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Cultura

Flip: "É um erro achar que a economia pode melhorar situação da China"

Lísia Gusmão, Agência Brasil

PARATY - A jornalista Xinran transformou 100 horas de entrevistas com 20 pessoas que viveram a Revolução Cultural, nos anos 1960, no livro Testemunhas da China. Já o escritor Ma Jian romanceou o massacre da Praça da Paz Celestial, que completou 20 anos em 4 de junho último, e batizou seu livro de Pequim em coma.

As duas obras foram apresentadas nesta quinta-feira pelos autores na mesa China no divã, uma das mais aguardadas da VII Feira Literária Internacional de Paraty (Flip), que recebeu, pela primeira vez, representantes da literatura chinesa.

Os escritores, no entanto, minimizaram a preponderância econômica da China como fator de pressão para o fim das restrições às liberdades civis. “Há esperança de que a economia melhore também a situação política na China. Isso é um grande erro”, disse, taxativo, Ma Jian.

Ele relembrou os dias das manifestações estudantis que foram duramente reprimidas pelo governo chinês. A reação aos protestos é lembrada pela imagem de um jovem chinês, sozinho e desarmado, impedindo a passagem de um tanque pela Praça da Paz Celestial, no dia seguinte ao massacre. “A limpeza do massacre foi pior do que o próprio massacre”, contou.

O romance Pequim em coma tem, portanto, um elemento de reparação para Ma Jian, por sua ausência nos dias mais violentos da repressão. Ele havia deixado Pequim para visitar o irmão doente que estava em coma. A idéia do livro surgiu enquanto ele observava o irmão no leito de hospital. “Pensei: 'ele é um sortudo'”, confessou o escritor.

Enquanto a China recuperava-se da violenta repressão que se seguiu à onda de protestos, a jornalista Xinran preparava-se para coletar relatos sobre a Revolução Cultural de Mao Tse-tung. Vinte anos depois publicou Testemunhas da China, um resgate da história recente contada por quem viveu sob o governo de Mao. A pesquisa, disse, ainda não terminou.

“Eu não tenho muito interesse no poder político e econômico da China. O que me interessa são as mães e avós chinesas, que são as responsáveis pelo futuro daquele país. A história não pertence só aos vencedores, mas também aos perdedores. O passado é a raiz do presente e do futuro. Este é o meu foco”, afirmou Xinran.

A escritora lamentou a dificuldade dos chineses em contar sua própria história. “Foi difícil extrair qualquer história”, disse. “É uma longa marcha até que as pessoas compreendam o que é a China e o povo chinês.”

Já Ma Jian não escondeu a decepção com os jovens que presenciaram o massacre da Praça da Paz Celestial e que adotaram um tom moderado. “São vozes moderadas. Eles não estão certos quanto ao seu papel na história. Outros escritores, que são dissidentes, têm medo de escrever a verdade daquela época. São poucos os que querem tocar no assunto”, disse.

Mas a coragem de Ma Jian tem um preço. Ao público da Flip, ele confessou o receio de voltar à China. “Talvez não possa visitar minha filha em seu aniversário no próximo dia 12 de julho”, lamentou. “Meu livro é objeto de censura. Fui alertado para isso. Vivo um dilema: retorno ou não a China?”.

19:53 - 02/07/2009









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