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Jornal do Brasil - O primeiro jornal brasileiro da internet



País

JB 118 anos: novo modelo, velhas lições

Wilson Figueiredo*, Jornal do Brasil

RIO - O jornalismo terá de ser cada vez mais local. Terá de fazer algo parecido com o radialismo, também cada vez mais local

Antes de qualquer consideração, e sem danificar a ilusão de que tudo isto vale por um salto histórico, não se pode esquecer que o jornalismo existia antes de haver jornal, e nada indica que se tenha tornado supérfluo. O pessoal da internet insiste na morte asfixiada dos jornais pela variedade de formas de jornalismo postas, por seu intermédio, à disposição dos homens. Para se entenderem ou se desentenderem à vontade. A geração da internet, que chega à idade adulta neste início do século 21, está convencida de que veio ao mundo para criar um novo jornalismo e formar uma categoria de jornalistas libertos das limitações de empresas e convenções sobre a própria maneira de escrever. Dá sinais de reconhecer a conveniência de um acordo gramatical, para começo de conversa. É pouco.

O esgotamento do jornalismo no século 20 é balela. A alfabetização aos arrancos já contribuiu para o resgate do analfabeto funcional, que não quer dizer grande coisa mas deu um passo adiante, tanto em direção ao futuro como ao passado. A internet se propôs a operar no mercado das letras com a liberdade de ler e escrever como se fala. Os livros passaram à frente dos jornais e têm a vantagem de não precisarem ser lidos. Basta a contribuição decorativa e fotogênica nas casas que provam a existência de consumo conspícuo. Livro não envelhece se não for lido, ao contrário do jornal que, no dia seguinte, já era. Vem por aí livro para ser ouvido. O perigo passa a ser a entrega de peça de Shakespeare a narradores com modulação para jogo de futebol.

Enquanto isso, o jornalismo debaterá questões acumuladas e a internet terá a seu dispor a geração empenhada em dar o viço do amadorismo ao exercício de uma atividade que fez um longo percurso até chegar ao profissionalismo. Vem por aí um enxame de repórteres e redatores dispostos a viver em tempo integral e dedicação exclusiva o novo jornalismo. Nada de salários, nem de chefes. Redação também não. Seja o que Deus quiser. Samuel Wainer não perdia a oportunidade de lembrar que, depois de sair em jornal, tudo passava à categoria de acontecido. Publicado, vira fato. A contraprova é definitiva: se jornal não deu, não aconteceu. O suposto fato não passa de boato.

É inevitável que o novo jornalismo dê atenção a leitores que, sem fôlego para a leitura silenciosa, tropeçam nas palavras e ficam para trás. Não se pode exigir do jornalismo que abra mão do sentido e obrigue o leitor a esperá-lo no próximo pedágio. O que o jornalismo da internet quer é convencer o leitor a apartear os textos. O analfabeto funcional é caso à parte, e pode ser resolvido com a sintaxe de carta enigmática, onde a frase amplia a clareza visual com figuras (de aves, flores, objetos) que completam o sentido das palavras. Antes de haver jornal, já havia jornalismo por outros meios. Prevalecia a versão oral. A liberdade de lançar boatos precedeu a liberdade de imprensa. Antes do repórter, o boateiro assinou ponto. No auge das monarquias, a fofoca de punhos de renda operava em faixa de ondas curtas porque não havia outra. Nem se cogitava de rádio e televisão.

A crer no que se vê e lê, incumbiu-se a internet de preparar jornalistas de novo tipo para o novo tempo e o novo leitor. Ainda não têm rosto esse leitor nem o jornalista que, ao contrário dos velhos repórteres, trabalha sem sair de casa. Jornalismo sem jornal e sem Redação é a proposta para essa nova atividade sem definição clara. Jornal, jornalismo e jornalista são inseparáveis.

Os ativistas da internet que operam informações, reais ou fictícias, são jornalistas por um novo conceito profissional. O leitor, se é que assim pode ser tratado, sem o ofender, o frequentador de blogs e sites, foi agraciado com a liberdade de interagir com os jornalistas de sua preferência, e acrescentar num palpite o que acha sobre o que o outro achou primeiro. A opção do freelancer se limita a concordar ou discordar. O jornalismo internético ainda não passou de painel de opiniões geralmente inconclusivas. A opinião emitida por alguém pela manhã pode chegar ao fim da tarde apoiada por outro internauta e, logo depois, ser contestada por um terceiro, até que outro assunto entre no espaço cibernético sem pedir licença.

Pela metodologia do jornalismo eletrônico, a notícia é apenas a premissa e os comentários, conclusões temporárias. Este jornalismo, circular e sem fim, está em fase de testes. Opina sobre tudo e, não achando assunto onde pendurar seu ponto de vista, farta-se de obviedades. Talvez valessem como epígrafe para esse jornalismo as palavras que, no seu tempo de observador político dos Diários Associados, Mozart Monteiro escreveu num momento em que o Brasil não saia nem entrava de vez numa crise: “se o Brasil continuar a se comportar deste jeito, deixarei de observá-lo”. Se esse papo-furado da internet não trocar o palpite aleatório pelo raciocínio completo, o leitor deixará de lê-lo.

*Jornalista

11:15 - 18/04/2009










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