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Sociedade Aberta

Gaza e Manágua na mira da União Européia

Vicent Boix, Jornal do Brasil

ESCRITOR E AUTOR DO LIVRO EL PARQUE DE LAS HAMACAS - No dia 18 de dezembro o Parlamento Europeu (PE) aprovava uma resolução denominada Os ataque contra os defensores dos direitos humanos, das liberdades públicas e da democracias na Nicarágua, que foi aprovada pelo grupo Popular, o Liberal, Europa das Nações e também pelos “socialistas”. Contra votaram Esquerda Unitária e os Verdes.

Se não se conhece a atualidade centro-americana, se perguntará o que ocorreu no país para que se intrometa o PE. O Executivo nicaragüense – há dois anos nas mãos da Frente Sandinista de Libertação Nacional – não orquestrou nenhum assassinato sistemático. Não bombardeou ninguém, não ocupou violentamente nenhum espaço, não mantém presos políticos. Não dispõe de alta tecnologia militar nem de armas de destruição em massa. Nem dissemina fósforo branco na população ou destrói colégios da ONU.

Tampouco lançou bloqueio econômico contra alguém. Não atacou ou destruiu mesquitas, catedrais ou universidades. Não viola as resoluções ou rouba a ONU. Não provocou exilados nem campos de refugiados. Não edificou assentamentos ilegais em países vizinhos e, como não há colonos, estes não amedrontam a população. Não roubou impostos e não impede a chegada de ajuda humanitária, alimentos ou medicamentos.

Ainda assim, a Nicarágua tem conseguido “reunir mais méritos” que Israel para que o PE votasse uma resolução vergonhosa. Como se não fosse suficiente, cancelou-se a ajuda econômica da Europa que recebia. Inclusive governos como o da Colômbia, onde se demonstrou a implicação do Exército e da classe política no território de Estado.

O texto é um sumário de diversos feitos. E considera, por uma parte, a hostilidade a diferentes meios, partidos e organizações sociais por parte do governo sandinista de Daniel Ortega.

A Nicarágua é muito importante do ponto de vista geopolítico e “emocional”. Localizada no coração da América Central, hoje em dia é o único Estado de esquerda da região. Forma parte da Alba e mantém relações de cooperação com os países-membros. Longe ficam os governos social-democratas do Panamá e da Guatemala.

Depois de 10 anos de revolução sandinista, o FSLN abandonou o poder em 1990 com a vitória eleitoral de Violeta Chamorro. Sofreu duas derrotas, mas em novembro de 2006 recuperou o governo. Agora, tanto os EUA quanto a UE temem que o exemplo de Nicarágua se estenda a outros países vizinhos.

A Nicarágua foi um país subordinado aos EUA e à UE durante os governos de direita. Nestes anos, sofreu drásticas cirurgias neoliberais sem anestesia prévia, que originaram o empobrecimento da população, o aumento do analfabetismo, etc. Agora estabeleceu novas relações com países como Irã, Rússia, Bolívia, Venezuela ou Cuba, e isso é o que incomoda as potências ocidentais.

Se utilizaram as instituições da UE para pressionar um país, no momento em que se evitou qualquer ação efetiva antes feitos infinitamente mais graves como o cruel ataque israelense na Faixa de Gaza. Na tentativa rocambolesca de justificar o injustificável, alguns políticos europeus e os meios “independentes” falaram e informaram sobre a agressão como se existisse uma simetria das forças entre palestinos e opressores.

Muitos políticos europeus, incluindo ministros espanhóis, pediram o cessar-fogo, mas ao Hamas.

É assim que a classe política européia em geral tem feito autênticas manobras para tentar colocar à mesma altura a agressão israelense e a defesa palestina. Aqueles que negaram a ajuda humanitária à Nicarágua sem piedade alguma, não se atreveram a enfrentar Israel.

Os acontecimentos em Gaza e Manágua são também um claro aviso para países como Venezuela, Bolívia, Cuba, Equador, El Salvador, Argentina, Irã, Paraguai etc, de que os EUA e a UE, sempre que preciso, estarão dispostos a apoiar qualquer variante desestabilizadora ou se calar ante qualquer ataque armado por mais absurdo que seja. Para “esmagar uma mosca”, congelaram a ajuda humanitária e não respeitaram a soberania de um país. Por uma agressão criminal, se calarão enquanto brindam por um melhor ano.

21:52 - 30/01/2009










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