ir direto para o conteúdo buscar notícias ir direto para as editorias

Jornal do Brasil - O primeiro jornal brasileiro da internet



Cultura

'A história do cristianismo' chega à pluralidade contemporânea

Affonso Celso Thomaz Pereira, Jornal do Brasil

RIO - Que o cristianismo é uma luz que se espraia por todos os ambientes da cultura ocidental – e, por oposição, da cultural oriental também – não há dúvida. Mesmo para dissidentes, agnósticos e ateus convictos, não há muita escapatória para a verificação de uma estrutura mental, social, estética e espiritual com a qual interagimos compulsoriamente. A dúvida que se mantém ao longo dos tempos envolve a crítica, a evidência e o reconhecimento formal ou material da presença do cristianismo como elemento de compreensão do mundo atual. Pergunta que talvez não seja de uma vez por todas esclarecida antes que a coruja levante voo.

O livro organizado pelo historiador Alain Corbain, História do cristianismo: para compreender melhor nosso tempo, vem contribuir para a reflexão acerca do imenso tema. São 56 autores que colaboram em 81 capítulos-verbetes, divididos em 17 capítulos nas quatro partes do livro. Organizado como um dicionário temático, obedece a uma ordem cronológica desde nascimento e vida de Jesus Cristo, passando pelas comunidades cristãs da Palestina, pela ascensão durante o Império Romano, pelo diálogo com os povos germanos, pelas reformas da era moderna chegando até o missionarismo dos anos 60 na África e conclui com um desafio da pluralidade ecumênica contemporânea.

Neste percurso de dois mil anos, os capítulos-verbetes, através da teologia, filosofia, história, política, filologia abordam temas como “Paulo e a expansão cristã” e “O purgatório e o além”. Desta forma, o leitor é convidado a refletir, numa linguagem acessível a não-especialistas, sobre a complexidade da penetração do cristianismo na história das sociedades ocidentais.

Na primeira parte do livro, trata-se da formação das primeiras comunidades cristãs no seio do judaísmo em face de outras seitas proféticas do Oriente Médio; desde a perseguição e catacumbas até a promulgação das leis que proíbem os cultos pagãos, entre 391 e 394 pelo imperador Teodósio (“e não com Constantino, como às vezes se diz”), que oficializam a conversão do Império Romano. Encerram o capítulo uma abordagem sobre os primeiros padres fundadores intelectuais e espirituais da Igreja e a expansão da religião pelos limites do império.

A segunda parte enfrenta a Idade Média. Fugindo aos estereótipos, desgastados e infecundos, que insistem em predicar o período como idade das trevas, os autores buscam elucidar o período de consolidação política, econômica e cultural da igreja católica na Europa e no Oriente. O cisma e a Igreja de Constantinopla são destacados em vista da compreensão do processo das Cruzadas. A formação das ordens religiosas, a Inquisição, as heresias e as inovações intelectuais, como a invenção do purgatório, e artísticas, como as catedrais, surgidas no seio da Igreja, compõem o mosaico medieval do cristianismo.

Os tempos modernos são contemplados como “o aprendizado do pluralismo”. De dentro da instituição surgem forças políticas, espirituais e filosóficas que põem em xeque a unidade do cristianismo no ocidente. A Inquisição medieval não dera conta das heresias e a proliferação de ordens heterodoxas. A conjuntura política do século 16 abre caminho para novos capítulos da religião cristã. As reformas católica e protestantes competem, entre os séculos 16 e 18, pela conquista de espaços na Europa e, em consequência, na colonização da América. A formação de novas sensibilidades confere-nos armas para compreendermos as produções artísticas e intelectuais do renascimento e do barroco na música, nas artes plásticas, na filosofia e também na política, como mostra o exemplo da disputa pela nacionalização dos santos.

Encerrando a viagem, a quarta parte discute o momento contemporâneo da religião. No século 19, com o avanço da industrialização, do capitalismo e da laicização do ocidente, as tentativas de compreensão do mundo vão progressivamente deixando de lado a religião como tema relevante. O que não quer dizer que a religião mesma deixou de ser atuante, o que pode ser comprovado pelos movimentos evangélicos e o crescimento do islamismo. Aqui o leitor deparar-se-á com os dilemas enfrentados pela Igreja Católica ao lidar com o liberalismo, o cientificismo e o socialismo. Neste sentido, é digna de nota a prescrição de Pio IX para que os fiéis se abstivessem de votar nas eleições parlamentares de 1861 na Itália, numa clara oposição ao movimento democrático. A maré no sentido oposto, ou seja, de uma maior transigência com as questões sociais, movida pela bula Rerum Novarum, em 1891 e pelo 2º Concílio do Vaticano (1962-65), retrata a pluralidade das práticas políticas da igreja no século 20.

As virtudes do compêndio, a disseminação para um público leigo, cristão ou não, da história do cristianismo e o próprio esforço coletivo dos autores para dar conta da hercúlea tarefa, esbarram em problemas que, talvez, não sejam superáveis, dado suas dimensões. A quase ausência de referências bibliográficas e de fontes documentais compromete a sua ambição. Podem-se observar posições conflitivas entre os capítulos-verbetes e afirmações arbitrárias que poderiam ser resolvidas com a informação das fontes históricas.

14:26 - 02/11/2009









Edição eletrônica







Jornal do Brasil - O primeiro jornal brasileiro da internet

© 1995 - 2009. Brasil Mídia Digital