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Cultura

Livros estabelecem relação entre pensamento e música

Felipe Fortuna, colunista, JB Online

RIO - No auge do Carnaval, terminei a leitura de um livro que surpreende pela relação alcançada entre pensamento e música: Le toucher des philosophes (Gallimard, 177p., 16 euros). Seu autor, François Noudelmann, estudioso de Jean-Paul Sartre, começou a pensar em escrever um livro sobre o significado do piano na vida e na obra do filósofo existencialista depois de assistir a um documentário no qual este aparece a tocar, em 1967, Frédéric Chopin. Naquele mesmo ano, o engajamento político do autor de Furacão sobre Cuba (1960) atingia alta intensidade, com sua atuação no Tribunal Russell, suas viagens internacionais e seus encontros com os principais mandatários de esquerda. Atraído pela imagem e pelo som do militante em frente ao piano, François Noudelmann se perguntou como Jean-Paul Sartre conseguia retirar-se do mundo para ler e interpretar a partitura de um músico romântico. A partir de então, surgiu a curiosidade por outros dois filósofos que, igualmente músicos amadores, mantiveram com o piano um diálogo esclarecedor: Friedrich Nietzsche e Roland Barthes. O conjunto dos três ensaios dedicados a cada um acabou formando um livro de tocante originalidade e revelação.

No caso de Sartre, o piano permitia escapar às demandas imediatas de ação: ao tocar, o romancista de A náusea (1938) se permitia um encontro fora de época – mas, sobretudo, um reencontro com as mulheres. O instrumento está vinculado a uma família de melômanos da qual emergia a sua mãe, Anne-Marie, com quem Sartre tocava regularmente ainda adulto. Esse vínculo maternal e feminino se estendeu à filha adotiva, Arlette, e a um amor “não submisso ao desejo fálico”. Embora ousadas na interpretação, são convincentes as páginas nas quais François Noudelmann explica que as mãos rígidas do filósofo, músico amador que jamais dominou a técnica do rubato, não penetravam o teclado. A interpretação de Chopin criava, assim, uma erótica singular, “entre o refinamento e o desajeitado”. Talvez mais significativo, a devoção sartriana ao músico polonês contradizia, na prática, as declarações em prol de músicos como Schönberg e Webern, que não eram jamais interpretados pelo filósofo. A música, assim, surgiu como um contratempo à política, bem como ao gosto de Sartre pelos compositores clássicos do seu tempo. Recorde-se que a mesma contradição é seguidamente apontada quando o filósofo se dedica a esquadrinhar a obra de um escritor burguês como Gustave Flaubert, a quem dedicou os vastos volumes de O idiota da família (1971).

François Noudelmann descobre em Nietzsche a mesma “ambição de remover o peso do mundo”. Autor da célebre declaração de que “sem a música, a vida seria um erro”, o filósofo alemão fez do piano o campo de batalha em que tudo apostou. O autor de Assim falou Zaratustra (1883) era compositor e teria seguramente preferido uma carreira de músico do que a de filósofo e poeta. O piano teria obrigado Nietzsche a pensar nos “fundamentos corporais” da criação, a partir dos quais o músico-filósofo teve condição de definir seus valores. O ensaísta de Le toucher des philosophes lembra, no entanto, que é necessário escutar a música composta pelo filósofo a golpes de martelo, em especial uma composição para piano, Manfred-Meditation: nela se encontra o ponto de ambiguidade de Nietzsche sobre seu amor, mais tarde renegado, por Richard Wagner e sua opção pelas melodias mais ligeiras de Robert Schumann. A peça em questão, estimadíssima por seu autor, foi brutalmente rejeitada pelo maestro Hans von Bülow, em longa carta na qual exigia que o filósofo nunca mais se dedicasse à música. Fracassado como compositor, ele passaria a manifestar uma “metamorfose vital” que o levaria, sempre de modo conflituoso, a uma admiração desmedida por Georges Bizet e Frédéric Chopin.

Para Barthes, que frequentou o piano todos os dias, o instrumento estimulava seu amor pelos saberes interdisciplinares, bem como sua aversão pela totalidade. Atento aos ritmos do seu corpo e às limitações técnicas que o forçavam a ser mais lento nas suas interpretações, o autor de O murmúrio da língua (1984) mostrava interesse pela articulação entre o tempo imposto e o tempo subjetivo. Como resultado, o gosto e os comentários musicais de Barthes permitem descobrir um elogio ao amadorismo no qual se associam o prazer de tocar e a atividade lúdica, numa recusa a qualquer ordem ou imposição. Noudelamnn descobre, assim, uma vizinhança natural com Sartre com respeito à fuga das tensões. A preferência do autor de A câmara clara (1980) por Schumann deriva, por fim, do fato de que o filósofo poderia tocá-lo sem o obstáculo das dificuldades técnicas que Chopin lhe apresentava. Por sua leveza, fragmentação e dissidência, Schumann viria a ocupar lugar central no gosto de Barthes. Ocorre que, como observa François Noudelmann, o analista refinado dos sistemas de signos acaba por amar a música porque esta o livra dos códigos e dos discursos: a prática musical de Barthes “manifesta uma paixão que contradiz suas linhas teóricas”.

Le toucher des philosophes deixa o leitor mal informado sobre música, mas esclarece aspectos do pensamento de quem a praticou e a inseriu cotidianamente na vida. Trata apenas ligeiramente das possíveis ressonâncias entre os verbos jouer (jogar, brincar e tocar um instrumento) e toucher (tocar algo ou alguém fisicamente), mas não deixa escapar a atividade corporal que lhes está associada. É um livro que leva a noção de ensaio às raias do impossível, quando a imaginação passa a ser tão livre a ponto de se transformar, puramente, em som.

18:50 - 27/02/2009










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