O famoso Guernica, de Pablo Picasso Foto: Agências internacionaisMauro Trindade, Jornal do Brasil
RIO - Em nossa era de mísseis inteligentes, aviões invisíveis e imagens de guerra transformadas em atração eletrônica, os bombardeios aéreos não provocam mais horror pelos relatos de destruição, como em Dresden, Londres ou Hiroshima. A destruição de Gaza ou de Cabul adquire o impacto de um videogame: distante, virtual, frio, televisivo.
Mas, na segunda-feira de 26 de abril de 1937, as coisas pareciam bem diferentes à população do vilarejo basco de Gernika, na Espanha. Durante seis horas, quatro Heinkel He 111 e 10 51S, 23 Junkers 52, três Savoia Marchetti Pipistrelli, 12 Fiat CR 32S e um Dornier 17, da Legião Condor da Luftwaffe alemã e da Aviazone Legionaria italiana, atacaram a cidade e seus arredores com bombas explosivas e incendiárias.
Foi um choque em todo o mundo e, em cerca de seis semanas, o pintor espanhol Pablo Picasso expunha sua indignação em um quadro que se tornaria um dos mais célebres de todos os tempos: Guernica.
Esse é o ponto de partida para o crítico e curador Gijs Van Hensebergen escrever o seu Guernica: a história de um ícone do século 20. Diante da celebridade da obra, que já recebeu dezenas de ensaios de autores tão influentes quanto Alfred Barr, Rudolf Arnheim e Giulio Carlo Argan, chega a ser difícil imaginar que o livro traria algo de novo. Mas Hensebergen conseguiu o feito ao ampliar a discussão a respeito do quadro e de sua participação na arte moderna.
Terras civilizadas
Muito da fama de Guernica se deve aos jornalistas que rapidamente anunciaram o ataque. Mas o pânico que ele provocou tem muito a ver com o fato de que foi o primeiro bombardeio de saturação na Europa. Em 1911, os italianos já haviam lançado bombas sobre Trípoli, exemplo seguido pelos ingleses em Cabul, em 1919; em 1920, no Irã e em Bagdá; em 1922, pelos sul-africanos sobre os hotentotes; e, em 1932, pelos japoneses em Xangai. A única diferença foi que o ataque ocorreu em “terras civilizadas”, daí o espanto mundial.
O escritor persegue o quadro desde sua criação até a volta à Espanha, hoje no Museu Nacional Rainha Sofia, em Madri. É uma trajetória que diz respeito não apenas à Guerra Civil Espanhola e a Picasso, mas às mudanças no eixo artístico e cultural do século 20 e das relações entre arte e política.
Concebida e finalizada em Paris, a obra viajou meio mundo – inclusive para São Paulo, em 1953, em meio às discussões sobre o abstracionismo. E tornou-se símbolo tanto da resistência republicana à ditadura de Francisco Franco e monumento à liberdade quanto um paradigma da arte de seu tempo.
Guernica chegou aos Estados Unidos no momento que grande parte da intelligentzia europeia procurava abrigo do nazismo. Conforme Erwin Panofsky narra em seu Três décadas de história da arte nos Estados Unidos, já havia naquele país uma sólida produção neste campo. Nas universidades americanas existiam grandes estudiosos de arte que apresentaram o Velho Mundo sob uma nova perspectiva, sem limitações regionais e fundidos em um único panorama.
As vanguardas europeias também usufruíam desse ambiente, e os colecionadores dos Estados Unidos já eram, nos anos 30, os maiores compradores da obra de Picasso. A fundação do Museu de Arte Moderna de Nova Iorque, em 1929, vinha a coroar essa movimentação cultural que Meyer Schapiro resumiu: “Até que um dia a Europa se exilou nos Estados Unidos”.
Não demorou muito para que os EUA passassem a ser o centro mundial das artes, depois da Europa destruída ser fracionada na Conferência de Yalta. E Guernica estava, mais uma vez, no meio de tudo isso, a ponto de sua apresentação ao público novaiorquino ser ironicamente classificada pelo crítico Robert Roseblum de o “big bang” da arte americana, a despeito de quaisquer antipatias dos artistas daquele país com a tradição europeia e de suas tentativas de superá-la.
