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Cultura

A turma do Fininho

Mario Marques, JB Online

RIO - A rua de terra batida, rotineiramente abatida por pesados e desconjuntados ônibus em pedaços, está um silêncio só. Aos poucos, na casa de muro laranja alto da esquina, alguns cabeludos e o seu anfitrião, alcunhado Fininho, tomam o lugar animadíssimos. Cada um carrega LPs recém-comprados em algum sebo, alguma importadora ou trazidos por um comissário de bordo esperto. Estamos em 1986 no bairro Esplanada, vizinho da Presidente Dutra, em Nova Iguaçu. Os caras estão entocados num quarto com ar-condicionado defronte a um som potente, um Technics com amplificador e caixas enormes. É uma tarde de churrasco para audição dos últimos lançamentos de IQ, Asia Minor e Synopsis. Aquela turma, como boa parte dos que buscavam música sofisticada, além das rádios, era aficcionada por rock progressivo. Quanto mais desconhecido melhor. Era a minha turma.

Antes de, em 1980, juntar-me a esses loucos por aquela fusão de música erudita, rock e jazz, em seu cada vez mais moribundo mercado, eu levava pelas ruas do subúrbio um radinho de pilha, que me oferecia Stevie Wonder, Elis Regina, Amelinha, Fagner, Daryl Hall & John Oates, Kleiton e Kledir, Caetano, Djavan – seria capaz de listar as 10 Mais da Mundi Jovem. Mas acabei abalroado pelo progressivo, o inimigo do punk e da “atitude”. Estávamos mais preocupados com os solos, os arranjos, as quebras de convenções, as mudanças de clima, as texturas. Não importava se o cidadão cuspia na cara do sujeito da plateia. Também cabia aqui o heavy metal, o mais rebuscado também: o Iron Maiden, o Ozzy, o Sabbath com Dio. Todas aquelas informações e aquela energia corriam o quarto do Fininho. Até o meio dos anos 90 eram esses sons que me moviam. A ponto de arrastar minha então namorada a Metz, distrito industrial da França, para conhecer a Musea, a maior gravadora de rock progressivo à época. Deixei o lugar com 85 CDs, decerto o equivalente a algumas noites a mais em Paris. Num confronto estético, 15 dias depois encontraria o líder da Plebe Rude, Phillipe Seabra, em Nova York, quando ele vaticinaria: “Você só entra aqui em casa se deixar esses progressivos no hotel e me trouxer um disco do Clash!”.

Num verão de 1987, enquanto a Zona Sul buscava a nova banda de rock carioca da esquina, eu e a turma do Fininho nos estatelávamos no Teatro Ipanema com o show do grupo mineiro Sagrado Coração da Terra, o primeiro a que assisti. Aos 17 anos, aquele violino elétrico que remetia a uma grande orquestra acabaria por inundar minha audição por meses. Não sosseguei enquanto não sentei-me à mesa com Marcus Viana – que depois se tornaria um grande amigo – para entender como ele construía aquela música.

Aos 19, barrado em todos os estágios em jornal possíveis, criei A Clava do Som, um tablóide mensal dedicado ao rock progressivo – e outras ondas. Mundo estranho aquele. Meus anunciantes eram selos do Japão, da Itália, dos Estados Unidos, da Inglaterra e da França. Sabendo do público cativo do gênero aqui, essas gravadoras achavam um grande negócio ter seus discos veiculados num jornal que até então não tinha similar no Brasil. Sem internet, com um computador e duas Olivetti Lettera, passamos quase quatro anos usufruindo daquele generoso mercado. Muitas das edições esgotaram nas bancas. Até que a internet chegou, o mundo caiu e se tornou o enigma que vivemos até hoje.

O rock progressivo esgotou-se esteticamente, o Nirvana comeu todos os espaços em rádios e na TV, o Chico Buarque bateu à minha porta e me distanciei daquele saudosíssimo passado. Embora tenhamos agora uma infinidade de opções para ouvir música, continuo ligado às canções de outrora. As canções, progressivas, MPBísticas, pops, que eram criadas a serviço da naturalidade, perderam sua pureza, seu frescor, sua vivacidade. Nunca mais quebrarei o para-brisa do meu amigo ao escutar uma canção. A música que ouvimos atualmente é enfadonha, risível, inafiançável. Chico, Caetano, Gil, Peter Gabriel, Jamie Cullum, esses caras que estão sempre em busca da beleza, parecem aliens no panorama mundial. Estão à margem em nome de uma produção indie medíocre, de experimentos fáceis, de Curumins e Mallu Magalhães, de Little Joys e Gossips. Essa era negra não vai ganhar luz.

Não cabem aqui saudosismos baratos, nem atestados de envelhecimento. Na edição de domingo do Caderno B, passando os olhos nos shows internacionais que vão passar por aqui, dos 11 listados sete vêm dos anos 80 para trás (Iron Maiden, Julio Iglesias, Kraftwerk, A-Ha, Kiss, B-52's e Heaven & Hell, o Black Sabbath com Dio).

E o Radiohead, o nome mais esperado no Brasil, hoje em dia faz... rock progressivo disfarçado no que a crítica, que não sabe como tachá-lo, classifica de experimental. Estamos mesmo numa entressafra. Não tem essa de que hoje não precisamos de artistas de arena. Que um Circo Voador basta. Não é. Caminhamos a passos largos para, no futuro, sonharmos com a música do passado, a boa. Seja progressivo, metal, jazz, rap, pop, blues, MPB, reggae e o escambau. Mas a boa.

Seremos a turma do Fininho em milhões pedindo para que o passado volte. E nos livre dessa pasmaceira.

*

O primeiro pedido com os olhos de Beatriz foi: “Me tira daqui”. Não por causa da maternidade, mas por causa do bloco que insistentemente fazia uma algazarra sem-fim nas ruas de Laranjeiras. Espero que o trauma se consolide no futuro.

21:30 - 02/03/2009










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