Bolívar Torres, Jornal do Brasil
RIO - Quando o grupo do Instituto Pólen/Galera.com, formado por moradores do Morro dos Prazeres entre 12 e 16 anos, descobriu a existência do Festival de Cinema Estudantil da Europa, o prazo de inscrição de filmes já estava vencendo. Faltava apenas uma semana e eles não tinham sequer um roteiro pronto. Na mesma noite, o aluno Saulo Nicolai, de 18 anos, foi para a casa e pensou num argumento: a história de uma família arrasada após a morte de um dos dois irmãos quando brincava de soltar pipa em cima do morro.
Rodando em ritmo frenético e contando com atores não profissionais da própria comunidade, conseguiram terminar o curta de sete minutos, intitulado Afeto, em cima da hora. O esforço compensou: concorrendo com obras americanas e europeias, num júri formado por experientes diretores da Inglaterra, França e EUA, conquistou o segundo lugar no festival.
– Tínhamos que fazer em cima da hora, mas não havia nada, nenhuma ideia, nenhum roteiro, nada – conta Nicolai. – Eu estava sonhando acordado quando veio o argumento. Acidentes soltando pipa são muito comuns na favela.
Afeto foi finalizado em menos de uma semana, com uma câmera HDV. A narrativa traz o conflito entre uma mãe solteira e seu filho, depois que o irmão dele morre ao cair da laje. A mulher acaba culpando o menino, apesar de seu esforço em tentar salvar o irmão. A edição final tinha 10 minutos de duração, ultrapassando em três o limite estabelecido pela organização. Não foi fácil cortar o tempo excessivo, tanto que o grupo mandou o filme com 40 preciosos segundos a mais, os quais foram perdoados pelo festival.
– Toda a comunidade se uniu e conseguimos terminar a tempo – ressalta Nicolai, que se juntou ao grupo aos 12 anos. – Tivemos apenas um ator profissional participando, o nosso orientador Charles Siqueira, que supervisionou todo o processo. Tivemos que mandar por correio e, por causa do prazo, não conseguimos ir à Europa.
O Instituto Pólen surgiu em 2005, depois do início das atividades para congregar os três grupos jovens (como o coletivo Dança pra Galera, a produtora gráfica, audiovisual e de conteúdo para a web Galera.com e o Núcleo de Educação e Formação Humana) formados a partir do trabalho de Charles Siqueira e outros voluntários. Todo o processo é independente de patrocínio, sobrevivendo de eventuais apoios, dos produtos e serviços que realizam e de parceria com o Ponto de Cultura Memórias de Santa e com a própria associação de moradores. O trabalho gerou um grupo de jovens que hoje atua em suas próprias comunidades (além dos Prazeres, os morros do Falet, Fogueteiro e Júlio Otoni), onde dão aulas para outros jovens.
Um dos projetos do Pólen é o média-metragem O que temos para dizer, uma espécie de resposta a Tropa de elite, de José Padilha. Também dirigido por Nicolai, o filme está em processo de finalização.
– Nós gostamos de Tropa de elite, mas há algumas coisas no filme com as quais não concordamos – observa o jovem cineasta. – Ficamos tristes ao ver um filme de ação julgando mal a comunidade, passando a impressão de que todo mundo é bandido. Na verdade, aqui é mais seguro do que muitas ruas do Rio. As pessoas dormem de porta aberta, ninguém é roubado. O que temos para dizer é nossa versão da história.
O projeto tem o apoio do próprio José Padilha, que cedeu imagens de seu longa para o média-metragem.
– Não é só uma resposta ao Tropa – acrescenta Nicolai. – Tem o lado pessoal, de que não basta a comunidade esperar para que as coisas sejam feitas.
09:53 - 24/06/2009