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Sociedade Aberta

Reflexões de um aprendiz de cozinheiro

João Batista de Abreu *, Jornal do Brasil

RIO - Nesses 55 anos de estrada, confesso que vivi. Profissional e afetivamente. Mas, que me perdoe Pablo Neruda, nunca aprendi a cozinhar. Sei apenas de cozinha de jornal. Aquele trivial simples, como fazer títulos e linhas de apoio, legenda e texto-legenda, chamada, macaca e outros adereços. Aprendi a botar tempero na matéria alheia, numa época em que o copidesque do Jornal do Brasil estava repleto de gourmets de fino trato. E eu, apenas um aprendiz de cozinheiro.

Nesses 35 anos de janela, compreendi que a paisagem nos oferece várias lições e que nos cabe assimilá-las ou não. A universidade se apresenta como um balcão de ofertas. Uma oferta democrática porque permite a aprendizes conhecer, experimentar, refletir, enfim, preparar receitas que, espera-se, algum dia serão destinadas à sociedade. No espaço da sala de aula pode-se, sim, ensinar técnicas jornalísticas. Se não acreditasse nisso, preferiria pedir demissão.

Quando um poder supremo desmerece uma profissão, desqualifica também sua formação. Ignora o longo tempo de dedicação de jovens que buscam nos bancos escolares ascensão social e a perspectiva de encontrar um lugar digno na sociedade, sem depender de favores, práticas de nepotismo ou arranjos partidários.

Talvez seja essa possibilidade que incomode tanto. Silenciosamente, a universidade pode contribuir para dotar cidadãos das mais variadas origens sociais de uma reflexão crítica, sem a qual ele não exerceria qualquer profissão de nível superior na sua plenitude.

Como repórter, aprendi que a maioria dos jornalistas não costuma ser convidada para banquetes, e aqueles que o são correm o risco de pagar uma conta alta na carreira. Certa vez, ao entrevistar um empresário durante um coquetel para o qual eu não fora convidado, arranquei-lhe algumas respostas enquanto ele degustava tranquilamente um camarão, sem ao menos ter a educação de oferecer ao entrevistador. Interpretei aquela atitude como um recado, que marcava a distinção do lugar social entre os dois personagens.

Os filmes de Buñuel ensinam como as refeições representam um lugar de exclusão e inclusão na sociedade burguesa. A constatação nos ajuda a entender a metáfora do ministro onipotente. Novamente a demarcação entre os que sentam à mesa do banquete e os que preparam a comida. Sem diploma, e portanto sem os benefícios econômicos que dele advêm, o que se deseja é que fiquemos sempre condenados a preparar a comida alheia, especialmente a dos comensais de banquetes.

Aos jovens cozinheiros, candidatos a chefes de cozinha, fica a advertência. Não confundam o lugar do jornalista com os dos representantes da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), principal articuladora do lobby que derrubou a obrigatoriedade do diploma.

O vietnamita Ho Chi Minh, cozinheiro da colonial Marinha francesa, nos mostrou que é possível um pequeno Davi de olhos puxados sair vitorioso na luta contra Golias. A nossa é a do feijão com arroz contra o supreme de frango, com ou sem a ironia de penas.

* João Batista de Abreu é “jornalista com diploma” e professor da Universidade Federal Fluminense (UFF)

22:09 - 30/06/2009










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