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Sociedade Aberta

Um Carnaval quase igual ao que passou

Editorial , Jornal do Brasil

RIO - No primeiro Carnaval sob influência da Lei Seca, o comportamento do motorista brasileiro parece não ter se modificado. A quantidade de mortes nas estradas federais este ano foi praticamente a mesma registrada no feriado de 2008. De acordo com a Polícia Rodoviária Federal, 127 pessoas morreram no trânsito entre os dias 20 e 25 do mês passado, diante dos 128 óbitos verificados nos cinco dias pesquisados no ano anterior. Ao todo, houve 2.865 acidentes (aumento de 20%) e 1.784 feridos (21% mais que no ano passado). Talvez o único impacto positivo da Lei 11.705 nas rodovias seja percebido quando se observa a fatalidade das ocorrências. Em 2008, morreu uma pessoa em cada 18,7 desastres. Este ano, foram necessários 22,5 acidentes para produzir uma morte. Em se tratando de vidas humanas, tais cifras não merecem celebração. Mas uma profunda reflexão sobre os rumos de nosso trânsito assassino.

O Brasil gasta por ano R$ 28 bilhões com acidentes de trânsito, segundo cálculos apresentados em 2007 a partir de dois estudos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Os acidentes urbanos consomem anualmente R$ 6 bilhões das três esferas de governo (União, estados e municípios), enquanto os desastres nas estradas custam aos cofres públicos R$ 22 bilhões anuais. Os cálculos incluem desde despesas com atendimento hospitalar e remoção à perda de cargas e danos materiais dos veículos. Portanto, além da questão do luto e da dor das famílias, é fato que o trânsito se transformou num sério problema de finanças públicas.

Igualmente, a saúde pública – já escassa em leitos e profissionais – se vê ainda mais estrangulada diante da sobrecarga advinda das estradas. Recente estudo, conduzido pela Secretaria de Saúde de São José dos Campos (SP) e pela Universidade de São Paulo, constatou, ao pesquisar durante seis meses, um grande hospital de emergência, que os acidentes de transporte foram a principal causa de hospitalização, respondendo por 32,8% das ocorrências e por 41,2% dos gastos (o que equivale a 320 internações e custos de quase R$ 200 mil apenas naquele centro de saúde, tido como referência no atendimento a vítimas de trauma).

Por mais que se deva cobrar das autoridades investimentos em campanhas educativas (que surgem anualmente na mídia, mas ainda parecem pouco eficazes), fiscalização dos condutores de veículos (são heroicos os esforços da Polícia Rodoviária para verificar o cumprimento da Lei Seca) e manutenção das vias públicas (em geral, precária Brasil afora), o foco precisa ser ampliado. A questão da segurança no trânsito deve ser encarada também como uma garantia individual – portanto, parte integrante da formação dos indivíduos. Mais uma vez, a conscientização se torna palavra-chave para a mudança do quadro que se apresenta.

Além das políticas públicas, há de se ter uma educação muito particular dos novos e antigos motoristas quanto às formas de prevenção dos acidentes e redução de seus efeitos – e, claro, fazer valer a obediência à lei de tolerância zero ao álcool nas ruas e estradas. A responsabilidade sobre o ir-e-vir seguro tem de partir de cada cidadão. Só assim o país pavimentará seu caminho rumo a um trânsito mais humano e terá menos mortes a lamentar nos próximos feriados.

22:18 - 01/03/2009










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