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Cultura

Teatro: Direção ousa pouco em 'O caminho para Meca'

Macksen Luiz, Jornal do Brasil

RIO - A dramaturgia naturalista do sul-africano Athol Fugard é marcada por questões sobre a intolerância racial em seu país, de onde retira seus personagens, ora como algozes, ora como vítimas da política do apartheid. São instantâneos sobre injustiças e marginalidade, vidas perdidas diante de um quadro social que imobiliza e segrega. Em O caminho para Meca, em cartaz no Teatro 3 do CCBB, Fugard se mantém fiel a esta temática, ainda que se desvie um tanto deste eixo, concentrando-se em personagem que vive a dualidade de agente passiva de sua própria existência.

Explosão de sentimentos

Helen Martins, uma escultora de formas intrigantes, que começou a criar depois dos 50 anos e após a morte do marido, foi até então, ou pelo menos tentou viver como tal, uma afrikaner. Seguindo os preceitos religiosos, obediente ao marido, mas insatisfeita com a sua condição, rompe, pelo menos em parte, com esse mundo, ao confinar-se em sua casa – produzindo obra escultória, afastando-se dos cultos da igreja, entregando-se à compulsão criadora. Vivendo na África do Sul profunda, apartada do vilarejo que tolera sua excentricidade com pedradas e abandono, Helen se vê diante da velhice e da solidão, perdendo a capacidade de reinventar-se com sua arte e manter a sua integridade existencial.

Nesta figura real (viveu de 1897 a 1976, ano em que se suicidou), o autor sintetiza a noite em que toda essa diversidade de sentimentos explode. É quando Helen recebe a visita de uma jovem amiga e do pastor local, que vem em busca da sua assinatura para interná-la em um asilo. A decisão, ainda que pareça ser o plot central da peça, serve de pretexto para que se contraponham as contradições de um regime e se pondere sobre a liberdade da criação e o declínio das possibilidades de continuar. Não são poucos os temas que Fugard concentra em Helen nos diálogos intensos e nervosos, mas nem sempre consegue evitar os muitos volteios que dá em torno de uma mesma situação, tornando-se recorrente, em especial, a partir da entrada do pastor. A cena final é por demais explicativa e acentua os desequilíbrios da narrativa.

A desolação em torno e na casa de Helen não aparecem no cenário de André Cortez, que substitui o jardim das esculturas por objetos coloridos, ressaltando apenas o aspecto estetizante. Falta clima dramático ao cenário, que a iluminação de Telma Fernandes não supre pelo convencionalismo e pelo pouco aproveitamento dos possíveis efeitos das velas. O figurino de Fábio Namatame veste com adequação as personagens. A trilha sonora de Morris Picciotto estabelece oportuna envolvência. A destacar ainda, a boa tradução de José Almino.

Yara de Novaes confunde contenção com ausência de ousadia. Sua montagem sobrevive da correção e do bom comportamento, incapaz de ultrapassar os limites impostos ao mediano. A diretora dá maior crédito ao texto do que seria necessário, confiando no elenco como impulsionador de sua encenação. É neste sentido que Yara dá a sua estocada mais certeira.

Fragilidade e força

Cacá Amaral dribla com competência o esquematismo e o discurso óbvio do pastor com alguma autoridade, vencendo, inclusive, a mudança espontânea e artificial do personagem diante da argumentação de Helen. Resta a Patrícia Gasppar seguir com a agitação a loquaz Elza, mas a atriz não se limita a repeti-la: confere-lhe autenticidade. Cleyde Yáconis sustenta Helen com a fragilidade e a força demonstradas pela escultora nessa longa noite para dentro de dias escuros. Cleyde expõe sentimentos com silêncios expressivos, alternância de tons vocais e maturidade interpretativa. Uma atuação irrepreensível.

18:28 - 01/03/2009










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