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Cultura

Escritores respondem: o que os faria parar de escrever?

Alvaro Costa e Silva e Alexandre Werneck, JB Online

RIO - A notícia tentou cair como foguete no mundo literário: no final da semana passada: a mega-agente espanhola Carmen Balcells, responsável por vários nomes importantes da literatura latino-americana, disse ao jornal chileno La tercera que seu cliente mais importante – segundo ela responsável por 36% de sua receita – Gabriel García Márquez, “provavelmente não irá escrever nunca mais”. Na pressa de verificar a notícia, o jornal procurou o britânico Gerald Martin, biógrafo de Gabo, que confirmou a disposição. Poucos dias depois, para surpresa de muitos, o próprio autor de Cem anos de solidão, que tem nas costas uma carreira de mais de 30 títulos – entre romances, novelas e compilações de textos jornalísticos e cinematográficos – e ganhou o Nobel de Literatura em 1982, foi taxativo em declaração ao diário colombiano El Tiempo: “Não só não é certa [a informação de que pararia], como a única coisa certa é que eu não faço outra coisa a não ser escrever”. O escritor, que tem 82 anos e estaria justamente escrevendo um novo romance, a ser lançado ano que vem, por pouco, então, não se juntou ao português António Lobo Antunes – uma das estrelas da próxima Flip – que anunciou, em fevereiro, em entrevista ao Diário de Notícias, de Lisboa, que depois de lançar a novela Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?, em outubro, em Portugal – no Brasil, estamos com atraso de dois livros dele, o que não será sanado ainda em Paraty – começa a escrever aquele que seria seu derradeiro livro. Depois disso, aposentadoria.

Claro, sempre há a possibilidade de, a ficar prenhe de maneira irresistível, Lobo Antunes dê à luz um novo rebento de letras. Mas a palavra do autor de Ontem não te vi em Babilônia costuma ser de honra e, somada ao susto dado (sem querer) por Gabo, fez com que o Ideias fosse atrás das possíveis motivações de um gesto tão radical e perguntasse a vários escritores: o que o faria parar?

Responderam ao chamado, das mais variadas formas, nomes do quilate de Carlos Heitor Cony, João Ubaldo Ribeiro, Moacyr Scliar, Sérgio Sant'Anna, Marçal Aquino, César Aira, Flávio Moreira da Costa, Bernardo Carvalho, Luiz Alfredo e Livia Garcia-Roza, Márcia Denser, Joca Reiners Terron, Marcelino Freire e Cecilia Giannetti. Na fala de cada um, a resistência, a impressão de que, afinal, escritor é um profissional que se aposenta e volta ao trabalho a cada livro. E que, no fundo, a pergunta é a diametralmente oposta: o que o faz (re)começar?

Cony é taxativo. Faz anúncio oficial:

– Eu parei. Não tenho mais a pretensão de escrever meu Guerra e paz, uma obra definitiva. Saber a hora de pendurar as chuteiras é primordial.

A justificativa de Carlos Heitor Cony para não escrever mais o leva a citar Thomas Mann, que dizia de si mesmo que devia ter parado de escrever quando pôs o ponto final em Doutor Fausto, em 1947.

– Depois disso, ele não publicou nada mais de importante. É preciso saber o ponto certo de parar – diz o autor de 17 romances, fora os livros de crônicas e adaptações, e dono de quatro Jabutis.

– Eu dependeria de a Providência Divina me dizer que não tenho mais nada a dizer – diz João Ubaldo Ribeiro, mais de 15 livros, traduzidos em 16 países, na outra ponta da disposição de Cony. – Mas isso ainda não aconteceu e não faço ideia de como eu notaria se fosse o caso.

No meio do processo de escrita de um novo romance – que ele diz estar no final, mas que “quanto mais anda, mais lento fica” – Ubaldo revê a carreira para pensar suas motivações.

– Quando eu era jovem e pouco vivido, tive a impressão de que a fonte secaria logo. Concordo totalmente com quem diz que o escritor escreve o mesmo livro toda vida, mas acho que esse mesmo livro vai se enriquecendo, com a vivência – diz ele, aproveitando para citar dois outros motivos que o fariam parar: censura ou ter um refúgio inespugnável em sua Itaparica natal aonde levaria os amigos. O sonho seria completado com um jatinho para vir para o Rio sempre que pudesse. – Como isso nunca vai acontecer, sigo escrevendo.

