Luiz Felipe Reis, Jornal do Brasil
RIO - Após os atentados de 11 de Setembro, o dramaturgo americano Edward Albee impressionou-se com a virulência dos ataques proferidos pela imprensa americana frente a um artigo cunhado por Susan Sontag – publicado, em 2001, na revista The New Yorker. Nele, a escritora contextualizava historicamente a tragédia e afirmava que os terroristas que lançaram seus aviões contra as Torres Gêmeas não podiam ser considerados covardes. O bombardeio da crítica ao texto suscitou no dramaturgo o nível de incompreensão e pouca abertura do povo americano. Transpondo o tema da intolerância à seara das relações familiares e amorosas, peculiares à sua obra, Albee escreveu, em 2002, a comédia A cabra ou quem é Sylvia?, sobre um homem que se apaixona por uma cabra – estreia desta quinta do Teatro dos 4, no Shopping da Gávea.
– O texto me atraiu pela inteligência, pelo macabro e absurdo de testar até onde certas coisas são ou deixam de ser toleradas pela sociedade – explica o apresentador Jô Soares, que assina a tradução e a direção do espetáculo. – Albee coloca uma situação absurda e a encara com um realismo absoluto. Ele lida com muito humor em relação a uma situação que seria insustentável a partir de qualquer outro tratamento. Afinal, uma cabra é personagem.
Ganhadora de todos os prêmios de Melhor Espetáculo em 2002, ano em que foi apresentada em Nova York, entre eles o Tony, a montagem chega ao Rio após bem-sucedida temporada em São Paulo, em setembro do ano passado. Estrelada por José Wilker, a peça aposta num casal modelo, composto pelo prestigiado arquiteto Martin e sua esposa Stella (Denise del Vecchio), para ruir com o arquétipo de uma união perfeita a dois e discutir a natureza indefinida do amor, a inevitável perda da inocência, o desejo pelo risco e sobre como enganamos a nós mesmos ao escamotearmos sentimentos íntimos.
– O texto de Sontag, que impulsionou a percepção de Albee, fala, sobretudo, da intolerância em diversos sentidos. Eliminamos da nossa vida e a convivência de todas as coisas as quais não suportamos – enfatiza Wilker. – Assassinamos John Kennedy, Martin Luther King, afegãos, panamenhos, cubanos, bombardeamos Hiroshima... Ao mesmo tempo em que as piadas fazem rir, o texto estimula uma reflexão mais profunda e ampla sobre a nossa natureza.
No texto, o casal, que a princípio diverte o público com diálogos e piadas inteligentes (e repletas de cumplicidade), vê-se abalado por um fato inesperado: Martin confessa a um amigo que, após uma temporada no campo, apaixonou-se perdidamente por uma tal Sylvia. Mas a traição, ainda que imaginativa – e ainda não tão penosa – desvela um detalhe pitoresco: Sylvia é uma cabra. Em vez de tratar o sentimento de Martin pelo animal como um desvio ou desejo pervertido, Wilker acredita que a relação navega pela irracional natureza do amor.
– Não sabemos por que amamos. Amamos e ponto, mas odiamos pontos finais. Temos que criar sentido – analisa o ator. – Mas paixões não surgem por uma construção lógica. Você olha para uma mulher e se encanta sem um detalhamento racional que defina o sentimento.
Além da incompreensão do ser humano em relação a tudo que fere a estabilidade de seu comportamento, seja este moldado por costumes culturais, religiosos, sexuais ou posicionamento político, o ator levanta ainda outra, e mais amena, ótica pela qual a peça pode ser interpretada.
– Podemos entender A cabra... como uma anedota comum a todos os países e pessoas do mundo que têm vergonha em falar sobre suas esquisitas inclinações e experiências sexuais. Quantas vezes ouvi histórias similares à relação entre Martin e a cabra? Quantos garotos que cresceram comigo no Ceará faziam sexo com galinhas e animais, e que hoje, adultos, não falam das suas experiências? Eu não fazia isso porque tinha muito medo de que os ovos nascessem com a minha cara – diverte-se o ator.
Reencontro amoroso
Wilker já havia assistido à peça, em Nova York, quando o telefone da sua casa tocou, há dois anos.
– Jô falou que havia traduzido um texto pensando em mim. Quando li, percebi que se tratava do texto do qual havia tentado comprar os direitos e montar – conta. – Pude redescobrir um irmão repleto de afinidades. E, como diretor, ele não se preocupa com psicologismos. Toma o texto como se fosse uma partitura. Por isso, cada ator rege seu personagem com os instrumentos que lhe cabem. Ele não força a barra, e é de uma educação irretocável. Após encenar textos que pouco me exigiam, sinto novamente o êxtase de estrelar uma comédia tão inteligente.
Jô faz a sua réplica:
– Wilker une o talento à inteligência, o que nem sempre acontece em cena – elogia o diretor. – Falamos a mesma língua no palco e fora dele. Foi um reencontro importantíssimo. Assim como será este com o Rio. E espero que o carioca sinta o mesmo amor pela cabra que o público paulista. No bom sentido, é claro...
19:23 - 28/02/2009