Chico Buarque monopolizou as atenções Foto: Daniel RamalhoJuliana Krapp, Jornal do Brasil
PARATY - Não teve para mais ninguém. Mesmo o americano Gay Talese – que já virou figurinha fácil, circulando com seu chapéu panamá pelas ruas do balneário – e o português António Lobo Antunes, cuja aparição no Brasil é coisa rara, pareceram esquecidos no terceiro dia de Flip (ambos apresentam-se sábado). A sexta-feira foi mesmo do brasileiríssimo Chico Buarque. Sua presença, ao lado do amazonense Milton Hatoum, fez com que não houvesse um único lugar vazio na Tenda dos Autores. Também fez com que uma multidão se estendesse ao redor da Tenda do Telão, na tentativa de ver ao menos uma nesga da figura do autor de Leite derramado. Na rua, um grupo de fãs indagava a quem passasse se teria ingressos para vender. E a organização do evento teve de dividir os fotógrafos em turnos para clicar a concorridíssima apresentação.
Enquanto isso, Chico e Hatoum, mediados por Samuel Titan Jr., eram pura serenidade no palco. Narraram com bom humor o processo de criação de seus últimos livros, e até fizeram piada das semelhanças entre Leite derramado, e Órfãos do Eldorado, de Hatoum.
– Quando estou escrevendo um livro, não leio outros romances – contou o carioca. – Por isso só fui ler o Órfãos do Eldorado quando terminei o Leite. E aí pensei: “mas esse cara me copiou!”. E ele ainda me copiou mais rápido, porque terminou antes de mim (o título de Hatoum é de 2008, enquanto o de Chico acaba de ser publicado).
Apesar de terem estilos muito bem demarcados, ambos os livros possuem, de fato, pontos em comum: uma personagem feminina misteriosa, tramoias de poder e um uso muito bem construído dos artifícios da memória.
– Eu não sei exatamente quando encontrei meu romance – conta Chico. Quando terminei Budapeste, fiquei 5 anos sem escrever nada. Mas muita gente me perguntava por que escrevi sobre um país que eu não conhecia. Então comecei a me perguntar se não seria bom escrever também sobre uma época que não conheci. Por isso o Leite derramado se passa na década de 20, embora, por meio da memória dos ancestrais do protagonista, o Eulálio, eu chegue até o Império.
Então o escritor foi tomado por coincidências, que o levaram ao cenário do romance:
– Comecei por acaso a ler muito sobre navios. Descobri que um navio francês, em especial, tinha histórias ótimas. Nele, viajaram Pixinguinha, Santos Dumont e mesmo o Le Corbusier. E esse navio aparece muito no romance – relata. – Mas foi mesmo ao ouvir uma música minha, O velho Francisco, que cheguei à ideia da história. Porque a canção me fez lembrar que a memória remota é muito mais forte que a recente. Daí meu protagonista ser um homem centenário.
Já Órfãos do Eldorado, de Hatoum, começou a ser escrito a pedido de uma editora estrangeira. Mas, acostumado a romances mais longos, o amazonense se viu em apuros quando se deu conta de que já havia ultrapassado, em muito, o tamanho da encomenda.
– Tive que refazer tudo. Essa coisa de encomenda é terrível. Nunca mais faço nada de encomenda. Nem bilhete – brincou.
Foi sobre tamanho, aliás, outra piada de Chico:
– Meu livro tem 200 páginas, mas, se levarmos em conta o tamanho da fonte, que é grande, ele honestamente só tem 150. Aliás: como as histórias se repetem toda hora (devido aos esquecimentos do protagonista), podemos chegar à conclusão de que Leite derramado só tem mesmo 20 páginas.
22:16 - 03/07/2009