Hilton Mattos, Jornal do Brasil
RIO DE JANEIRO - No dia 23 de abril de 2000, um domingo de Páscoa, o Flamengo levou um verdadeiro chocolate do Vasco: 5 a 1 na final da Taça Guanabara. O gosto amargo da derrota chocou Reinaldo. Envergonhado, fugiu da cobrança dos torcedores rubro-negros e da gozação adversária. Saía de casa só para treinar. Tanta frustração lhe causou uma certeza: vice, nuca mais.
Na contramão de Cuca, comandante alvinegro nas derrotas estaduais de 2007/08, a fama que persegue o jogador é de predestinado. Depois do indigesto chocolate, o atacante só saboreou títulos. E mais: a exemplo do domingo, quando abriu a contagem contra o Resende (3 a 0), na decisão do primeiro turno do Campeonato Carioca, costuma deixar sua marca em finais.
– Foi meu pior momento profissional. Perder de 5 a 1 é vergonhoso, não botava a cara na rua. Depois disso só quis saber de vencer. Ser vice é muito ruim - lembra o jogador, que antes havia perdido também a final da Taça Rio de 1999, uma partida menos sofrida, já que o Flamengo tinha vaga garantida na decisão do estadual.
Supersticiosos, os torcedores do Botafogo devem achar que o atacante é a estrela que faltava para o time finalmente ser campeão estadual. As perdas seguidas para o Flamengo nos dois últimos anos foram para a conta de Cuca, ironizado por 75 mil alvinegros no Maracanã como o pé-frio das decisões.
Reinaldo não entrou no mérito do treinador adversário. Se valer a escrita, a troca foi acertada. Os títulos que faltam a Cuca são extensos no currículo do atacante.
– Eu me considero um predestinado. Aos 29 anos, largar uma vida financeira melhor no Japão (defendeu o JEF United) e em dois meses ser campeão é coisa para quem é predestinado, sim. Graças a Deus, ganhei muitos títulos no Brasil.
A lista vai de títulos domésticos a internacionais. Pelo Flamengo, clube que o projetou em 1999, foi tricampeão carioca (99/00/01), da Copa Mercosul (99) e da Copa dos Campeões (01). Em 2002, sagrou-se campeão paulista pelo São Paulo, repetindo a conquista com o Santos, em 2006.
Numa conversa ao pé do ouvido com o zagueiro e capitão Juninho, num canto do vestiário, a frustração diante de um vice-campeonato saiu do papo informal para a tradicional corrente. Juninho, em sua segunda passagem pelo Glorioso, tinha a noção exata do impacto da derrota no restante da temporada.
– O Juninho falou que se a gente perdesse seria difícil administrar. Psicologicamente, comprometeria o nosso ano. Ninguém gosta de ser vice. Os jogadores do Resende disseram que curtiram o segundo lugar, mas duvido se no vestiário não estavam tristes.
Reinaldo entendeu perfeitamente o recado. Mesmo não sendo cria de General Severiano, aproveitou a camisa 7 de Garrincha para não alimentar a sofrida saga alvinegra nos últimos anos. Desperdiçou duas chances no começo da partida, mas foi mortal quando a defesa do Resende falhou a sua frente, aos 34 minutos do primeiro tempo.
– No Japão, financeiramente, era melhor. Mas não brigava por títulos. Voltei por isso, para viver o Maracanã lotado, o grito de campeão.
Romário, a inspiração
Quando se considera um predestinado, Reinaldo viaja no tempo. Para há exatos dez anos, no Flamengo, quando Carlinhos o puxou para as finais do Carioca.
– Ali eu vi que era uma pessoa de sorte. Virar jogador de futebol não é fácil. No Barra Clube (por onde passou nas divisões de base) e no Flamengo tinha gente melhor do que eu e eu vinguei – reconhece.
Estrela ele teve mesmo quando Carlinhos optou por ele, e não por Caio, no ataque ajudando Romário e Leandro Machado. Era, também, a última temporada do Baixinho na Gávea. Ao lado do ídolo, aprendeu a encurtar o caminho para o gol. Foi assim que nasceu o primeiro da vitória sobre o Resende.
– Romário me dizia: “Na área, não passa a bola nem para a tua mãe. Acredite sempre”. Foi o que eu fiz. Acreditei, a bola sobrou e chutei – diz Reinaldo.
Mesmo com as dicas, não virou um egoísta. Gosta, sim, de dar assistência, apesar da cobrança por ser a estrela do time.
– Cobrança sempre vai existir. No Japão, vinha jogando no meio. Falei com o Ney Franco que precisava me adaptar. Consagrei muito atacante dando assistência. Vinha fazendo isso com o Victor Simões, que infelizmente se machucou e ficou fora.
22:13 - 02/03/2009