Ir direto para o conteúdo

Jornal do Brasil - O primeiro jornal brasileiro da internet



RJ - Hoje
22º / 33º
RJ - Amanhã
21° / 28°



Economia

Pacotes de socorro ameaçam contas públicas

Natalia Pacheco e Gabriel Costa, Jornal do Brasil

RIO - A crise financeira internacional traz um dilema para líderes de economias afetadas por todo o planeta: manter os mercados em funcionamento a qualquer custo e pagar o preço no futuro, na forma de déficits públicos e orçamentários; ou poupar gastos e enfrentar os reflexos da turbulência de maneira pontual, sob a sombra da recessão. Os pacotes de socorro bilionários anunciados desde o ano passado pelos governos evidenciam a escolha dos chefes de Estado ao redor do mundo. O fantasma do desequilíbrio ocasionado por gastos maciços, no entanto, permanece no horizonte.

Em seu relatório anual, divulgado na semana passada, o Fórum Econômico Mundial (WEF, na sigla em inglês) afirmou que os vultosos volumes de recursos destinados para ajudar instituições financeiras ameaçam as “já precárias situações fiscais de países como Estados Unidos, Reino Unido, França, Itália, Espanha e Austrália”.

Prioridades

Conter o desemprego é o primeiro objetivo do novo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama. No ano passado, 2,8 milhões de pessoas ficaram sem trabalho nos Estados Unidos. A taxa de desemprego alcançou o maior patamar desde 1993. Os gastos do governo para reativar a economia, no entanto, devem acarretar um déficit orçamentário de cerca de US$ 1,3 trilhão até o fim de 2009.

Especialistas avaliam que Obama vai precisar usar cerca de US$ 1 trilhão de fundos públicos apenas para ancorar a capitalização do setor bancário, após a injeção de US$ 350 bilhões da administração Bush. O Congresso americano aprovou no ano passado um fundo de resgate de US$ 700 bilhões, dos quais a metade ainda não foi gasta. O plano de estímulo do novo presidente prevê a injeção de US$ 835 bilhões em recursos públicos em dois anos.

No Brasil, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva já deu o aval para a liberação de crédito para socorrer alguns setores da economia. Na última quinta-feira, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, anunciou que o Tesouro Nacional vai disponibilizar R$ 100 bilhões para o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) liberar financiamentos para as empresas. O crédito está condicionado à manutenção de empregos pelas companhias.

Economistas consideram os pacotes importantes para aumentar a atividade econômica, mas destacam que há diferenças entre as economias americana e brasileira e, por isso, as estruturas dos pacotes devem ser diferentes.

O diretor do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) e ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Júlio Gomes de Almeida, avalia que, a longo prazo, os déficits gerados pelos gastos para conter a crise serão compensados por aumentos das taxas de juros dos países desenvolvidos, o que vai complicar a situação para os emergentes que buscarem financiamento externo.

– O preço da crise, hoje, é o desemprego. A médio e longo prazo, será o encarecimento do crédito para os países em desenvolvimento – diz o economista.

Nos EUA, a política fiscal é mais sustentável, e as conseqüências dos estímulos terão diferentes impactos na economia, dizem os especialistas. No Brasil, no entanto, os pacotes devem ser pontuais, principalmente para as empresas impactadas pela queda das exportações, para que não haja desequilíbrio na balança de pagamentos. Mais gastos do país implicam em mais importações, pois as empresas terão de comprar alguns produtos escassos no Brasil. E é aí que reside o problema, porque a balança de pagamentos tenderá para o dólar, o que pressionará a inflação.

Mau uso de investimentos

Além disso, há um consenso de que os investimentos públicos são mal alocados, ou seja, o governo poderia desenvolver projetos que seriam mais bem-sucedidos se fossem implementados por empresas privadas. A relação custo-benefício de projetos sociais também não corresponde às expectativas. Por isso, especialistas defendem atenção maior ao Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e setores estratégicos, como o automotivo, siderúrgico e petrolífero. Para que os pacotes não acabem se tornando um vilão para a economia brasileira no futuro, o governo tem de acelerar o PAC, liberar recursos pontuais e manter a percepção de solvência entre o Produto Interno Bruto (PIB) e a dívida externa, que caiu de 60%, em 2002, para 36%, em 2008.

– Se for para gastar mal, é melhor não liberar os pacotes – disse a economista-chefe do banco ING no Brasil, Zeina Latif.

Mas há quem defenda o maior número de pacotes possível para estimular a economia brasileira. O professor de Economia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Antonio Corrêa de Lacerda, diz que o aumento de gastos público já deveria ter acontecido e o governo deve gastar sem medo. O desequilíbrio fiscal deve acontecer, mas este não será o maior problema. Para Lacerda, o pior cenário é o de recessão, que terá como conseqüência um desequilíbrio muito maior.

Nos EUA, a história é outra. Apesar do déficit elevado, o mercado confia na política fiscal do país. O risco de desequilíbrio fiscal lá é muito menor do que no Brasil. Outro ponto a favor para a liberação de pacotes pelo governo é a moeda americana. Com o dólar, o risco de desequilíbrio da balança de pagamentos também é menor do que o do Brasil, principalmente em época de alta da moeda americana, atualmente em torno dos R$ 2,30. Além disso, a economia dos EUA já está em deflação. Então, o governo deve correr para criar mecanismos de estímulo ao consumo.

– Lá, os americanos têm de gastar. Então, o governo deve socorrer todos os setores. Aqui, o governo brasileiro deve focar nos setores que estão sofrendo com a queda das exportações e em infra-estrutura – destaca o ex–diretor do Banco Central e economista–chefe da Confederação Nacional do Comércio (CNC), Carlos Thadeu de Freitas.

11:01 - 25/01/2009










Edição eletrônica





Jornal do Brasil - O primeiro jornal brasileiro da internet

© 1995 - 2009. Brasil Mídia Digital