Álvaro Costa e Silva, JB Online
RIO - Num rasgo, o crítico Davi Arrigucci escreve na quarta capa das Crônicas inéditas 2 (CosacNaify, 480 páginas, R$ 69): “Manuel Bandeira mostra-se uma vez mais não apenas como o cronista de mão-cheia, de fazer inveja a Rubem Braga, mas também como autor de uma das melhores prosas de que se tem notícia no Brasil”. Tudo bem que o espaço da quarta capa é normalmente destinado a elogios, a maioria das vezes exagerado, ou beirando a publicidade, mas, a rigor, o que a leitura do livro comprova é que Manuel Bandeira não é exatamente um cronista, na linhagem como são conhecidos no Brasil, e da qual Rubem Braga é o maior expoente. O que o poeta faz em prosa, ao menos na coletânea em questão, é texto crítico, amadurecido e reflexivo, em torno sobretudo da literatura e das artes plásticas. A aproximá-lo da crônica – e aí Davi Arrigucci está com razão de falar em “melhores prosas” – há o estilo, de fato delicioso, que combina registro informal com linguagem culta.
Logo no primeiro texto, “Iniciação em Marcel Proust”, tem-se um exemplo do coloquialismo de Bandeira, ao definir o estilo remissivo, com frases longuíssimas, do autor francês, como “puxa-puxa”. De resto, Bandeira ensina que se deve ler Proust – de quem, aliás, traduziu A prisioneira, quinto volume da Recherche – “desde a primeira linha do primeiro tomo que começa o romance único que é a sua grande obra”.
Os retratos do poeta
Organizado por Júlio Castañon Guimarães, também responsável pelo primeiro volume, este segundo contém 130 textos escritos entre novembro de 1930 e janeiro de 1944. O mais impressionante deles é “Retrato de meus pintores”, páginas em que Bandeira relembra a experiência de posar para Candido Portinari e Frederico Maron (a edição, caprichada, traz a reprodução das obras): “Nas longas horas de tête-à-tête da pose virá de vez em quando o instante perigoso em que desarmamos, em que o mais profundo de nós aflora aos olhos, à boca. São indícios esses que revelam à personalidade ao pintor como na floresta pios e pegadas imperceptíveis denunciam ao caçador a proximidade da presa. Os bons retratistas são como grandes caçadores”.
Bandeira, o crítico literário, não se rende a compadrios. Aponta defeitos e acertos em Marques Rebelo, Oswald de Andrade, Ribeiro Couto, Jorge de Lima, Vinicius de Moraes, entre outros, com elegância mas sem frescura.
Na divertida história sobre um concurso de contos promovido pelo Jornal do Brasil em 1933, do qual Bandeira foi julgador, ele conta que nunca pôde apanhar o jeito dos bons contistas, citando Bocaccio e Aldous Huxley como exemplos. Dá a explicação e, ao mesmo tempo, a dica: “A leitura em grosso de prosa ruim instrui muito mais. Os bons autores levam à imitação e ao decalque. Os maus é que são as boas influências: mostram o que não se deve fazer. O pequeno defeito de um artista excelente pode passar despercebido e vai talvez depravar as pequeninas vocações”. Touché.
E, para não desdizer Davi Arrigucci de todo, Manuel Bandeira é cronista, neste trecho: “O meu engraxate predileto era um daqueles do ponto que fica à esquerda da entrada da Galeria Cruzeiro no Largo da Carioca. Não que fosse melhor que os outros: os engraxates do Rio são todos iguais e não valem nada. Terra de engraxate é a Bahia. é o Recife. Ali é que se sabe redourar o brasão de um sapato! Eu dava preferência ao engraxate daquele ponto do Largo da Carioca por causa da vista que da sua cadeira se tinha sobre as frontarias do Convento de Santo Antônio e da Igreja da Ordem Terceira de S. Francisco da Penitência. Depois que fecharam o fundo do largo e me tiraram a vista, abandonei o meu engraxate para não ter raivas inúteis...”.
Para estrangeiros
Além do volume de crônicas, Manuel Bandeira – este ano o grande homenageado da Flip – ainda terá sua assinatura em mais dois livros lançados pela Cosac Naify: Apresentação da poesia brasileira (504 páginas, R$ 69) e sua tradução para o Macbeth de Shakespeare (208 páginas, R$ 49).
O primeiro, escrito com vistas ao leitor estrangeiro, é na verdade dois livros em um. A primeira parte traz um panorama dos poetas, escolas e movimentos que marcaram a poesia no país, de José de Anchieta ao concretismo. A segunda parte organiza-se como antologia: 125 poemas de 55 poetas (inclusive Ferreira Gullar, então na casa dos 20 anos). A edição apresenta um posfácio de Otto Maria Carpeaux.
Bandeira também traduziu muita poesia, principalmente de autores latino-americanos, e teatro (O círculo de giz caucasiano, de Brech, Maria Stuart, de Schiler, entre outras). Esta edição de Macbeth (“a mais sinistra e sanguinária tragédia do autor”, segundo o poeta) mostra na capa a montagem de Antunes Filho, Trono de sangue, de 1992, e a seguinte tradução para a famosa sentença sobre a vida: “Uma história contada por um idiota, cheia de ruído e fúria e sem nenhum sentido”.
Mais lançamentos
Ainda de Manuel Bandeira, felizmente em alta com a festa literária, sai, pela Nova Aguilar, com organização de André Seffrin, Poesia completa e prosa (1.074 páginas, R$ 290), edição revista e ampliada de um trabalho que estava há mais de três décadas ausente das livrarias. A Nova Fronteira reedita a compilação de livros Estrela da vida inteira (464 páginas, R$ 69), que inclui um CD de áudio com leituras de poemas feitas pelo próprio Bandeira.
21:18 - 03/07/2009