Hensebergen descreve o impacto que a grande tela causou nos pintores americanos daquele período e revela como foi construída uma identidade e uma independência da arte americana, a partir do expressionismo abstrato. Arshile Gorky, Barnett Newman, Willen De Kooning, Mark Rohtko, Robert Motherwell, Adolphe Gottlieb e Jackson Pollock veneravam a pintura. De Kooning revela sua influência em obras como Ashville, Light in August ou Natureza morta com fósforos, enquanto Gorky era chamado de “Picasso de Washington Square”.
A pintora Lee Krasner, mulher de Pollock, contou sobre a primeira vez que viu o quadro: “Guernica me arrasou (...) passei a ir todos os dias ao MoMA para vê-la”. Pollock, por sua vez, chegou a praguejar contra o espanhol: “Maldito Picasso. No exato momento em que penso ter descoberto alguma coisa, aquele bastardo a encontra primeiro”.
Guernica, o livro, descreve a trajetória do quadro ao longo das décadas e das oscilações de gosto que sofreu, desde as primeiras críticas negativas vindas de Anthony Blunt, que considerava a tela “obscura, sem um sentido definido, num cubismo elitista demais”, até os ataques do influente Clement Greenberg em defesa da primazia do abstracionismo. Para ele, Picasso estaria ultrapassado e Guernica demonstrava “que o pintor não podia fazer sucesso com uma enorme tela de formas achatadas cubisticamente”.
Críticas, no entanto, podem envelhecer ainda mais rapidamente do que as obras. Hensebergen lamenta o excesso de interpretações que Guernica recebeu, muitas delas pedantes tentativas de explicar o significado da obra e domesticá-la em lugares-comuns. Mas, através das fotografias de Dora Maar, então mulher de Picasso, e dos estudos que o artista deixou, fica claro o caráter processual de sua obra e seu profundo apego e estudo da arte.
A sempre celebrada originalidade de Picasso – e, mais amplamente, o mito do novo na arte moderna – merece ser repensada dentro desse contexto. O amante da escultura egípcia e negra e pintor de As senhoritas de Avignon cobriu Guernica com longas referências, da arte minóica à arquitetura grega e, em especial, ao Massacre dos inocentes, de Matteo di Giovanni e de Guido Reni, que Blunt identifica na obra. A boca gritando, os cabelos puxados e os olhos torcidos de uma mãe na tela de Reni parecem os mesmos da mulher que sustenta o lampião em Guernica.
Cinza da morte
Mas é no terrível Massacre, de Cornelius van Haarlem, que se encontram diversos elementos do quadro. É impossível não comparar o tecido esvoaçante da jovem assassinada à esquerda da tela maneirista com a cauda-fumaça do touro de Picasso. Na outra extremidade do Massacre, uma figura de fronte crispada joga as mãos para o alto de forma muito próxima à mulher na casa em chamas de Guernica. Uma mão forte em primeiro plano também está presente nas duas telas. E o cinza das crianças mortas de van Haarlem se estende por toda Guernica, em um duotone sinistro. Para Picasso, forma e cor não são elementos perceptivos, mas fatos intelectuais.
Talvez essa dimensão erudita, associada ao caráter político e a símbolos de múltiplas interpretações, tenha conferido à obra sua força e popularidade. E, mesmo décadas depois de estar acomodada na história da arte, parece que continua a perturbar. Em 1993, uma cópia do quadro em tapeçaria que a Organização das Nações Unidas mantém em um de seus corredores foi coberta por um pano azul, durante as explicações do então secretário de Estado americano Colin Powell, a respeito do ataque maciço sobre Bagdá, na Guerra do Golfo. Nada indica que os bombardeios, em qualquer parte do globo, irão terminar. Mas Guernica resiste.
13:28 - 16/10/2009