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Cultura

O poeta Fernando Fortes parou de publicar, mas não de escrever

Foto: Angelo CuissiFernando Fortes em sua biblioteca. Foto: Angelo Cuissi

Taynée Mendes, Jornal do Brasil

RIO - Ele participou ativamente do movimento de renovação da poesia brasileira nos anos 50, mas seu nome não figura ao lado de contemporâneos como Ferreira Gullar e Mário Faustino. Apesar de pouco conhecido, em um concurso da Biblioteca Nacional para eleger o mais importante poeta brasileiro vivo, realizado em 1998, Fernando Fortes recebeu quatro votos, sendo um deles bem valioso: o de Gullar, que levou o primeiro lugar.

– Fiquei muito envaidecido com o voto do Gullar – diz o poeta, escondendo um sorriso precedido de um lento silêncio.

Carlos Fernando Fortes de Almeida tem motivos para se emocionar. Há 50 anos, publicou no Suplemento Dominical do Jornal do Brasil - o SDJB – o longo poema "Canto pluro", cuja última edição em livro, que data de 1982, é raridade nos sebos. Atestando seu talento, em uma carta de 1983, Antonio Houaiss considerou os poemas de Fernando “tão bem lavrados, tão bem mentados, tão bem articulados (...) que sua modernidade chega a constituir espanto”.

Mesmo ficando em terceiro lugar no 1º Festival de Poesia de Porto Alegre, em 1958. com Tempos e coisas – seu primeiro livro – Fernando Fortes só ganhou mais notoriedade depois da publicação de seus poemas no SDJB. Escrevendo desde os 15 anos, Fernando frequentava a redação do Jornal do Brasil, onde participou de toda efervescência artística propiciada pelo famoso suplemento, precursor dos cadernos culturais.

– Eu tive mais de 20 matérias publicadas no SDJB. Meu “Canto pluro" ocupou quatro páginas, e nunca antes ninguém tivera tamanho espaço para publicar um poema inteiro. Isso significa que eles gostaram de mim, um poeta desconhecido, não era filho de ninguém, não tinha pistolão.

Os que o conhecem, o conhecem por sua poesia, mas Fernando já publicou romances e contos – todos na década de 80 – e alguns de seus livros ganharam edições na Argentina, México, Estados Unidos e Dinamarca. A antologia de contos dinamarquesa Latinamerika Spell o coloca ao lado de Borges, Cortázar e Drummond. Fernando diz que já recebeu uma carta de Noam Chomsky sobre a edição inglesa do romance Evangelho antes de São Mateus.

– Ele disse que leu o livro e gostou muito – sorri.

Na orelha do romance Epílogo de Epaminondes, de 1960, mesmo não assinando, Carlos Heitor Cony escreveu: “Deve-se registrar a força com que o autor desta novela movimenta seus personagens, revelando uma esplêndida realidade de ficcionista, senhor de sua técnica, dono de uma linguagem policiada e criadora”.

Fernando mora com a mulher numa casa de três andares na Urca, em meio a uma biblioteca de mais de 15 mil livros. Simplesmente parou de procurar as editoras. A falta de badalação no circuito literário parece não o incomodar. Prefere uma vida reclusa junto aos livros. Mais que fama, almeja o reconhecimento.

Para Antonio Houaiss, Fernando Fortes é “um grande poeta que não teve o reconhecimento devido” e, para o crítico Antonio Carlos Secchin, “autor integrante e dissidente da floração poética dos anos 60”. O poeta Ferreira Gullar ratifica:

– Sem dúvida, é um grande poeta. Ele tem um modo pessoal de escrever. Era jovem na época e se revelou um poeta de talento.

De olho na morte

Embora não publique há mais de 20 anos, Fernando jamais parou de escrever. Em seus armários, ainda jazem inéditos duas peças teatrais, três romances e um livro de poesia que abarca toda a sua produção desde 1980, intitulado De olho na morte.

Particularmente interessante, o livro reúne 83 poemas, é dedicado a ele mesmo e ainda possui uma epígrafe insólita criada pelo próprio autor (“Descarte / Penso, logo, desisto. / A vida é um truque da morte.”). O ambiente funesto visita todos os poemas, muitas vezes de maneira categórica, como em “Relatividade” (“A morte não é mais que uma doença oculta / por trás de tua estúpida saúde”. )

A velhice, a solidão, a doença, a morte são temas recorrentes nas poesias de Fernando, que acredita que não se deve fugir de coisas tão naturais e essenciais:

– Por que não falar da morte? É uma das verdades que estão dentro da gente. O pessoal hoje vive de maneira triunfante, evitando falar da morte. É importante partir dessas premissas inevitáveis para ver o que que sobra e gozar a vida.

Assumindo-se pessimista e cético como o escritor romeno Emil Cioran, Fernando acredita que a poesia deve vir de dentro e a publicação não pode ser um fim em si mesmo.

– Todo grande artista não escreve para publicar, eis a grande diferença – afirma.

Mesmo assim, Fernando, aos 73 anos, ainda sonha em publicar um volume com os poemas reunidos.

– Se eu não fizer isso, acho que serei como esses autores que ficam importantes depois de morto – acredita.

Poemas inéditos

Homem triste

Todas as noites

no fundo do bar

a uma mesa

bebo solidão.

Quem passa e me vê

da calçada

pensa que gozo

a pausa da vida

a faina que o tempo

no escuro amortalhou.

Ninguém percebe

que o queixo apoiado na mão

é a tristeza que cansou

e adormeceu.

Alcance

A solidão é a distância inatingível

de um homem a outro homem

de um mar a uma estrela

do velho à infância.

É também o fio invisível

de um barco à viagem

ou de um barco a uma nuvem

e da nuvem ao naufrágio.

A solidão é o espaço

< entre o vôo e a liberdade

entre a praia e o horizonte

entre a saudade e o sonho.

Resignação

A sombra do tempo

segue adiante de ti

Inútil tentar alcançá-la

fingir que não a vês

Deixe que ela te ensine

o caminho da casa

que te guie amiga

ao leito da terra.

13:43 - 16/10/2009









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