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Cultura

Ao JB, Neschling diz que pode ir à Justiça após demissão da Osesp

Monique Cardoso, JB Online

RIO - Demitido por e-mail enviado na quarta-feira pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, presidente do Conselho da Fundação Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, o maestro John Neschling se diz chocado.

O regente está na Suíça e, na semana que vem, rege em Atenas. Em entrevista ao Jornal do Brasil o maestro desabafou: "Nunca fiz outra coisa senão zelar pela Osesp".

Os últimos dois anos foram de intenso desgaste e troca de farpas entre o regente e o governador de São Paulo, José Serra. Neschling chegou a chamar o líder tucano de "menino mimado". O governo garante R$ 43 milhões do orçamento do grupo. Os atritos com o secretário estadual de Cultura João Sayad e com alguns músicos também se tornaram públicos.

O maestro já informara oficialmente que não renovaria seu contrato. Ficaria na fundação até 2010. Um abaixo-assinado reuniu 2 mil nomes pedindo sua permanência e, no concerto do dia 13 de dezembro, na Sala São Paulo, no lugar dos habituais aplausos, a platéia gritou em coro: "Fica, fica".

John Neschling assumiu a Osesp em 1996 com um salário de R$ 100 mil por mês. Na última década, a transformou na melhor orquestra do Brasil, conquistou inúmeros prêmios internacionais pelas gravações de discos e uma legião de fãs. Fez duas turnês pelos Estados Unidos, duas pela Europa e duas pela América Latina. O maestro francês Yan Pascal Tortelier é apontado como o regente desta temporada. A fundação prometeu anunciar um novo diretor artístico para 2011.

O senhor não estava no país quando foi demitido. Como recebeu a notícia?

Estamos na Suíça, eu e Patrícia (Melo, escritora, mulher do regente). Recebi a notícia informalmente através de um e-mail do presidente do Conselho. Aguardo até agora a notificação oficial.

Por que o senhor acha que a fundação não o esperou retornar para uma conversa pessoal?

Fiquei no Brasil trabalhando na Osesp num ritmo incessante até 1º de janeiro deste ano. Ignoro as razões pelas quais o conselho não me avisou antes. Tudo poderia ter sido diferente, mas, enfim, foi essa decisão do conselho.

O senhor demonstrou publicamente suas opiniões e foi punido. Está arrependido?

Acredito jamais ter sido ofensivo ou agressivo com os membros do Conselho. Era minha obrigação zelar pelo projeto Osesp e pela sua excelência. Nunca fiz outra coisa.

Nestes 12 anos, sua postura dividiu opiniões. Há os que o vêem como a alma da orquestra. Outros criticam sua personalidade, já o chamaram de arrogante. Isso pesa agora?

Todas as pessoas que ficam na berlinda acabam dividindo opiniões. Nelson Rodrigues dizia que a unanimidade é burra. Não nego que estou chocado e magoado

Continua achando, como já declarou, que a qualidade da Osesp pode cair dependendo do que aconteça na transição?

Claro que sim. Não afirmo que vá acontecer. Mas o risco existe.

Em dezembro, ao final de um concerto na Sala São Paulo, formou-se um grande coro pedindo para o senhor ficar. O que sentiu?

Que há por parte do público brasileiro, e não só de São Paulo, um grande reconhecimento pelo trabalho que realizei.

Na internet, fóruns de discussão lamentam sua saída. Já foram feitos pedidos de cancelamento de assinatura. O que diria ao público agora?

Que lamento muito. Estou tão desolado quanto eles, e fico feliz com as inúmeras manifestações de carinho que tenho recebido.

O que representa financeiramente para sua carreira esta demissão? E artisticamente?

Financeiramente a situação é muito difícil. Contava com dois anos de salário e minha agenda, inteiramente dedicada à Osesp , ocupava todo 2009 e 10 meses de 2010. Não sei dizer quantos convites recusei para esse período, para poder dedicar-me integralmente à Osesp, que foi nesses 12 anos a minha prioridade absoluta. Artisticamente, lamento não poder reger os concertos programados. A forma com que se deu a minha demissão é prejudicial à minha imagem no Brasil e no exterior. Tenho que pensar em todas essas questões.

Seu contrato prevê uma multa em caso de quebra. Por causa de suas declarações recentes, ela não seria paga. O que o senhor tem a dizer sobre isso?

Por enquanto, não posso dizer nada. Tenho que me inteirar de tudo com mais detalhes, e, na hora certa, tomarei minhas decisões.

Pretende acionar a Justiça?

Não sei.

Mudanças podem trazer resultados positivos. A orquestra não cresceria com um novo maestro?

Espero que o meu sucessor faça um bom trabalho e que a Osesp continue a brilhar.

Como foi a repercussão na Europa?

Nada boa, como já disse. As pessoas simplesmente não entendem por que meu contrato foi interrompido dessa forma, e eu não sei o que explicar...

Que aspecto o senhor destacaria como a marca de sua contribuição à orquestra?

Dediquei grande parte de minha vida ativa e criativa à Osesp, todas as grandes conquistas tiveram a minha assinatura. A minha resposta à sua pergunta é outra pergunta: o que era a Osesp 13 anos atrás?

E o contrário, o que o senhor, pessoalmente, mais ganhou com a Osesp?

Alegria de poder construir um projeto da maneira como sempre sonhei. Parafraseando Borges, diria que fui profundamente fiel a esse meu sonho. Vida que segue.

Como será não fazer o caminho de casa para o trabalho diariamente?

Haverá outros caminhos a fazer. Podem ser difíceis de ser encontrados, mas existem.

21:57 - 24/01/2009










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