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Sociedade Aberta

Teologia e libertação: teologia pública

Leonardo Boff *, Jornal do Brasil

RIO - Desde os seus primórdios no fim dos anos 60 do século passado, este tipo de teologia nasceu no esforço de articular o discurso da fé com o discurso da sociedade na perspectiva dos oprimidos. Sua marca registrada foi e continua sendo “opção pelos pobres contra a pobreza”. A perspectiva era e é global, de sorte que já nos anos 70 se organizaram os primeiros fóruns mundiais da Teologia da Libertação, em Chicago, no México e no Brasil e continuaram até que a cegueira de setores poderosos do Vaticano os tivesse proibido. Como são por natureza ecumênicos, tais fóruns continuaram a acontecer regionalmente.

Com o surgimento dos fóruns sociais mundiais a partir de 2001 encontrou-se o espaço público para a continuação destes encontros globais, primeiro em Porto Alegre em 2005, o segundo em Nairóbi no Quênia em 2007 e agora, este ano, em Belém dos dias 21 a 25 de janeiro.

Perfilou-se melhor o estilo da reflexão. Ao invés de se falar simplesmente de teologia da libertação e assim ressuscitar as discussões do passado, preferiu-se falar em teologia e libertação. O sentido é confrontar a fé refletida e crítica (teologia) com os temas da opressão que possuem os mais diversificados rostos desde as crianças consumidas como carvão na máquina produtivista até os massacres da Faixa de Gaza. O discurso não é intraeclesiástico e em favor ou contra as Igrejas, mas público, voltado para a sociedade mundial. A questão central não é discutir o futuro do cristianismo, mas que contribuição este pode dar para os verdadeiros problemas humanos, que são a perpetuação da paixão dos pobres, o aquecimento global com suas eventuais consequências perversas e a insustentabilidade do planeta.

O cristianianismo não pode ser um superego castrador de temas importantes da agenda mundial, mas deve ser uma fonte de inspiração e de ousadia para questionar o paradigma civilizatório dominante que faz de todos, ricos e pobres, oprimidos, afogados no consumismo de bens materiais, sem sentido de solidariedade e de cuidado para com o patrimônio comum que é o planeta Terra. Mas principalmente pode mostrar-se fecundo no compromisso, junto com os movimentos sociais – os verdadeiros novos atores – no combate ao sistema do capital produtor de grandes injustiças, na luta pela terra, negada às grandes maiorias e na busca de alternativas de produção e de vida. Não é sem razão que é unicamente esse tipo de cristianismo que produz mártires como a irmã Doroty, o padre Josimo e tantos outros da América Latina. Das burocracias eclesiásticas nunca saem místicos, santos e mártires mas medíocres reprodutores do establisment religioso.

Em todos estes fóruns de Teologia e Libertação compareceram mais de mil pessoas vindas de todos os continentes, também da Europa e dos EUA, o que mostra a vitalidade deste tipo de pensamento. A mesa do FSM sobre Teologia da Libertação com o presidente paraguaio F. Lugo, Frei Betto e eu mesmo entre outros, foi muito concorrida. As autoridades doutrinárias do Vaticano se iludem quando imaginam que com sua disciplina liquidaram a Teologia da Libertação. Ela nasce do grito da Terra e dos pobres. Enquanto estes continuarem a gritar, haverá todas as razões de se atuar de forma libertadora e de se elaborar a partir daí uma teologia. De certa forma, suas intuições se tornaram patrimônio comum do cristianismo, salvando-o do cinismo.

O tema deste ano em Belém foi Água, terra e ecologia para um outro mundo possível. Partiu-se da conjunção das várias crises, todas elas ligadas à falta de sustentabilidade do sistema Terra. O tema da ecologia se impunha. Não como técnica de gerenciamento de recursos escassos mas como novo paradigma de relação para com a Terra, não mais como mero meio de produção mas como ser vivo, gerador de toda a vida. Como disse um discípulo de E. Morin, Patrick Viveret, biólogo e economista, em sua palestra 'Como fazer bom uso do fim de um mundo'. Agora se abre espaço para um outro mundo não só possível mas necessário. O cristianismo é chamado a trazer a sua contribuição a partir de seu capital de veneração, de respeito e de amor.

* teólogo

22:19 - 01/03/2009










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