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RIO - Em sete anos de existência, esta é a primeira edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) que abre espaço para a produção de quadrinhos. No segundo dia do evento, a mesa "Novos Traços" foi composta pelos jovens talentosos desenhistas Rafael Coutinho, os gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá, e Rafael Grampá. Cada um com seu estilo de contar histórias em gibis. Mais tarde, foi a vez da Feira abrir espaço, também pela primeira vez, para um debate sobre a China. Na mesa "China no divã", dois escritores chineses, Xinran e Ma Jian, relataram histórias da ditadura do país de Mao Tse-Tung, em especial o massacre da Paz Celestial, que completou 20 anos em 2009.
A Tenda dos Autores recebeu na manhã de quinta-feira (2) quatro desenhistas. Eles narraram pelo menos uma das suas histórias já publicadas nos quadrinhos. Bem humorados e com uma linguagem bem jovem, os autores encantaram o público presente. Em um dos temas abordados no bate-papo, Gabriel Bá, que trabalha em parceria com o irmão, Fábio Moon, falou um pouco sobre suas publicação no Brasil, antes de divulgá-las nos Estados Unidos. "Aqui tivemos mais contato com o público. O feedback foi maior, pois mostrávamos o trabalho nem que fosse para os nossos amigos ou para os amigos da minha mãe", brincou. Ele relembrou ainda os tempos que desenhava na faculdade. "Os personagens eram os colegas da turma, o que sempre atraía público, já que as pessoas queriam se ver nos quadrinhos".
Grampá contou que sempre sonhou em publicar histórias adultas em gibis, mas nada relacionado a super-herói. Antes de conseguir seu espaço no mercado editorial, ele trabalhou com designer e diretor de arte. "Eu ficava desenhando durante o trabalho e era sempre repreendido por isso", contou, arrancando risos da plateia.
Filho de Laerte Coutinho, um dos grandes quadrinistas do país, Rafael Coutinho foi incentivado desde criança a ler gibis. Atualmente está com a carreira bem consolidada, porém, já vendeu CDs e trabalhou como barman. Além de desenhar, ele cria animações e esculturas.
Perguntado se histórias em quadrinhos podem ser consideradas literatura, Grampá respondeu que isso não faz parte das suas preocupações. Na opinião dele, cada arte tem a sua importância. "Não me preocupo se os quadrinhos parecem teatro ou cinema... Eu vou lá e faço. É o que eu gosto de fazer", disse.
Outra questão debatida foi a adaptação necessária que os desenhistas muitas vezes precisam fazer para comercializar alguns produtos, atendendo ao mercado da publicidade. "Sempre tive a preocupação em desenhar histórias de temas e ideias que acho interessante. Isso é importante para quem faz ilustrações", opinou Fábio Moon. Gabriel Bá foi mais fundo na explanação. "É muito difícil desenhar histórias que não têm a ver com o nosso perfil, mas reconheço que tem muita gente que faz isso com brilhantismo".
Como todo artista, cada um deles tem o seu tempo para criação. Rafael Coutinho consegue finalizar três páginas de gibi em um dia, assim como Fábio e Gabriel. Mais detalhista, Grampá reconheceu que geralmente dedica de três a quatro dias em cada página.
Próximo do final do debate, algumas perguntas da plateia deixaram a conversa ainda mais interessante. Uma das questões foi o motivo do interesse do cinema americano em criar quadrinho. Grampá respondeu de bate-pronto: "Dinheiro. O público de quadrinho é muito fiel. As pessoas se fantasiam como os seus personagens favoritos. Se uma história der certo, já é meio caminho andando para o sucesso comercial".
A diferença entre o mercado comercial americano e o nacional no segmento de gibis também foi colocado em pauta pelo público. De acordo com Fábio, o Brasil tem crescido nessa área de histórias em quadrinhos e algumas editoras já perceberam isso. "As pessoas estão querendo contar histórias mais longas, que sobrevivam ao tempo e precisam estar nas livrarias", afirmou.
Por fim, o "preconceito" que parte da sociedade tem com os quadrinhos, por acreditar que esse tipo de leitura é apenas para crianças, ganhou espaço na mesa. Para Rafael Coutinho, isso acontece porque muita gente só lembra das histórias do Maurício de Sousa (autor da Turma da Mônica) ainda dos tempos de infância, e não tem muito acesso aos gibis adultos.
Logo após o debate, os quatro desenhistas autografaram suas obras e conversaram pessoalmente com os fãs em uma outra tenda montada em Paraty. A estudante de letras Sofia Maiutti, 22 anos, contou que começou a ler gibis incentivada pela avó: "Leio quadrinhos desde os sete anos de idade. Comecei com a Turma da Mônica. A minha avó me presenteou com a assinatura das obras do Maurício de Sousa. Faz pouco tempo que leio gibis mais adultos e estou gostando muito dessa nova fase".
A produtora de eventos aposentada Ercília Lobo, 64 anos, enfrentou a longa fila para levar para casa as dedicatórias de Rafael Coutinho e os autógrafos de Fábio Moon e Gabriel Bá na versão em quadrinhos de O Alienista, livro adaptado de Machado de Assis. "Sou fã de literatura, gosto de ver os ídolos de perto e conhecer os autores. Na minha opinião o debate foi bem conduzido. Eles foram perfeitos nas suas colocações e se expressaram perfeitamente em uma linguagem jovem".
Nesta sexta-feira, a Flip segue com diversas mesas, entre elas "Sequências Brasileiras", com Chico Buarque.
10:02 - 03/07/2009
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