Fernando Dolabela*, Jornal do Brasil
DA REDAÇÃO - Um dos efeitos mais nocivos do industrialismo foi a tentativa de ruptura entre emoção e trabalho. As tarefas passaram a ser limitadas e rotinizadas por “descrições de cargos” que prescrevem o uso das mãos e da mente e proíbem a criatividade. Nesse contexto a emoção foi estigmatizada como um estorvo e varrida para fora da fábrica.
A conseqüência maior das restrições às manifestações do coração foi a de tornar o trabalho distante dos desejos íntimos de cada indivíduo e a ser unicamente um meio de sustentação econômica e não de auto-realização. Exacerbava-se com isso o que se chama de “inserção parcial nas organizações”, em que estas extraem do indivíduo a parte deles que lhes interessa e recusam o resto. Quase impossíveis no trabalho, a felicidade e o prazer passam a ser buscados em outros âmbitos. Ao tentar fragmentar o ser humano em dois, um que trabalha e outro que se emociona, criou-se a base para a infelicidade coletiva.
Especialistas em “recursos humanos” foram encarregados de camuflar o que não tem solução, o conflito entre indivíduo e organização. As economias fortes se apoiavam na capacidade de produção e na ocupação de mercados, peripécias reservadas às grandes empresas em condições de produzir em escala. A evolução das técnicas gerenciais permitiu a criação de gigantes capazes de manter juntas qualidade e quantidade. Mas mesmo no silêncio e na marginalidade do padrão econômico, micro e pequenas unidades empresariais explodem em criatividade. O fenômeno das empresas que começaram em garagens surgiu antes mesmo da existência de garagens. A criatividade brotava (e ainda brota) no fundo do quintal, na oficina do porão, no barracão de quinquilharias. Foi ali que empreendedores conceberam inovações que mudariam a história da humanidade: telefone, avião, automóvel e tantas outras nasceram no terreiro ou no sótão.
Quando o automóvel surgiu, existiam nos EUA cerca de 200 fabricantes. No dealbar na indústria de microcomputadores, perto de 300 fabricantes disputavam um lugar ao sol. No entanto, apesar da sua capacidade de criar, as micro e pequenas empresas não se transformavam em agentes econômicos lucrativos em um mundo enlouquecido por uma demanda mundial insaciável. O importante era produzir e entregar em altíssima escala, algo impossível para as pequenas.
A era das grandes corporações encobriu a atividade fervilhante das pequenas, somente notada nas primeiras décadas no século passado. Mas isso não foi suficiente. Nem mesmo o fato de, após a Segunda Guerra Mundial, esse segmento gerar 95% de todas as inovações radicais no mundo da tecnologia fez com que a micro e pequena empresas (MPEs) ganhassem as atenções e reconhecimento dos teóricos da economia, onde Schumpeter pregava sozinho. Na década de 70 do século passado, no entanto, estupefatos ao ver que elas geravam mais emprego do que as grandes corporações, os economistas foram obrigados a digerir e metabolizar o fenômeno, já não tão novo.
Quando o conhecimento passou a ser o eixo da economia e as tecnologias de informação e comunicação permitiram que fosse disseminado em grandes quantidades a custos baixos, as MPEs subiram ao pódio e os jovens “loucos” passaram a ser protagonistas da nova era.
É claro, eles mudaram o mundo utilizando armas antigas sufocadas pelo industrialismo: inteligência somada à ousadia e criatividade, acompanhadas pela oferta externa de dinheiro (capital de risco) e centros de pesquisa de elevado nível.
Para escalar não é mais necessária a milionária infraestrutura industrial e o seu aparato de gestão. Jovens criam um novo mundo, em que o curriculum vitae é substituído pela rebeldia criativa. A capacidade de transitar para a nova era econômica não se restringe a quem conseguiu acumular capitais excedentes do ciclo econômico anterior, como se deu da agricultura para a indústria, já que surgiram investidores dispostos a participar dos riscos de empreendimentos de alto valor agregado e rápido crescimento.
A lição foi aprendida em todo o mundo, menos no Brasil, onde ainda se aposta no Estado empreendedor e se duvida na força da sociedade civil, o único segmento que, em países democráticos, tem os elementos indispensáveis a uma economia dinâmica: criatividade, dinheiro e liberdade.
* Escritor e consultor na área de empreendedorismo, é membro fundador do World Entrepreneurship Forum e autor de 13 livros na área, entre eles O segredo de Luísa.
23:16 - 04/07/2009