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Sociedade Aberta

Pedras no caminho da recuperação

Editorial , Jornal do Brasil

RIO - A presença de entorpecentes como pano de fundo no cenário da violência urbana carioca cresceu assustadoramente nos últimos anos. A prisão do morador de rua Augusto César de Souza, de 27 anos, que matou a estagiária Karla Leal dos Reis, 25, na noite de domingo, no Estácio, trouxe à tona o nome do fantasma atual: o crack. Segundo a polícia, o assassino estava sob efeito das pedras alucinógenas quando disparou o tiro fatal na vítima que se recusou a entregar-lhe a mochila. A pergunta que fica é se o Estado está preparado para prover a necessária ajuda à recuperação e ressocialização dos usuários dessa droga devastadora. A resposta parece óbvia.

Dados oficiais indicam que a legião de viciados em crack nas grandes metrópoles brasileiras aumenta em progressão geométrica. O último levantamento do Instituto de Segurança Pública sobre o assunto constatou que, no primeiro semestre do ano passado, as apreensões triplicaram na capital fluminense, na comparação com os primeiros seis meses de 2007. E de acordo com números de 2008 da Polícia Federal, 40% de toda a cocaína apreendida no estado já se encontrava na forma do subproduto – um total de 250 quilos divididos em 50 mil pedras de crack.

Em reportagem publicada ontem pelo JB, o delegado Ronaldo de Oliveira, diretor do Departamento de Polícia da Capital, confirmou a presença da mistura explosiva entre criminosos e a droga, informando que a maioria dos crimes no Rio é cometida por jovens de 17 a 25 anos, e que desses, 80% estão drogados. Ao mesmo tempo, o secretário municipal de Assistência Social, Fernando William, relatou que 80% dos dependentes que chegam aos abrigos públicos são vítimas de crack.

O secretário, aliás, bem definiu a entrada do crack no Rio como “uma tragédia”. Segundo ele, há cerca de 400 crianças vivendo nas ruas da cidade, algumas já entregues ao vício aos 8 anos. Nas ruas da Zona Sul, o transeunte mais atento sem dúvida já percebeu os efeitos da droga entre mendigos e menores infratores. A droga tira o apetite e causa dependência quase instantânea. Em vez de comer, os adictos tentam apenas conseguir mais tóxicos. Ficam estirados no chão, como se estivessem em coma. Sem atenção da família e da sociedade, o exército de párias acaba perecendo em total indigência, tornando-se apenas mais alguns número nas estatísticas.

Os que têm mais sorte buscam apoio do Estado. No Centro de Pesquisa e Atenção ao Uso de Drogas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, os primeiros dependentes de crack começaram a aparecer em 2006. Atualmente, um em cada quatro pacientes com até 20 anos chega viciado nas pedras. O Nepad é, de fato, um dos poucos pontos de apoio gratuitos com o qual os adictos podem contar no Rio de Janeiro. A carência de clínicas públicas de desintoxicação e reabilitação é patente.

As evidências confirmam a necessidade, em primeiro lugar, de se acordar para a constatação: é coisa do passado a convicção de que o crack não atingiria o Rio em escala considerável. Depois disso, convém cobrar políticas públicas mais intensivas para o tratamento de dependentes. Os gastos não são tão elevados, sobretudo quando comparados aos benefícios que a remoção dessa chaga trará à sociedade.

21:37 - 01/04/2009










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