Selvino Heck *, Jornal do Brasil
RIO - Pergunto aos jovens participantes do 6º Encontro estadual da Rede Talher de Educação Cidadã do Acre, em Plácido de Castro, fronteira com a Bolívia, se sabem quantos presidentes brasileiros eleitos diretamente terminaram seu mandato, quando as mulheres brasileiras, analfabetos e jovens de 16 anos tiveram direito a voto no Brasil.
Não sabem, alguns arriscam respostas.
Pela primeira vez, partidos políticos brasileiros estão completando três décadas de existência. As mulheres começaram a votar em 1934. Até então votavam os homens alfabetizados e proprietários, ou seja, parcela ínfima da população. Só quatro presidentes eleitos diretamente, contando-se Lula, terminaram o mandato desde a República Velha. Os outros, ou eram ditadores, ou se suicidaram, ou renunciaram, ou foram impichados.
Honduras conheceu a Civilização Maia. Foi descoberta em 1502 por Colombo. É um dos países mais pobres da América Latina. Tem uma população de 7 milhões de habitantes. Vive da exportação de café, camarão e banana. Já serviu muitas vezes de base para as operações ideológicas dos Estados Unidos. Abrigou, por exemplo, os contras que combateram, com apoio dos EUA, o regime sandinista da Nicarágua.
Em Honduras, o presidente legitimamente eleito, Manuel Zelaya, foi detido, levado por militares para uma base aérea e à força para a Costa Rica antes da realização de um plebiscito, consulta popular para abrir caminho de uma futura Assembleia Constituinte, declarados ilegais pelo Parlamento e Suprema Corte hondurenhos. Mais um golpe de Estado na conturbada história política da América Latina e do Caribe.
Há, contudo, uma feliz novidade. Houve condenação internacional geral do golpe, a começar por ONU e OEA. Segundo Mauro Santayana, pela primeira vez, desde a Doutrina Monroe, 1823, um presidente norte-americano condena golpe militar na América Latina. Obama condenou o golpe e disse que Zelaya continua o presidente de Honduras. No governo de Roosevelt, os Estados Unidos financiaram e apoiaram, com soldados e armas, golpes militares em vários países. Uma das piores tiranias da América Central, a da Nicarágua de Somoza, foi concebida em Washington, com o assassinato de Augusto Cesar Sandino, em 1934. O apoio continuou até 1979, quando Tachito Somoza, filho do primeiro, foi derrubado pela Frente Sandinista.
Nenhum governo norte-americano, fosse qual fosse o presidente, deixou de prestigiar a direita em nome da “boa ordem”. Foi assim no fim do século 20 no Chile, na Argentina, Venezuela, Colômbia, Peru, Equador, El Salvador, Guatemala, República Dominicana, Cuba, Uruguai e Brasil. “Agora um presidente norte-americano exige respeito à vontade popular em país ibero-americano e sua posição é seguida no mundo”.
A jovem democracia latino-americana (e brasileira) está mais uma vez em jogo e em risco. É ainda planta tenra, frágil, dando seus primeiros passos sem tutela.
Nenhum descuido, portanto, é permitido. É preciso consolidar os canais democráticos e de participação popular. Crianças e jovens precisam conhecer a história brasileira e latino-americana. O protagonismo popular precisa ser incentivado. Experiências de organização de base, de educação popular, em construção em todo Brasil e América Latina, devem ser espraiadas. Só assim deixarão de acontecer golpes, derrubada de presidentes eleitos legitimamente e ameaças à vida democrática.
Justiça social, distribuição de renda, igualdade e reformas estruturais só prosperarão com democracia e soberania popular.
* Selvino Heck é assessor especial do gabinete pessoal do presidente da República
21:18 - 05/07/2009