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Cultura

Passo a passo até o sonho do Bolshoi

Aleksander Medvedovsky, especial para o JB, Jornal do Brasil

MOSCOU - O telefone toca. Uma suave voz feminina pergunta em russo, com leve sotaque estrangeiro, se eu já cheguei ao local do encontro para entrevistá-la. O relógio marca 17h, exatamente como marquei com alguns dias de antecedência. A conversa é com Mariana Gomes, 22 anos, primeira e até hoje a única bailarina do mundo contratada para integrar o corpo de baile do Teatro Bolshoi de Moscou. Mariana aparece de repente na porta de um dos mais sofisticados cafés moscovitas, o Vogue. Sorridente, elegante, linda, bem vestida, imediatamente atrai a atenção dos homens presentes. Pedimos café e Mariana começa a contar a sua saga surpreendente e admirável.

O inicio foi o mesmo para muitas meninas brasileiras. Aos 7 anos, ela assistia ao balé na TV e resolveu fazer dele a sua profissão. A família de mineiros que vive até hoje na Bahia – o pai, representante comercial, a mãe, secretária – não tinha condições de pagar aulas na academia de dança. Ótima aluna na escola, Mariana pediu que os pais utilizassem o valor de sua bolsa de estudos no colégio para pagar as aulas de balé. Anos depois, mais uma vez a menina de 14 anos viu na TV algo que chamou a sua atenção: uma escola do balé Bolshoi em Joinville (SC). Como ocorrera há sete anos, a decisão foi imediata – continuar seus estudos por lá. Outra vez faltaram os recursos financeiros, mas uma amiga da família assumiu as despesas e levou Marina a Santa Catarina, para participar de um concurso de admissão à única escola do Bolshoi fora da Rússia.

Na prova, Marina foi julgada por estrelas de Moscou, como os bailarinos Vassiliev e Maximova e a inesquecível Eugenia Fedorova. Mariana foi aprovada e começou nova fora de casa e longe da família. Ao final do primeiro ano, conquistou a medalha e o prêmio da melhor aluna. Quatro anos depois, aos 18, a brasileira ganhou sua segunda bolsa de estudos. Dessa vez, mais valiosa: garantiria que passasse um ano em Moscou, fazendo estágio no próprio Bolshoi.

– Cheguei e não entendia nada. Fui morar com uma família russa. Tudo muito diferente, os hábitos, a alimentação, a língua, o clima estranho, a distância do Brasil – recorda Marina.

Trabalho para amenizar a solidão

Para vencer as dificuldades, a bailarina criou um hábito que cultiva até hoje: o de trabalhar mais do que os outros, incluindo finais de semana e feriados, talvez para amenizar a solidão, além de estudar papéis de vários espetáculos. Assim, quando faltava alguém, lá estava a brasileira Mariana, pronta para subir ao palco e brilhar. A recompensa veio na forma de um contrato de um ano. Pela primeira vez na secular história do Bolshoi, uma estrangeira assinou um contrato de trabalho com a Meca do balé mundial.

Para Mariana, tudo ficou difícil mais uma vez. Sem falar bem o idioma russo e com um inglês pouco fluente, ela sentia-se fora do grupo. Os novos companheiros de trabalho não entendiam bem o que ela fazia ali, muitos deles achando que estava sob a proteção de alguém, e que logo desistiria. Três meses sem uma única apresentação, sem um único papel, a brasileira seguia em busca de seu espaço, tendo aulas, trabalhando de 8 a 10 horas por dia, estudando os papéis com a máxima dedicação. Certa vez, o diretor do teatro viu a jovem ensaiando sozinha, quando todos os demais já tinham ido para casa. A partir desse momento, ela começou a dançar e a ganhar papéis, tornando-se, assim, uma verdadeira bailarina do Bolshoi:

– Jamais esquecerei minha primeira vez no palco. Naquela noite dançamos Gisele. Entrei e a única coisa que vi foi um grande lustre em cima da plateia. Pensei: estou realmente no Bolshoi.

Procurando novos desafios com um jovem bailarino russo, Mariana começou a se preparar para um concurso internacional na Itália. Chegaram à medalha de prata e, como consequência, Marina ganhou novos papéis, renovação de contrato, reconhecimento dos colegas de teatro e a conquista do direito de ser tratada como todos os demais da famosa e tradicional companhia russa de balé. Mesmo trocando de moradia a cada vez que surge a oportunidade de economizar um pouco de dinheiro, um salário que não lhe permite extravagâncias, um inverno sem sol e muita saudade da família, Marina não esmorece em seu sonho:

– Eu surpreendo a mim mesma.

00:37 - 03/10/2009









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