala em desvalorização por parte do governo.
– As autoridades não valorizam suficientemente o trabalho dos catadores de materiais recicláveis. É uma atividade que ainda é tida como marginal – afirma Sebastião.
Lixo como commodity
Para a pesquisadora da Universidade do Grande Rio (Unigranrio), Maria Scarlet do Carmo, que já publicou artigos sobre a questão dos catadores de materiais recicláveis, ainda que estes trabalhadores sejam alvo de algumas políticas públicas, isso ocorre não pela valorização de sua atividade, mas sim porque o lixo está se tornando uma commodity.
– O lixo hoje é de interesse social e, cada vez mais, alvo de políticas públicas que visam seu reaproveitamento. Entretanto, os catadores não são convidados a participar do processo de decisão dessas políticas e, assim, permanecem marginalizados – teoriza Maria Scarlet.
Dentre as iniciativas públicas voltadas para os catadores, destaca-se o incentivo à criação de cooperativas onde eles trabalham e recebem um salário fixo. De acordo com a associação Compromisso Empresarial para a Reciclagem (Cempre), existem cerca de 19 dessas cooperativas na cidade. Entretanto, ainda que reconheça as melhores condições de trabalho desses lugares, a grande reclamação entre os catadores de rua é que muitas cooperativas pagam menos do que eles conseguem nas ruas.
– A prefeitura poderia ceder um espaço para trabalharmos, mas de que adianta se essas cooperativas pagam ainda menos do que o pouco que nós conseguimos na rua. Trabalhar dessa forma para enriquecer patrão não dá – comenta Regina dos Santos, 46 anos, catadora há oito.
Paulo César Lopes, 48, trabalhador da Coopercentro há 15 anos, reconhece que seu salário atual de R$ 600 é menor do que o que ele conseguia obter quando trabalhava na rua, mas afirma que ainda assim prefere ser cooperativado.
– O salário é menor, mas em compensação o trabalho é mais tranqüilo. Na rua é muita dificuldade por causa do horário e da competição. Aqui eu não preciso me preocupar com nada disso – afirma Paulo César.
Ações pelo lixo já deram alguns bons resultados
No dia 27 de novembro, a campanha institucional "Para onde vai seu lixo?", da Secretaria Estadual do Ambiente, completa um ano na conscientização da população do Rio para o cuidado com seu lixo. Vinculada a emissoras de televisão, rádio, mídia impressa e Internet, a campanha foca o aumento da responsabilidade individual no cuidado de resíduos, salientando a relação do acúmulo de lixo em lugares inadequados com a dengue e propondo aos cariocas o princípio dos 3R's: Reduzir, reutilizar e reciclar.
Pólita Gonçalvez, gerente ambiental do Instituto Estadual do Ambiente (INEA), órgão da Secretaria de Ambiente responsável pela missão de proteger, conservar e recuperar o meio ambiente e promover o desenvolvimento sustentável, avalia que a campanha completa um ano com muitos sucessos.
- A campanha é parte da gestão da secretária estadual do Ambiente, Marilene Ramos, pautada por um pacto pelo saneamento, que visa, entre outras coisas, acabar com os lixões, conscientizar a população para a importância da reciclagem e, em dez anos, levar tratamento de água e esgoto a 80% da população do Rio. Acreditamos que tivemos grande sucesso na campanha, pois, apenas um ano após seu lançamento, já registramos uma queda na redução dos casos de dengue, percebemos um maior engajamento do carioca pela questão ambiental e, principalmente, um aumento da discussão referente à expansão da coleta seletiva na cidade do Rio.
De acordo com a última Pesquisa Nacional de Saneamento Básico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2000, são coletados na Região Metropolitana do Rio de Janeiro cerca de 13.429,4 toneladas de lixo por dia. Desse total, a maioria, 3.313 toneladas, possui como destino final os lixões, quando o ideal seriam aterros sanitários e ou, ainda, centros de reciclagem.
Ampliação dos serviços
A Companhia Municipal de Limpeza Urbana (Comlurb) informa que a coleta seletiva é realizada em 42 dos 160 bairros da cidade, mas que o volume de lixo coletado dessa forma ainda é muito baixo. Para ampliar o serviço para toda a cidade a companhia estima que seriam necessários cerca de R$15 milhões de investimento inicial, R$14 milhões de custos operacionais anuais, além de investimentos em campanhas educativas para a população.
Eduardo Berhardt, consultor da Associação Ecológica Ecomarapendi e membro da equipe Recicloteca, um Centro de Informações sobre Resíduos e Meio Ambiente cujo objetivo é pesquisar, organizar e difundir informações sobre as questões ambientais, com ênfase no princípio dos 3R's, acredita que campanhas como a promovida pela Secretaria de Ambiente são ótimos caminhos para melhorar a situação da cidade e do estado em relação ao lixo.
- Essas campanhas são muito importantes. Pode parecer que não, mas as pessoas, independentemente do seu nível de escolaridade, são ávidas por informações e, uma vez de posse delas, seguem naturalmente para a ação. Melhor, muitas vezes viram multiplicadoras dessa informação e ainda discutem em seu nicho social - comenta Eduardo que acredita que a relação do carioca com seu lixo ainda tem muito a melhorar. - Uma parcela significativa dos cariocas joga lixo no chão, sem parcimônia e ignora a coleta seletiva sem pudores. O povo que suja a sua cidade não a ama e é natural julgar que o título cidade maravilhosa exclui a população carioca. Além disso, há muitos problemas sérios que não são fiscalizados - sentencia.
Cidadão deve cuidar de seu próprio lixo, diz ONG
Os cuidados com o lixo e a preservação do meio ambiente não são responsabilidade exclusiva das organizações não-governamentais nem dos órgãos públicos. Cabe ao carioca separar seu lixo doméstico orgânico do seco, potencialmente reciclável, e resistir às tentações do comércio, que levam às pessoas a comprarem em excesso e descartarem na mesma proporção.
Essas são as principais recomendações do consultor Eduardo Berhardt, da ONG Recicloteca, que também salienta a importância de se praticar o reaproveitamento de materiais sempre que possível.
– As pessoas sempre devem reutilizar potes, sacos, sacolas, roupas, brinquedos e tudo que não esteja tão velho e ruim a ponto de ir paro lixo – afirma.
No site da campanha “Para onde vai seu lixo?” (http://www.meulixo.rj.gov.br) é possível encontrar uma lista de recomendações para o usuário, bem como informações sobre os impactos ambientais causados pelo lixo e sobre consumo consciente.
Já a Comlurb disponibiliza em seu endereço na Internet (http://www.rio.rj.gov.br/comlurb/) o roteiro e os horários de seu programa de coleta seletiva e uma relação de seus programas de educação social e Ambiental. Em caso de dúvida, o carioca ainda pode ligar para a ouvidoria da empresa, nos telefones 2214-7073 / 7074 / 7075 / 7076 / 7077 / 7078.
22:15 - 02/11/2009