Igualmente segue Sérgio Sant'Anna, autor de mais de 15 livros, a maioria de caráter experimental. Às voltas com a produção de um romance – que se passa em Praga, terra de Kafka (que, mesmo sem quase publicar, continuou escrevendo até o fim da vida) – ele acha difícil responder à pergunta:

– No momento estou totalmente envolvido, embora escreva apenas um pouco cada dia. Também tenho outros trabalhos que me interessam, com anotações e rascunhos adiantados – conta ele. – Porém, em contradição com tudo isso, o silêncio me seduz, e sempre me seduziu. Sou leitor de E. M. Cioran, meu autor de “ajuto-ajuda”, que sempre fez pouco caso das ambições literárias, como aliás de todo o resto, e considera que o ser humano deve sair desta para nenhuma muito discretamente.

A fortuna

Amigo de Sant'Anna, de quem traduziu e negociou a edição do romance Um crime delicado em seu país, o argentino César Aira, ao contrário, considera muito fácil responder à questão, usando de provocação, inteligência e ironia habituais:

– Se eu fosse muito rico, deixaria de escrever. Isso eu sei de modo visceral, sem necessidade de buscar uma explicação, e faz compreender que minha motivação original para escrever foi compensar simbolicamente minha falta de riqueza. Ademais, meu gênero favorito é o romance, que é um produto do capitalismo. De modo que tudo se explica perfeitamente.

Autor de enorme obra, com mais de 50 romances, embora quase todos de pequena extensão, Aira lamenta a decisão daqueles que param. Para o argentino, o verdadeiro escritor deve ter a generosidade de continuar escrevendo, mesmo quando sua mente começa a falhar, e ele não consegue mais escrever tão bem como antes. Por pensar assim, Aira fez críticas a Juan Rulfo, glória das letras mexicanas considerada intocável, como exemplo de autor que escreve poucos livros, que dão certo, e depois vive do prestígio deles.

É justamente Rulfo – que, a rigor, publicou apenas a coletânea de contos Chão em chamas e o romance Pedro Páramo, que juntos alcançam cerca de 300 páginas – um dos personagens de que se vale o barcelonês Enrique Vila-Matas para armar o romance-ensaio Bartleby e companhia, cujo tema é a paralisia literária. Lembra Vila-Matas que, quando perguntavam a Rulfo porque ele não escrevia mais, a resposta costumava ser: “É que morreu meu tio Celerino, que era quem me contava as histórias”.

Bartlebys

Na galeria de bartlebys selecionada por Vila-Matas tendo por inspiração o escrivão de Herman Melville que, instado a tomar qualquer providência, sempre responde com a frase “preferiria não o fazer”, não poderia faltar o provavelmente mais célebre deles: J. D. Salinger, o autor de O apanhador no campo de centeio e mais três livros, que desde 1965 mantém-se em total reclusão e silêncio quando não tenta acertar um soco no sujeito que teima em fotografá-lo. Há especulações de que Salinger jamais deixou de escrever e de que não há mais espaço em suas gavetas. Sendo verdade, ele, ainda em vida, antecipou a atual moda de se publicar postumamente qualquer coisa – um bilhete para a empregada, a lista de roupa suja para a lavanderia – que leve a assinatura ou não de um escritor consagrado.

O próprio Vila-Matas, depois da publicação e do sucesso alcançado por Bartleby e companhia, temeu ter contraído a síndrome do não que ele diagnosticara. Mas, esperto, logo publicou O mal de Montano, que trata da obsessão pela literatura e pelo literário e da compulsão por escrever livros. Se algum brasileiro tivesse tido essa grande ideia, seria correto, mas talvez de gosto duvidoso batizar o romance de O mal de Josué Montello.

Questão de vida ou morte

A maioria dos autores, entretanto, não vê muita opção: escrever (ou não) é uma questão que fala às vísceras:

– O que me faria parar de escrever? O óbito – diz Moacy Scliar, que assina mais de 70 livros, entre crônicas, contos, ensaios, romances e infanto-juvenis.

– A única coisa que faz um escritor parar de escrever é uma incapacidade física, mesmo assim se for muito grave, ou uma mental. Um [Mal de] Alzheimer, por exemplo, me faria parar de escrever – diz Luiz Alfredo Garcia-Roza, que estreou na ficção aos 60 anos e, já com seu primeiro romance, O silêncio da chuva, recebeu os prêmios Nestlé e Jabuti.

– Uma doença incapacitadora– concorda a mulher de Garcia-Roza, Livia, autora de mais de 10 livros.

– Além da impossibilidade física ou mental, acho que só a desilusão. Não acredito em nenhum deus, em nenhuma religião. – diz Bernardo Carvalho, autor de 10 livros – Acredito na literatura. É uma espécie de fé. E rezo todos os dias para não perdê-la.

