Mario Marques, Jornal do Brasil
RIO - A alguns minutos de entrar no voo 904 da American Airlines bate um pânico. Um pânico daqueles, pânico mesmo. De ligar para casa e pedir, pelo amor de Nosso Senhor, um empurrão de volta. Não há um sorriso, um balançar de ombro esperto, uma leitura de revista de variedades na sala de embarque. Estão todos com a mente ocupada com a recente tragédia do 447 da Air France. Eu inclusive. Agoniado, descontrolado, meio torto, encontro o querido colega Marcelo Tabach, que tomaria o mesmo destino e o mesmo trabalho. Com algumas palavras, mas ele mesmo assumindo certo desconforto em pisar um avião, estamos dentro do 737 que nos levaria a Miami. Mesmo dentro, num acesso irracional, tento sair. Depois de olhar para as cadeiras e só ver rostos assustados, depressivos. É tarde.
Em pé, perto da porta, assisto ao fechamento da cabine. Noto que Tabach tenta entender o que faço em pé ainda. Sento. Vamos lá.
O modo como vemos o mundo foi duramente abalado com o voo da Air France. Não quero aqui acrescentar nada a todas as teses, especulações, informações, à cobertura ampla de nosso noticiário. A questão aqui é que viajar, a atividade mais desejada de todo cidadão que tem o suficiente na conta do banco, não é mais a melhor diversão. Isso ficou latente depois que, contra todas as certezas da história da aviação, um voo despencou em atitude de cruzeiro, nem na decolagem, nem no pouso, estatística incontestável – 50,39% no pouso, 20,96% na decolagem. No ar, o Escritório de Registros de Acidentes Aéreos registra 20,96 de casos. Raios derrubaram aviões apenas 15 vezes, a maioria aparelhos menores. Há um total de 17.639 acidentes, com 121.870 vítimas.
Mesmo de posse dessas informações, num mundo globalizado em que milhares de aviões ganham os céus todos os dias, estamos agora patinando na incerteza. No voo 904, o meu, em nenhum momento o aviso de apertar os cintos foi desligado. Em pouquíssimas vezes, vi gente indo ao banheiro. Ficaram todos paralisados em suas cadeiras. Estamos falando de um voo Rio-Miami, de oito horas e 45 minutos, sem esticar as pernas. Não é uma sensação – é uma realidade pavorosa. Como o acidente da Air France é recente, há no semblante dos comissários de bordo uma clara reflexão sobre a vida. Aquele atendimento alegre, solícito, de empenho em manter o cliente a bordo daquela companhia, acabou. Um voo dessa magnitude virou um tormento.
Até chegar a Miami, aquela cidade brasileira tropical ao sul dos Estados Unidos, já se pensa nas oito horas e quarenta e cinco minutos da volta. Nas ruas, estamos lá nós, os brasileiros que há décadas mantêm o comércio local ativo. Um funcionário do aeroporto repete a piada que corre o lugar desde sempre: “Agora entendo por que toda vez que vou comprar alguma coisa para os meus filhos já acabou. Vocês, brasileiros, levam tudo”!
Miami está às moscas. Restaurantes vaziaços, lojas fechadas, obras por terminar, uma noite decadente. A cidade de Helio Castroneves e Julio Iglesias foi atropelada pela crise. Mesmo a praia, o hit banhado pelo mar do Caribe, não está para peixe, não.
Só em Miami, os americanos (será que são eles?) não respeitam os pedestres ou a faixa deles. Só em Miami, o check-in externo da American Airlines, feito na mais das vezes por latinos, acua as pessoas e as força a pagar gorjetas – os funcionários da companhia agem como flanelinhas da sua bagagem. Não vai pagar? Pense bem. Você pode descobrir depois que suas malas foram parar em Honolulu.
A crise americana ajuda os brasileiros. Uma câmera de filmar sai a R$ 100; um mp3, a R$ 40; um carrinho de bebê bacaninho, a R$ 200; um sapato descolado para entrar no Londra, a R$ 60; um pinot noir decente da Califórnia, a R$ 35.
Neste sentido nada mudou. As sacolas são a imagem-síntese de Miami. E não estão nas mãos dos americanos. Garantimos o emprego de americanos e cucarachas. Nós e os europeus. Só que estes estão na praia; nós, na Lincoln Road, entre Wallgreens, Ross e Payless Shoes.
Ser ex-crítico de música pré-internet é uma herança maldita. Em dado momento, sento-me à mesa com André Saddy, gerente de marketing e projetos do Canal Brasil. Saddy estava promovendo Loki, o filme sobre a vida do mutante Arnaldo Baptista, que entra em cartaz nesta sexta. Papo vai e continuava indo, segue até que ele diz algo como “Acho que você já escreveu sobre a minha banda”. Emite o nome do grupo rapidamente, meio desconfortável. Eu: “Qual”? Ele, repetindo: “A Pelvs...”. Ai! Passei anos usando a banda independente carioca e o Belle & Sebastian como exemplos a não serem seguidos. Mas de um tempo para cá substituí ambas por Tom Zé. Mando um pano, cortina, tudo rápido, digo um sinto muito para Saddy e ainda prometo ir ao show da Pelvs em julho na Drinkeria Maldita de Copacabana. Desde que Saddy prometa minha integridade física diante de seus colegas.
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O que faz um debilóide padrão em Miami? Assiste a Transformers 2, compra um relógio do 007, mantém sua cor pálida distante da praia ou ignora um festival de cinema brasileiro para o qual é convidado a trabalho? Um dia eu conto aqui essa saga deste personagem, a pedidos dos colegas.
21:01 - 15/06/2009
Cara de marido
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