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Rio

Idosos colocam o preconceito de lado e voltam às salas de aula

Foto: Zô GuimarãesQuerginaldo Garcia, de 74 anos Foto: Zô Guimarães

Nara Boechat, Jornal do Brasil

RIO - Foi-se o tempo em que os idosos tinham que ficar em casa, assistindo televisão e esperando o tempo passar. É cada vez mais comum vê-los em academias, no calçadão das praias, e até apostando em novas carreiras e dividindo espaço em salas de aulas, com alunos da metade da suas idades.

De acordo com o Censo Escolar de 2008 da Secretaria Estadual de Educação, os alunos com mais de 30 anos matriculados entre o 1º ano do Ensino Fundamental e o 3º do Ensino Médio totalizam 124.605. Com a escola garantida, grande parte destes estudantes seguem os seus colegas mais novos e ingressam no ensino superior, galgando uma nova profissão e, em muitos casos, o primeiro diploma universitário.

É o caso do mestre de obras e agora estudante do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UerjJ), Querginaldo Garcia, de 74 anos. Ele voltou a estudar aos 67 anos, devido a uma exigência do trabalho que desenvolvia no Conselho Tutelar de Nova Iguaçu, onde mora. Embalado pela curiosidade, emendou no curso pré-vestibular logo que completou o colégio.

– Uma galera, bem mais jovem que eu, decidiu fazer vestibular e eu fui mais por espírito de solidariedade e até para eu ver como é a faculdade, que mundo é esse de que sempre ouvi falar, mas nunca tive oportunidade, não só financeira, mas também de tempo, para conhecer – relata Querginaldo, que contou com o apoio dos seus 11 filhos e acabou os incentivando a voltar aos estudos.

Querginaldo, que por ter baixa renda e ser negro, entrou na Uerj pelo sistema de cotas. Ele está concluindo a monografia e concorrendo junto com uma chapa à direção do Diretório Central dos Estudantes (DCE). Mas quando questionado sobre seu projeto de vida, uma dúvida fica no ar.

– Veja só, 74 anos de idade e ainda não tenho projeto de vida. Sei que não quero parar de estudar. Quero trabalhar nessa área de discussão e ciência política – conta.

Recomeço

Para ocupar seu tempo após a aposentadoria, o ex-presidente da extinta companhia aérea Rio Sul, Percy Rodrigues, de 72 anos, resolveu investir na faculdade de jornalismo, após 45 anos de aviação.

– Depois de aposentado eu abri um escritório de consultoria de transporte aéreo que literalmente não decolou, devido à crise na aviação – conta o futuro jornalista, que já possui formação em outros dois cursos superiores, administração de empresas e direito.

Percy, que assim como Querginaldo também conclui a faculdade neste ano, diz que teve muitos momentos engraçados, por estudar com pessoas muito mais novas e que chegou a ser um ícone para os seus colegas.

– Nos dois primeiros anos, eu estudei no turno da manhã com a garotada. Em época de prova, meu caderno ficava fazendo ponte aérea na xerox – acrescenta Percy, que, com o diploma de jornalista, pretende investir na carreira de professor em Nova Friburgo, onde mora atualmente.

Mais oportunidades

Para o advogado e pesquisador Renato Ferreira, do Laboratório de Políticas Públicas da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), que trabalha com o Programa Políticas da Cor da instituição, é necessário oferecer alternativas e oportunidades para que esse aluno possa conciliar trabalho e estudo. O grande problema, segundo ele, é o preconceito e a falta de incentivo do governo em realocá-los.

– Fala-se muito dos jovens terem que estar na escola, mas não daquelas pessoas que perderam o período e que querem voltar a estudar – analisa Renato, que acredita que a maturidade é o fator chave para o bom rendimento destes alunos. – Muitas vezes, os jovens encaram aquele momento como deles. Já a pessoa com idade avançada, encara aquilo como uma oportunidade da vida e tem mais vontade de aprender.

21:03 - 01/11/2009









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