– Só morrendo – diz Marcia Denser, autora publicada nos Estados Unidos, Alemanha, Holanda, Suíça, Bulgária e Espanha.

Flávio Moreira da Costa, quatro décadas dedicadas à literatura, com mais de 15 livros publicados e um número similar de coletâneas organizadas, começa seu comentário sendo irônico:

– Apenas três possibilidades me fariam parar: primeiro, um desencanto com tudo, principalmente, depois de ganhar o Nobel, com as exigências da própia fama.

Em seguida, ele retoma a ligação de vida e morte dos colegas com a escrita:

– Depois, uma doença grave. E por último, uma bala perdida, embora neste caso, alguma obra psicografada minha poderia surgir por aí (nunca se sabe).

A primeira representante da ala da nova geração no grupo, a carioca Cecilia Giannetti, que só tem um livro publicado - Lugares que não conheço, pessoas que nunca vi – mas já é veterana no meio literário, com sua participação em antologias e o sucesso de seu blog, também segue o caminho do sangue:

– Se a mente não desse mais conta dessa tarefa, nem da memória; se cessasse o seu funcionamento normal por algum motivo de saúde.

Marçal Aquino, que assina mais de dez livros de ficção, adultos e juvenis, e sete roteiros de cinema, retoma o raciocínio de Cony de que é o sentido da obra que determina sua continuidade:

– Acho que todo escritor mentalmente sadio já pensou em parar de escrever. Mais de uma vez. Alguns até param mesmo. Pessoalmente, eu pararia de escrever no dia em que contar uma boa história deixasse de me dar prazer e alegria.

Já Marcelino Freire, cinco livros, prêmio Jabuti de 2006 com seu Contos negreiros, iconoclasta, assume um tom ambíguo:

– Há sempre um momento em que eu penso: o que eu estou fazendo da minha vida com essa maldita literatura me aporrinhando? Vem, de quando em quando, um desânimo. Quando isso aumentar, digamos, quando o cansaço for grande, quando eu não puder mais carregar esse fardo literário, aí eu desisto. E, mesmo chafurdando nesta maldição, é bom salientar: eu escrevo com prazer. Escrevo porque gosto e, oh, quando a literatura não me der mais prazer, eu paro.

Profissionais

Joca Reiners Terron, poeta e prosador, autor de seis livros, desloca a fala para um lado que acomete também os colegas Ubaldo e Cony, a escrita profissional:

– Meu problema atual, já que estou escrevendo dois romances de encomenda, é justamente não parar de escrever por conta de outras obrigações cotidianas, como os- trabalhos-que-pagam-as-contas. Qualquer coisinha me faz parar de escrever. E retomar de onde parei é uma dureza. A mesma resposta se aplica a uma parada definitiva: qualquer coisinha me faria parar de escrever.

A resposta de Terron conduz para a aposentadoria ponto a ponto e à pergunta: o que faz um escritor começar e recomeçar, ou seja, voltar a escrever depois de colocar o ponto final em cada escrito?

– O que me fez começar a escrever e a continuar a fazê-lo é uma doença mental não-degenerativa do tipo produtiva - brinca Cecilia.

Produzir sempre, como uma primeira natureza, um modo de vida, nas palavras de La Denser:

– Escrever para mim é mais importante que a vida.

Ou como uma vingança, nas de Marcelino. Daí o fato de que, uma vez iniciados, nunca aposentados.

– É o prazer da escrita que me faz escrever. Sou movido idem por uma vingança. Eu escrevo para me vingar. E gosto de ficar matutando nesta vingança, encontrando as melhores palavras para enfrentar a guerra – define Marcelino. – Daí o barato do jogo, o divertido dele: encontrar a forma-estilo que darei a essa vingança-grito.

Um jogo que é relacionado à maneira de ver a existência, como lembra Scliar, citando a célebre frase de Kafka: “trocar a vida por palavras”.

– É uma maneira, porém, que o próprio Kafka considerava absurda – diz. – Absurda, porém irresistível: escrever é paixão, e enquanto podem os escritores escrevem. Diferentemente dos jogadores de futebol, podem fazê-lo até fases avançadas da vida. Não há aposentadoria para escritores, e mesmo que houvesse, eles a ela não recorreriam. Lobo Antunes vai parar de escrever? Não acredito. Ele até pode dizer isso, mas de repente, estará rabiscando algumas linhas. Sei disso porque, aos 24 anos, frustrado com o amadorismo de meu primeiro livro, Histórias de um médico em formação, quis deixar a literatura. Consegui. Por alguns minutos.

16:38 - 10/04/2009









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