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Rio

Jovens recorrem a projeto social atrás de formação em áreas do Teatro

Foto: Vitor SilvaJovens veem o teatro como fonte de transformação Foto: Vitor Silva

Camilla Lopes, JB Online

RIO DE JANEIRO - Em uma semana em que o Rio viu que o destino de muitos jovens de comunidades é amargar a guerrilha urbana entre polícia e traficantes, um projeto realizado na Zona Norte, bem próximo às áreas dos últimos conflitos, surge como um novo caminho para adolescentes com idades entre 15 e 18 anos. Sem sofisticação, a ideia do projeto Passageiros do Futuro é levar o teatro e toda a técnica que essa arte envolve até esses jovens.

– O teatro é uma arma poderosa de transformação – define a atriz Juliana Martins fundadora do projeto, iniciado em 2001.

Os 48 – eram 60 mas há evasão, segundo Juliana, porque muitos dos inscritos no projeto precisam trabalhar – montaram o espetáculo Cronicas da cidade, que retrata situações típicas do cotidiano brasileiro a partir de crônicas de autores como Carlos Drummond de Andrade, Luís Fernando Veríssimo e José Carlos Oliveira.

O projeto é um bálsamo, mas faz exigências. Para integrar o Passageiro do Futuro, o adolescente precisa estar bem na escola. E, por falar neles, alguns estabelecimentos de ensino têm decepcionado Juliana Martins e os demais participantes das oficinas, em grande parte alunos dos colégios estaduais.

– Nosso trabalho para encontrar os integrantes do projeto começa nas escolas estaduais. Procuramos os diretores dessas instituições, mas muitos nem querem nos receber – relata Juliana.

Português melhor

Jean Rodrigues tem 15 anos e é morador da subida do Morro dos Macacos, em Vila Isabel. Estuda na Escola Estadual República Argentina, no mesmo bairro, uma das dez últimas do Rio de Janeiro na avaliação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), em 2008.

– Eu sei da classificação da minha escola. Infelizmente, acho o ensino fraco. O projeto tem me ajudado, porque aqui eu leio mais, melhorei em português – conta Jean cujo autor preferido é Carlos Drumond de Andrade. O adolescente já decidiu: vai fazer vestibular para artes cênicas.

A coordenadora Juliana Teixeira, porém, faz questão de explicar ao jovens que a carreira de ator de teatro é instável.

– Muitos deles se apaixonam por indumentária e cenografia. Eu deixo claro que a formação técnica é importante para que eles tenham um meio de sustento sólido dentro do teatro.

No caso de Simone Rocha, 18 anos, moradora do Andaraí, a suspensão do Enem foi uma grande decepção.

– Eu ia fazer artes cênicas na UniRio. Estudo muito, daria para passar com uma nota boa no Enem, mas agora não sei como vai ficar. Me apaixonei pelo teatro, mas vou ter que esperar – lamenta.

Falta de apoio em casa

Os jovens contam que, desde que ingressaram no Passageiros do Futuro, sofreram uma mutação rápida: em oito meses, já que a edição Andaraí do projeto começou em março, e, de acordo com eles mesmos, mudaram para melhor.

– Às vezes eu tenho vontade de consertar o português dos meus amigos que não vieram para cá. Mas me controlo, porque não quero que eles pensem que me acho melhor do que eles. Mas, aqui, eu aprendi a maquiar, fazer figurino e falar melhor, isso foi uma das coisas principais – diz João Anderson Pereira, 16 anos, que vai da Praça Seca, em Jacarepaguá, ao Andaraí, três vezes por semana para ser um passageiro do futuro.

A história de João é interessante porque o rapaz começou no projeto sem qualquer apoio. Agora, conquistou o incentivo da mãe.

– Quando começo a falar sobre o que aprendo no teatro para meus avós, meu pai e meus tios eles me mandam calar a boca. Só minha mãe tem me apoiado.

Desconfiança com o teatro

Há desconfiança de muitas famílias. Segundo Juliana, os parentes dos jovens não acreditam no acesso à cultura como mecanismo de transformação social.

