Editorial, Jornal do Brasil
RIO - Em menos de 10 horas, no último fim de semana, Honduras assistiu à deposição de seu presidente constitucionalmente eleito e a assunção ao poder de um novo mandatário, tudo sob as bênçãos das Forças Armadas e da elite política. Com a mesma celeridade com que se deu o golpe de Estado veio a reação da comunidade internacional. E o mundo vivenciou uma daquelas raríssima ocasiões históricas em que todos os principais atores – das mais diferentes nuances políticas – se unem numa só voz, condenando o ato antidemocrático e exigindo o retorno do legítimo governante, Manuel Zelaya.
Os mentores do golpe não contavam com o repúdio tão firme e rápido manifestado por nomes que vão desde Barack Obama e Luiz Inácio Lula da Silva a Hugo Chávez (e seus discípulos da Alternativa Bolivariana das Américas, a Alba), passando por organismos como a Organização dos Estados Americanos (OEA) e a União Europeia (UE). Sem qualquer apoio internacional e contestado por sindicatos e outros setores representativos da sociedade hondurenha, o governo recém-implantado em Tegucigalpa já acena com a possibilidade de diálogo e retorno à normalidade democrática. Por ora, no entanto, ainda vigora o toque de recolher na capital do país, e o aparato militar estacionado nas ruas apenas reforça o mal-estar que se abateu sobre a nação.
As origens da extemporânea quartelada remontam ao referendo convocado por Zelaya, que pretendia alterar a Constituição e concorrer a um novo mandato – contrariando a decisão dos tribunais e a vontade dos militares e da oposição. A insistência do presidente, que marcou para domingo a data da consulta popular, foi a senha para o levante. O que se viu às vésperas da abertura da votação repetiu o roteiro das piores histórias vividas pela América Central nos idos de 60 e 70 do século passado.
Os militares cercaram a casa de Zelaya de madrugada, levaram-no para uma base aérea e depois despacharam-no para a Costa Rica. As transmissões de rádio e televisão foram suspensas, a eletricidade cortada e os transportes públicos interrompidos. Por volta do meio-dia, o Congresso hondurenho reuniu-se em sessão especial convocada pelo presidente, Roberto Micheletti, que foi nomeado presidente interino do país. À noite, Zelaya seguiu de seu suposto exílio para a Nicarágua (a bordo de avião emprestado por Hugo Chávez), e participou de reunião com outros presidentes latino-americanos. Apesar das incertezas, o governante deposto permanece confiante no futuro.
Em tempos de globalização e multilateralismo, simplesmente não há mais espaço para a montagem de uma encenação como a apresentada em Honduras. As palavras do presidente americano definem bem o sentimento da comunidade internacional: “Quaisquer tensões e disputas existentes devem ser resolvidas pacificamente e através do diálogo, livre de qualquer interferência externa”. Ou, como sublinhou o presidente Lula, “daqui a pouco vira moda”. O fato é que os países que sabem da importância da democracia esperam garantir a segurança do governante deposto e de sua família, bem como a restauração da ordem constitucional e a volta de Zelaya à Presidência. Resta saber o quanto cada lado está disposto a ceder para que isso aconteça.
22:19 - 29/06/2009