João Pequeno, Jornal do Brasil
RIO DE JANEIRO - Contrariados com o anúncio do prefeito Eduardo Paes de que construirá barreiras acústicas nas linhas Amarela e Vermelha a partir de novembro, associações de moradores de favelas do Complexo da Maré tentarão demovê-lo do propósito. Representantes das entidades se reúnem nesta quarta-feira, às 17h, para discutir o que vão fazer.
Embora a intenção, segundo a prefeitura, seja proteger os moradores do barulho dos automóveis e o projeto preveja muros transparentes – com visão fechada apenas parcialmente por imagens de montanhas como Corcovado e Pão de Açúcar – a barreira vai “tapar a comunidade”, segundo Nelson Teixeira da Rosa, diretor social da Associação do Parque Maré.
– Além de fechar a visão das pessoas para nós, atrapalha, porque quando a gente vai para um hospital, sai beirando a Linha Amarela e desce onde tem sinal, perto da entrada para a Ilha do Governador.
Segundo Nelson, ninguém reclama de barulho no complexo.
– A gente já convive e gosta de um barulho, de carro, de polícia, de sirene de ambulância. Viver sem barulho é vegetar. A prefeitura quer é iludir o pessoal que vem de fora. No vídeo da Olimpíada, eles não botaram as favelas. Querem tapar, mas as pessoas têm que ver nossa cidade como ela é – afirma.
Lourenço Cezar, do Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré (Ceasm) lembra que, em 2004, um projeto de lei do deputado estadual Coronel Jairo (PSC) previa construção de muros nas áreas consideradas de risco ao longo da Linha Vermelha, mas não foi adiante.
– Entregamos um abaixo-assinado ao presidente da Alerj (Jorge Picciani, do PMDB) contra a construção, que segrega as comunidades do resto da cidade. A ideia era evitar que bandidos atravessassem a pista e assaltassem motoristas, mas basta lembrar dos túneis para saber que nada ajuda mais os assaltos do que muros isolando pistas.
Para Roseni Lima de Oliveira, vice-presidente da Associação de Moradores da Nova Holanda, “eles não querem resolver o problema do barulho, mas esconder as favelas, que hoje chamam pelo nome bonitinho de comunidade”
A Associação de Moradores do Morro do Timbau também se declarou contra o projeto.
A crítica, porém, não é unânime. Fora das associações, há moradores da Maré que elogiam o projeto, como a secretária Eliane Maria da Silva, de 33 anos,
– Acho bom, porque as pessoas correm risco quando tem tiroteio.
O prefeito Eduardo Paes negou, nesta terça, que s barreiras, com três metros de altura e 38 metros de comprimento segreguem as favelas, frisando que condomínios nas partes mais ricas da Linha Amarela já ergueram muros acústicos por conta própria, e acrescentou que também haverá barreiras na Avenida Brasil.
Profissionais questionam proteção acústica e murais
A construção de muros acústicos como solução para reduzir impacto sonoro é uma medida cabível, embora “extrema”, afirma o urbanista Otávio Leonídio, que, no entanto, critica sem concessões os murais com desenhos de montanhas.
– A proteção acústica é muito comum na Europa. Em Paris, por exemplo, as barreiras são usadas em trechos do Boulevard Periférico, que circunda a cidade e tem tráfego muito intenso. Mas é uma medida extrema, porque há o risco de segregar uma área da cidade, por isso tem que ser transparente, como é feito em Paris. Ainda assim, o ideal é ter um afastamento das casas em relação à pista.
Se, no quesito transparência, as barreiras do Rio são aceitas, no que tange aos murais, são automaticamente reprovadas pelo urbanista.
– Aplicar qualquer tipo de imagem ali é tudo o que a gente não deve fazer. É mais uma poluição visual, da qual a cidade tem é que se livrar. Além disso, não há nada de mais em olhar para a favela, que faz parte do tecido urbano. Vai o quê? Fantasiar? – argumenta Leonídio.
A proteção acústica é questionada por Agostinho Guerreiro, presidente do Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia (Crea-RJ).
– O muro protege do barulho apenas as residências que são baixas. Se tiver um prédio de 8, 10 andares, não vai fazer diferença, porque as ondas sonoras em direção ao alto continuarão livres.
Embora o Complexo da Maré tenha, na maior parte, construções baixas, há áreas elevadas, como o Morro do Timbau.
Cidade “mais pobre do mundo”
A visão das favelas ao longo das linhas Vermelha e Amarela fez a jogadora americana de vôlei de praia Angie Akers descrever o Rio como a cidade mais pobre que já conhecera, durante o Pan 2007. As vias eram seu caminho entre a Vila Pan-Americana, em Jacarepaguá, e a quadra, na Praia do Leme.
Angie cancelou seu blog, onde escreveu sobre a pobreza carioca, após ser hostilizada em centenas de comentários de brasileiros. Ela disse o que vira nas favelas, como carcaças de animais e porcos bebendo água preta de sujeira dos rios.
21:33 - 13/10/2009