– Alguns acham que teatro é coisa da elite. Por isso, promovemos reuniões bimestrais com os pais – esclarece.

O grupo faz apresentações semanais do espetáculo Crônicas da cidade, e os ensaios são coordenados pela severidade carinhosa do aposentado Paulo Teixeira, 63 anos, que dedica três dias da semana para cuidar dos Passageiros do Futuro.

– Quando me aposentei, resolvi estudar, não queria ficar parado. Fiz faculdade de fisioterapia, depois fui para o teatro. Eu gosto demais desses meninos, sinto que falta diálogo na casa deles e aqui eles podem conversar. De um modo geral, eu mudei muito para melhor, e eles também. A gente se acrescenta.

Na próxima terça-feira, os adolescentes e passageiros do futuro apresentarão o espetáculo Crônicas da cidade no Sesc Tijuca às 16h. A entrada é franca.

Um avô é o exemplo que os pais não puderam dar

Diferentes entre si, mal dá para acreditar que Ronald e Robert Rodrigues são gêmeos. Os rapazes, de 17 anos, são integrantes do Passageiro do Futuro e moradores do Morro da Casa Branca, comunidade violenta da Tijuca (Zona Norte). Os gêmeos foram criados com coragem pelo avô, Jorge, depois que o pai e a mãe, envolvidos com o tráfico de drogas morreram.

– Meu avô foi rígido, mas não nos importamos, porque a gente sabe que tinha de ser assim por causa dos nossos pais. Ele não deixa a gente ficar a toa na rua – diz Robert, que ainda não decidiu se fará vestibular para artes cênicas ou educação física.

Os dois viraram fãs do ex-cronista do Jornal do Brasil José Carlos Oliveira, mais conhecido como Carlinhos Oliveira, autor de mais de 3 mil crônicas uma parte delas dedicada à cidade do Rio.

– Encenamos uma crônica dele chama No ônibus e conta a história de um ônibus lotado. É muito real, parecido com o dia-a-dia – conta Ronald, que é mais calado do que o irmão e, assim como ele, está em dúvida se fará curso superior de educação física ou artes cênicas.

Juliana Teixeira conta como os meninos entraram no projeto.

– O avô deles veio até aqui conhecer e falar com a gente. Ele queria ver de perto se o nosso trabalho era sério.

Amor de avô

Para criar dois garotos que perderam a mãe de overdose e o pai assassinado dentro do Casa Branca, a rigidez se faz necessária, segundo Jorge Moreira da Silva, 71 anos, avôs dos gêmeos.

– Quando eles eram pequenos, eu subia pra casa com eles todos os dias, porque a mãe era irresponsável, deixava-os largados. Eu ficava esperando o dia em que ela tomasse jeito para cuidar deles, mas esse dia nunca chegou. Um dia, recebi a notícia de que ela havia morrido. Meu filho foi logo depois. Aí assumi os meninos de vez – conta.

Os dois são bons alunos na Escola Estadual Paulo de Frontin, em Vila Isabel, tanto que foram indicados pela direção para participar do Passageiros do Futuro. Mas os gêmeos vão passar a próxima semana de castigo.

– Eles foram para o campo da comunidade sem me avisar. Deu onze horas e nada deles. Eu já estava em casa preocupado quando fui encontrar os dois jogando bola. Estão de castigo, não tem cinema, não tem passeio, e eu não vou abrir mão – relata o avô.

Quando contam sua história os garotos, a cada dez palavras, citam o avô. Não há tristeza na descrição da trajetória dos pais, e, sim, uma certeza de que, ao contrário do que geralmente acontece, eles não devem, infelizmente, seguir o exemplo deles.

– Meu avô pegou a gente para criar, sem ele eu não sei mesmo como ia ser – conta Robert.

Na Casa Branca, muitos dos antigos amigos de infância escreveram a história do tráfico. Não precisa, de acordo com Jorge Moreira, esquecer os colegas que foram para o crime.

– Eles podem falar, cumprimentar. Eu só oriento, explico que eles devem ter humildade para falar com quem for. Eu sou duro, mas a verdade é que faço tudo por eles.

21:52 - 23/10/2009









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